quinta-feira, 17 de março de 2016

CADA VEZ MENOS SMART


Quando comprei finalmente meu smartphone, o aparelho já era mais febre que pochete nos anos 80. Jogadores de futebol, sertanejos e modelos faziam suas selfies no próprio ambiente de trabalho. No mesmo mês fui acometido por uma crise de ansiedade e não demorei para ver que existia relação íntima entre as duas coisas.

Este aparelho mágico e fascinante que temos em mãos tem uma função que vem sendo usada sem controle. Ele foi responsável por terceirizar nossa carência. Antes de existir um celular tão esperto já depositávamos nossas inseguranças e ansiedades nos animais de estimação,  na malhação da academia, na compulsão por sexo ou seja lá o que for. Mas por que tanto trabalho se através de uma rede social podemos unir tudo isso? Os nerds, aqueles garotos estranhos que tinham problema de relacionamento na escola e se escondiam em alguma atividade onde se sentiam seguros são atualmente nossos modelos de comportamento. Temos agora uma caixinha onde despejamos toda a fúria por não sermos tão amados e idolatrados. Assim, podemos sair na rua saudáveis, divertidos e leves tendo o facebook como nosso laxante emocional. Não precisamos mais correr atrás da gatinha para uma foda pós boate. Não precisamos mais bater na mesa do bar para dizer o quanto somos mengão.  Não precisamos mais olhar nos olhos da pessoa e dizer o quanto a amamos.

Gastamos  todo tempo de vida real gerando conteúdo para nossa vida virtual. Somos celebridade de nós mesmos. Tristes palhaços sem circo.

Quanto focamos no indivíduo, no caso eu e você que está lendo, estes hábitos parecem um tanto infantil e fáceis de controlar. Mas a carência é a mãe de todos os vícios e a sensação de impunidade virtual excita. Posso xingar, me exibir, posso me vangloriar e nada vai acontecer comigo. Assim como as putas de Amsterdam estamos escondidos atrás de um vidro, rebolando nossas farturas atrás de likes em forma de gorjeta. A grande guerra que o ser humano está prestes a enfrentar é contra sua própria hipocrisia. Neste momento, militares zoados em programas de comédia estão sendo cotados para presidente no Brasil. Jogadores negros estão sendo chamados de macacos na Europa. Jornalistas estão sendo degolados com transmissão ao vivo na Síria.  As redes sociais estão legitimando o lado mais sujo dos homens.

Minha bisavó costumava conversar com o rádio e dar boa noite para o apresentador do Jornal Nacional, o que divertia os mais novos, acostumados com a tecnologia. Espero que o mesmo aconteça conosco. Quando for coroão tirando uma selfie e minha filha rir destes modos tão antigos, quero ver através de seus olhos que tudo não passou de empolgação e nossos demônios voltaram para dentro do armário por sermos muito mais smarts que eles.



sexta-feira, 7 de agosto de 2015

TE FAZ PENSAR E TE FAZ SENTIR

Contando agora, depois de me espichar no sofa vendo TV, tomando uma coca cola e usando chinelo, Bogota ate pareceu uma historia distante. De anteontem para hoje tudo mudou. O segundo dia na capital surpreendeu com a luz do sol trazendo um pouco de cor as montanhas. Tive que abrir mao de conhecer a catedral de Zipaquira, toda em sal, contruida pelos mineiros devotos. Fui caminhar pelo bairro rico para almocar no restaurante-bar mais foda que ja conheci. Sao 3 andares que se dividem entre ceu, purgatorio e inferno, caprichosamente decorado. Do cardapio, que se leva para casa gratuitamente, a recepcao feita por musicos e palhacos, tudo muito bem calculado para impressionar. Quem conhecer o responsavel por essa facanha, aperte a mao do sujeito por favor. Andres carne de Res e a melhor coisa de Bogota. 

Um oculos novo e uma camisa azul. Foram essas minhas compras na cidade. Se por um lado os colombianos foram tao criativos na confeccao de livros e joias, deixaram a desejar no presentinhos que lembram a cidade. Na verdade o que deu vontade mesmo de levar para casa foram todos os quadros do Botero em seu museu. Seus gordinhos meio zarolhas bem que poderiam ser transformados em brindes do Mc Donald tamanha sua simpatia. Em tempos de cirurgia bariatrica, os quadros do pintor sao um verdadeiro ode a fofura alheia. Fiquei horas tirando foto e olhando de perto cada pincelada. Haviam tambem quadros de outros artistas incluindo de Picasso e Monet.

Me sentia tres vezes mais cansado por algo que esqueci de explicar. Cada vez que saio do hostel me perco. De um lado um sistema de estradas e ruas todas reconhecidas por numero, de outro eu que fujo da matematica ate na hora de decorar o nome do onibus. Por isso, cada passeio se tornava maior na medida que dava voltas e mais voltas no quarteirao ate encontrar. 

Aguardei no hostel a hora de pegar o onibus e ja na rodoviaria comprei um pao com bife dentro, que horas depois joguei fora com medo de comer. Com um mes de antecedencia reservei pela internet um lugar na janela de frente para o DVD para que a viagem ate Medellin fosse agradavel. Mas no meio do caminho havia um Bogotenho chamado Gali que roubou meu lugar. Vindo de um criminalista ate que era simpatico. Passamos a noite conversando sobre amenidades. Perguntei para ele sobre o periodo do narcotrafico mas percebi que ele, como todos os outros, evitam falar sobre o assunto. 

Tive uma grande expectativa por Medellin, justamente por ser um lugar que aparentemente nao tem nada especial. Mas como disse no post anterior nao viajei sozinho. Se em Bogota Gabriel Garcia Marques me fazia companhia, aqui um outro amigo chamado Juan Pablo Escobar me espera. 
A primeira impressao que tive da cidade me divertiu. Medellin parece a Zona Oeste, mais exatamente Bangu. Cercada de montanhas, quente, com camelos tomando a calcada para vender de tudo. Definitivamente o turismo aqui fica em segundo lugar. Meu hostel fica longe do centro, em um bairro meio Barra da Tijuca e tenho que pegar transporte. Deixei as coisas no hostel, que mais uma vez estava tomado de europeus que andam entre si e nao se importam em conhecer gente, e fui para o Centro. Depois de rodar pelas ruas esburacadas, com suburbanos colombianos, decidi que ainda nao estava preparado suficiente para passear por ali. Era muita informacao. Entao, aproveitei que ainda eram meio dia e tomei um onibus e fui para o interior conhecer El Penol. 

Entre lindos vales houve a necessidade de criar uma represa para abastecer a Antioquia e a decisao foi simples. Vaza todo mundo que a gente vai encher de agua. Uma cidade inteira esta debaixo d\agua e uma outra cidade, por cima das montanhas foi contruida. Tudo isso seria simples se no local nao houvesse uma enorme pedra, maior que o pao de acucar, com 700 e poucos degraus onde se tem uma vista fantastica e uma brisa deliciosa. Fiquei por la muitas horas e, se na subida para o monte que da acesso a pedra fui de tuc tuc, aquelas motos equipadas para carregar 3 pessoas.na descida fui a pe, curtindo o visual e raro silencio que se fez depois da ida dos onibus de turismo. A buceta, microonibus daqui me esperava, e encarei de pe a viagem de volta. 

Nestas 24h em Medellin ja carrego varias coisas comigo, como girias tipo `timba` `bacan`, casas todas no tijolo, ate as mais abastadas e um metro limpo e gentil, que explica os pontos turisticos proximos, Ainda refletindo sobre a diferenca entre as duas cidades, seria simplista dizer que sao como o Rio de Sao Paulo. Para mim Bogota te faz pensar e Medellin te faz sentir. 

terça-feira, 4 de agosto de 2015

VAMOS EMBORA PARA BOGOTÁ...

Quando deixei minha avó com olhos marejados por me ver partir na semana de seu aniversário de 80 anos, compreendi finalmente que esta seria uma viagem de dentro para fora. Depois de alguns anos experimentando a companhia deliciosa da Juliana e depois de voltar no tempo, indo para Cuba, finalmente estava com a mochila nas costas novamente, com roteiros e mapas. Mas diferente do que todos sabem nao viajei sozinho.
Para me acompanhar em Bogotá trouxe meu amigo Gabo, que me fez sentir o sabor ácido, doce, dourado e salgado da Colombia através dos livros. Disse para meu avô uma vez que os mortos me encontram no metro, pois reconheco rostos do passado, quase toda semana, no meio da multidao. Foi o que me aconteceu na conexao no Panamá, onde me vi desmontado por Cristován, um elegantissimo senhor, com seu bigode grisalho e uma bengala que, de tao bem encaixada com sua personalidade, parecia uma extensao dele mesmo. Nao conheci Gabriel Garcia Marques mas acho que se o encontrasse no aeroporto ele seria Cristóvan, com suas piadas de salao e uma fala pausada capaz de conseguir a atencao do mundo.
Com pouco menos de 24h em Bogota, ja visitei a metade de seus principais pontos turisticos, sendo que nenhum deles mereceu mais que meia duzia de fotos. Como gosto de tecer teorias sem qualquer embasamento teórico, acho que a Colombia , enquanto todos estavam amadurecendo para o turismo, ainda sofria com a guerra do narcotrafico. Agora corre contra o tempo. A Candelária, bairro alternativo, muito parecido com a Lapa no Rio, com o Pelorinho na Bahia ou com o Bairro Alto em Lisboa, tem sua beleza, com casa antigas, telas de grafite enormes em todas as partes e uma multidao de estudantes com seus seus olhares inocentes pro futuro. O Museu do Ouro tem tanto ouro, tanto ouro, que depois do segundo andar voce ja nao é capaz de diferenciar o que viu. Achei bacana os aderecos que as tribos andinas usavam e o nivel de detalhes que eram capazes de fazer em uma epoca primitiva com uma rocha tao resistente. Mas foi só. Ainda falando sobre turismo, Monserrat, a montanha com uma igreja que fica a mais de 3mil metro de altitude, me desafiou com seu teleferico quase em diagonal e tem uma vista incrivel para uma cidade cinza, chuvosa e feia.  Pausa para um auto elogio: o soroche, efeito colateral da altitude que fez minha Jujubinha murchar na vez passada, sequer fez cosquinha em mim.
Desconfio que as tantas tonalidades que Gabo tenta me mostrar em seu livro parte das pessoas e nao dos objetos. Os colombianos sao muito parecidos com os brasileiros. Possuem uma mistura indigena-negra-européia capaz de fabricar gente bonita, mesmo escondidas dentro de casacos e cachecois. Diferente da simpatia desesperada dos cubanos, sao plácidos e nos olham nos olhos. Buena gente!
Estou aproveitando os dias para treinar o espanhol que aqui nao surpreendeu ninguem. Alias quase ninguem. Um belga gago que tentava falar comigo logo na chegada tenho certeza que invejou minha fluencia. Para completar as ruas sao todas orientadas por numeros e as casas do bairro onde fica meu hostel sao todas iguais. Hoje vou repertir a noite de ontem. Tomar uma cerveja no hostel, ler a biografia do meu escritor favorito e aproveitar para organizar os pensamentos. Ah, isso se o gordo ingles que dorme na cama de baixo deixar. Aquilo nao foi ronco, foi turbulencia no beliche.


obs.: O teclado daqui nao coloca alguns acentos entao vai rolar assim ate o final da viagem.




quarta-feira, 11 de março de 2015

TOUCH ME DESTINO

Assim como as folhas se desprendem das árvores, no outono, namoro o vento frio, flerto comigo mesmo na poça d´água. Se o verão é algodão doce, óculos de lente colorida e camisa estampadinha, a chuva fina e o céu nublado anunciam a morte de tudo aquilo que não tem calor e luz própria suficiente para se manter de pé. Por falar nisso, baixei esse aplicativo aqui sobre previsão meteorológica, vê só. Passando o dedinho assim ele mostra que minuto vai começar a fechar o tempo. Poderia ter um aplicativo destes para tudo na vida né? Imagine saber a hora exata que minha filha despertará depois de lhe abrirem o peito ao meio, feito uma gaiola, para dar jeito na sua atresia pulmonar? Como seria tranquilizador, esticar o relógio de todo o semestre e ver que a firma, mal das pernas, não vai fechar as portas? Seria possível não sofrer, sabendo o dia exato que a mulher da minha vida irá renunciar ao namoro sabor água e sal, me olhando com olhos opacos da morte, depois de me culpar por tantos sábados perdidos, debruçada à minha espera na janela aberta do celular? Gosto de conversar com você porque é sincera. Enquanto filosofo já conferiu se havia recebido mensagem duas vezes, ou foi ver a hora, sei lá. Francamente acho que o mundo se tornou superficial demais. Voltamos a época das cavernas onde um emoticon, um desenho,  ou uma foto, dizem mais que mil palavras.  Sua cara, por exemplo, se fosse amarela, seria aquela que mostra descrença, tédio. Mas vamos falar de coisa boa. Me disse que estava fazendo curso de tarot e tinha algo para me dizer. Não desconfio da sua clarividência, inclusive foi a única a acertar a marca do meu carro novo, mas vou logo avisando: se pegar santo aqui na mesa do bar, meto o pé. Morro de medo de gente em transe. Se a capacidade intelectual do ser humano já é fantástica consciente, imagine quando ela se desprende do corpo? Melhor não brincar com isso aqui. Dizem que estes ambientes com bebida e jogo rondam muitos espíritos ruins. Inclusive pode ter um aqui olhando pra gente, ouvindo tudo que estamos conversando. Pago até uma Original para ele caso me ajude a entender minhas angústias. Sofro uma crise dos quarenta desde os trinta. Estou chegando ao final de um ciclo, o fim de uma corrida que irá emendar em outra. Sinto a urgência de novos percursos, novos adversários e me importo cada vez menos em chegar ao final deste primeiro ciclo como retardatário, um autodidata com pouco talento e muito esforço, sem grandes conquistas financeiras nem realizações inesquecíveis. Seria bom saber se, por trás desta casca fina e vulgar de beleza juvenil, existe algo de mais valor. Você dá este sorriso de canto de boca porque já passou por isso, apesar de parecer mais nova. Bom, se pelo menos sobreviveu sem sequelas, ainda tenho esperança. Pode rir. Volto já.


Fui ao banheiro e quando voltei Nina havia ido embora. Acho que realmente não fui uma boa companhia neste domingo à noite. Tem dias que é melhor conversar consigo mesmo. Antes de pagar a conta notei que ela havia mandado por mensagem a imagem de uma carta do tarot. Nela, o desenho de uma torre, atingida por um raio, e dois personagens desabando. Longe de mim saber do que se trata. Sem significado, não há profecia. Vai que o destino resolve dar like.

quinta-feira, 13 de março de 2014

CARRAPATO DE DEUS

Fizeram pouco caso da ressurreição do Guto, porra. Só porque era terça-feira de carnaval não houve sequer um smartphone pra registrar quando ele levantou do caixão, com aquela cara de espanto, no meio tantas flores. A notícia espalhou feito confete, mas no meio de tanta fanfarra e cerveja, ninguém acreditou. Parece piada. Se tornou piada. Guto, que agora vivia feliz da vida nem se importou com isso. Tinha como testemunha sua mãe e sua mulher, as únicas que velavam o corpo na sala de casa enquanto a beija-flor desfilava seu carnaval pragmático na tv.
- Agradece a São Lázaro e a novena que sua mãe fez. Não a mim.
Com o prato de comida na mão, sentado no sofá, Guto nem ouviu Brisa responder seus arroubos sobre a vida. Era a reprise do jogo do mengão na Libertadores, mas a cada gol, o ex defunto gritava com o locutor. O caixão, que acabou sendo comprado pela funerária novamente pela metade do preço, ainda jazia na sala, ao lado da mesa de jantar, quando o rapaz apareceu perfumado após longo banho, com a blusa vermelha de botão, calça jeans justa e barba feita. Preciso beber com meus amigos. Aquela cambada nem deu as caras por aqui. Não terminou a frase quando já havia batido a porta e saído. Sentia-se renovado, como se tivesse trocado de pele. Quanta resignação nos últimos anos! Parou de beber, parou de fumar, o pau não ficava em pé, não escovava mais os dentes e as unhas também cresciam livres. Eu ia morrer cacete, pra que vou me preocupar com isso?  Guto comemorou com seus amigos mais íntimos. Depois, com os menos íntimos. Depois, com o pessoal da repartição e o pessoal do bairro. Mas foi um desconhecido, amigo do amigo, que esticou a carreira de pó, na mesinha de cimento, onde os aposentados exercitavam seu cérebro toda manhã. Por que não? Inspirou tudo com a mesma gula de viver de sua nova realidade. Sabe-se lá o que é morrer, pior ainda, voltar a viver? Talvez não fosse sábio ir ao médico e ignorar o que havia acontecido para seu câncer no sangue curar de bate-pronto, mas por outro lado, o que os doutores falariam se eles mesmos haviam desenganado o paciente? Seria um conforto para a alma entregar-se a orações, mas os ensinamentos do pai ateu, comunista, não permitiam sequer admitir a presença do Divino ao seu lado. “Contra a força não há resistência”. Era seu lema para todos os assuntos de botequim que não concordava.
Brisa não saiu no quarto naquela manhã. Ou melhor, naquela semana. Guto atentou para a questão deitado no sofá. Seguia um ritual. Abria os olhos devagar, mapeava tudo o que via, conferia a respiração, dava um sorriso e estava pronto para mais um dia. Foi até a porta e abriu lentamente. Sua mulher, sob a meia luz da cortina, estava deitada, coberta pelo lençol que sacudia com o ventilador de teto rodando preguiçosamente. Como estava feia. De camisola verde água, como um bebê velho. Dormia com as mãos juntas e seus dedos longos se fechavam feito concha no travesseiro. Sentiu vontade de voltar para a sala mas Brisa acordou. Falou lentamente de afazeres da casa, tentando parecer que não eram cobranças ao marido. Falou do que ainda havia na geladeira, das plantas sem regar e da infiltração do banheiro. Guto ouvia tudo ao longe pois ao ajoelhar-se na beira da cama para ver sua mulher de perto, reencontrou uma velha amiga. Nos fundos dos olhos de Brisa a Morte se escondia. Tentava não encará-lo mas como não reconhece-la se era a mesma que morava no espelho de todas as manhãs, antes da hemodiálise? Brisa gozava de perfeita saúde mas a Morte, com sua perspicácia eterna tinha o tempo a seu favor. Enquanto se afogava em fúria ao ver marido tão cheio de vida, desejando que este ainda estivesse moribundo e dependente de sua compaixão, a mulher deixou uma porta aberta para que a morte, este carrapato de Deus, se instalasse no seu peito. Para ela mastigar amor ou saúde tanto faz. Importante é manter o equilíbrio entre a felicidade e a frustração entre os vivos.


 *Para Gustavo que, com seu eterno otimismo, me tirou da letargia.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

AMOR DE SEIVA BRUTA


Gosto dela quanto gosto do mar. Gosto quando está salgada, gosto de sua cor de areia molhada. Tem para mim um encanto, e seu colo, o mesmo balanço moroso de traineira em ponto morto. Já não vivemos tempos de tormenta e quando voltamos pelo litoral, substituímos a conversa pelo silêncio que a lua nos impõe.  É fugindo da rotina urbana que posso estudar sua natureza decantar.

Como uma janela que se abre todos os dias, antes mesmo de me livrar dos trincos, tenho em mente tudo aquilo que verei entre as ventanas. Curvas, nuvens, florestas, insetos e flores, tudo cabe na beleza desta mulher. Em qualquer lugar, sem muito esforço, sou capaz de  ouvir sua voz manhosa, ver seus olhos redondos e sua boca de grão de café. Sei, sem dizer uma palavra, quando está furiosa, agitada, ansiosa ou relaxada. É pouco, mas já me garante um visual deslumbrante.

Neste ponto onde o amor deu a volta no calendário e os dias começam a se tornar repetidos, encharca meu cascalho um amor de seiva bruta, melado e espesso. Matéria-prima que só ganhará valor através de quatro mãos. É preciso dar um destino ao amor, como os sulcos venosos esculpidos para a sangria do látex. É preciso ter perseverança de garimpeiro, que espera, com olhos fixados, cada ponto brilhante. É preciso ter sempre a mochila nas costas para ser capaz de mudar tudo de lugar sem perder o faro por preciosidades.

Do último passeio não trouxemos conchinhas, mas algo que nunca se viu em terra. A peguei pela mão e, numa jornada entre bolhas de ar e água a conduzi para o fundo do mar, que se deixou levar, cúmplice e confiante. A manobra não é das mais fáceis: é preciso parar lá embaixo, sem movimentos bruscos ou coração acelerado. Permanecemos por dois segundos, tempo suficiente para ouvir os mil sinos marinhos. Eles estão lá me esperando, desde a infância, e já cheguei a desconfiar que era o único a ouvi-los. Mas ela ouviu, emergiu com um sorriso de vitória e nem sabe o quanto fui feliz ao dividir mais este tesouro. O outro tesouro também ficou por lá. A chamamos de Cama Mágica porque tem o poder de nos proporcionar sonhos lindos que, vez ou outra, entrelaçam-se à noite. Está escondida no quarto sem janelas, onde também ficam os fósseis de caramujo, artigos de pesca e uma bóia inflável com cara de dragão envergonhado. 

Aproximar estas duas paixões são obras de puro interesse particular. Ambos me impressionam e me desafiam. Estando fora das estatísticas que determinam quem são os jovens do país, tenho a obrigação de me preparar para o futuro. Sou um jovem adulto e, ao invés do martírio pela idade avançada, prefiro gozar seus prazeres com o tempo. Muitas lacunas serão preenchidas, perdas serão assimiladas, conquistas serão celebradas. Mas nada tão profundo e misterioso quanto meu amor e meu mar.


Para J.D.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

O QUE VAI E O QUE FICA

O QUE FICA EM 2012

 - A dor que eu senti ao terminar um projeto de banda, abandonado coletivamente, depois de cinco anos de diversão.
- A situações que causei a mim e a terceiros por conta do meu ego, baixa auto estima e necessidade de afirmação, seja através de conversa ou mensagem.
- A minha saúde que vem apontando falhas cada vez mais preocupantes. Tonteiras, tiques, enxaqueca, desmaio e, possivelmente, pressão alta.
- Meus planos e sonhos abruptamente cancelados por uma diminuição de salário e grana a receber.
- Minha falta de tesão literário causado por uma mediocre busca pela fama perdida.

 O QUE VAI PARA 2013

- Ter encontrado a mulher da minha vida. Desde o pedido de namoro no meio do carnaval até ontem, quando a salvei de um pesadelo, levo todos os dias com a Jujuba comigo.
- Minha filha morando do lado da minha casa e enchendo de alegria minha familia e vizinhos.
- Minha nova banda que me respeita, me valoriza e acima de tudo, me acompanha.
- A minha viagem para a Argentina onde reencontrei Buenos Aires e vi neve caindo do céu em Bariloche.
- Reencontrar o mar, agora em Ipanema.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

O SONO DO PALHAÇO

Um dia o palhaço acorda. Mas por enquanto ele continua dormindo e sonhando com o picadeiro. Sente o cheiro da pipoca, do perfume que exalam as crianças com roupa de sair, sentadas na primeira fila. Repete de olhos cerrados o gesto ritualístico: passa as pontas dos dedos no pote invisível e esfrega na boca a tinta vermelha que não há. Levanta as sombrancelhas e espalha com delicadeza a pasta branca. Por último, cata com as mãos, no banco de cimento que dorme, o nariz redondo de encaixe. Sem o disfarce é só um velho rabugento, viciado em calmantes. Com disfarce é um ser de luz viciado em palmas. Mais palmas. Mais palmas. Elas garantiram seu soldo, sua cama, seu camarim. A moeda do circo são as palmas, moço. Comprei uma casa que nunca soube o endereço. Comprei roupas que nunca usei. Simplesmente porque a vida sem o personagem passa a não ter sentido. Se eu pudesse não seria gente, só palhaço. O palhaço dorme mas tateia seu baú procurando o trinco. Preserva nele seus bastões, a roupa em setim, bambolês e as gargalhadas. Estas são suas verdadeiras jóias. Guardou de muitas espécies: Gargalhadas explosivas, contínuas, libertadoras. Fazer rir não é um dom, anota no caderninho seu repórter. Fazer rir é uma precipitação, uma ânsia pior que enfiar o dedo na goela. Arranque um riso do desempregado. Da esposa traída. Da criança sem presente de natal. É este prazer primitivo e inexplicável da natureza que faz lotar a porta deste camarim. É este poder de multiplicar o riso. O sangue de palhaço tem poder. A motocicleta estica a marcha na estrada à frente mas ele quer que rufem os tambores. É a deixa que tanto aguarda, quando surge no lugar da assistente de palco, serrada ao meio pelo ilusionista gay. O palhaço o que é...O palhaço o que é... telegrafa as piadas, repetindo tudo sem som. Sonâmbulo, se levanta do banco de cimento. Respira fundo como um nadador e caminha pelo mato mais alto que a canela. Um, dois, três...são quinze passos até a marcação da luz. Aprendeu a não franzir a cara com a claridade. Aprendeu a substituir as piruetas pela singeleza dos gestos. Aprendeu a impostar a voz. Esteve tão preocupado em repetir com maestria seu número que não viu a lona ser arriada, os animais serem trancados, as estacas serem retiradas e o caminhãozinho sair pela manhã rebocando seus vagões. Houve um dia que o circo abandonou o palhaço, que se nega a acreditar, e ainda hoje vive no terreno baldio, solitário, porém convicto que é um sucesso. O velho rabugento sabe que é um fracasso e se recolhe, constrangido, dentro da fantasia. O público já foi. As palmas se calaram. Quem o vê acha que é apenas um retirante, vagabundo, morador de um terreno baldio que tem mania de conversar com as estrelas. Mas o palhaço dorme e, enquanto dorme continua sonhando. Um dia o palhaço acorda.

quinta-feira, 1 de março de 2012

AMOR COME-DORME

Desconfio que é amor porque, não contente em dividir encontros casuais, também sinto vontade de partilhar com ela meus prazeres fisiológicos, que aprendi sem aprender, ainda no ventre da minha mãe.

Quem ama come mais. E os casais que saem para comer não o fazem por falta de criatividade, e sim porque existe uma ligação entre a cama e a mesa, na descoberta dos prazeres. Empapuçar-se em um rodízio não me parece nada romântico mas descobrir o sabor do manjericão, sim. Como também revelar o restaurante da infância o desenterrando de uma ilha imaginária. Quem ama tem prazer em cozinhar mesmo sem fome, para acompanhar, feito voyeur, o outro deleitar-se sem pudor. Livro de receita e kama sutra. Sexo e gastronomia. Quem ama usa o tempo e o tempero a seu favor, usa o paladar quando nenhuma outra palavra basta.

Não sai da minha lembrança a redescoberta da cana-de-açúcar gelada, cortada em palitinhos, que ela avistou na estrada, em uma tarde que o céu tinha a cor de chá-mate na jarra. Não esqueço a fome que sentimos juntos e a lula recheada que deixamos para trás.
Desconfio que é amor desde o dia que a mordida no seu sanduíche revelou mais afinidades que uma tarde inteira de papo furado.

Quem ama dorme mais. E os casais não o fazem por exaustão ou monotonia. Fazem porque ao lado do amado é possível sonhar sem limites, encorajados pelo toque sob o lençol. É como se aquele braço embaixo do travesseiro ou aquelas pernas enroscadas simbolizassem um cordão umbilical invisível, que o acompanhará por todos os becos e abismos do inconsciente, te resgatando de bate-pronto para um abraço acolhedor, caso tudo dê errado.
O silêncio da noite inspira, inclusive a trégua, mesmo quando há uma guerra declarada. Dormir profundo com outra pessoa é baixar suas armas, é dividir a paz.

A urgência de estar apto, sem remelas, com um sorriso no rosto, aos poucos cede espaço para mais meia hora de sono. A cama, antes um deserto de dunas feitas por edredon, agora é disputada palmo a palmo quando a temperatura do corpo esquenta e separamos os corpos momentaneamente. Nestas horas me forço a abrir os olhos para vê-la dormir. É como uma paisagem vista da janela, viva porém quase imóvel. A observaria por horas como fazem os pescadores antes de enfrentarem as marés, mas não resisto e, ignorando o calor, volto a me enroscar nela, embalado por seu ressonar de sereia.

Desconfio que é amor porque bebemos, saímos, rimos, dançamos, cantamos, enlouquecemos, mas também comemos e dormimos demais.


Para J.D.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

ESCOMBROS DO DESTINO

Catei o isqueiro no bolso e não achei. Deixei na minha gaveta, junto com alguns contracheques, cópias de documentos, um bibelô cafona que ganhei no amigo oculto e minha escova de dente. Vai ser difícil achar meus pertences nesta montanha de escombros. Queria achar Vilma também, que foi a última a ficar. Disse a ela: “você namora no telefone o dia todo e depois precisa virar a noite digitando memorandos.” Não suspeito que vão achar seu cadáver com o celular na mão. Tenho pena porque queria transar com ela e nunca consegui. Não sou bonito, nem novo e trabalho em agência de propaganda porque gostaria de ser criativo. Sou o revisor e entro e saio sem ninguém perceber. Minha ocupação é corrigir os erros dos outros, portanto, sou lembrado apenas quando uma merda acontece. Pelo menos, desta vez, não tive culpa e até me sinto bem por isso. O prédio foi nocauteado e caiu em pé, retinho. O barulho parecia de uma decarga de banheiro, no volume máximo. Assisti a tudo do outro lado da rua, na travessa, onde costumo tomar minha cerveja até o trânsito aliviar. Na verdade, nem me mexi. Pedi apenas para trocar de copo porque a poeira veio até aqui e invadiu bares, hotéis, agências, carros e tudo que mais havia. Devo estar com a cara branca, parecendo um padeiro.

- Mais uma, Raimundo.

Quer saber?Nem ligo. Este trabalho anda me tirando os prazeres da vida. Chego suado para bater ponto, sob a vigiância da nariguda do RH e seu cumprimentar com as sobrancelhas suspensas me irritam. Tenho vontade de fazer o mesmo quando sou chamado para receber meu salário defasado, na sala. Pena que o prédio desabou tarde demais. Assim levaria uns tantos desafetos, que me avaliam de cima em baixo como “excesso de custo”. Essa repórter ali estava atrás de testemunhas do acidente que agora toma conta dos principais veículos de comunicação. Pensei em aparecer na TV e já tinha uma história triste pronta para contar. Não tenho dúvida que eu seria o rosto que simbolizaria a tragédia, ganharia indenização da prefeitura e estaria no camarote, juntos com as personalidades, no carnaval. Mas bastaria estampar esta cara redonda fazendo papel de vítima para que casos sensacionalistas pipocassem por aí. E o pior: seriam todos verdade.

- Saideira, Raimundo.

Meu casamento com a patroa só durou até a primeira gravidez. Decidimos morar no mesmo bairro para manter as amizades e foram elas que me levaram para o mal caminho enquanto minha esposa sofria com inchaços, refrescando a noite com o ventilador amarrado na janela. Para aliviar a tensão, arrumei uma amante. Ela era pobrezinha mas muito carinhosa. Tinha uma carne dura e eu gostava de adormecer entre as suas coxas. Íamos para a quadra na quinta e, no começo, no cinema na quarta. Mas ela engravidou também e seus irmãos decidiram me pressionar. Parei de freqüentar a vila que a minha preta morava e decidi tomar jeito, ser um sujeito pacato. Foi nesta época que descobrimos que meu filho era mudo e uma sucessão de momentos angustiantes tomou conta do nosso lar. O garoto, que já tem nove anos e está com a cara da mãe, me olha com reprovação e quando tento me aproximar, levanta as sobrancelhas, do mesmo jeito que a mulher do departamento.

- Pode fechar pra mim?

Sempre quis ser outra pessoa. Se não fosse a falta de recursos para a faculdade e a timidez, teria conseguido ser um redator de sucesso, daqueles que aparecem nos anuários em fotos preto e branco. Poderia também ter investido em outro ramo quando meu cunhado me convidou para abrir um negócio de piscinas de fibra. Com quarenta e um anos me sinto envergonhado de mudar até o corte de cabelo. Até minutos atrás, quando prédio caiu. Acho que alguém em algum lugar ouviu minhas preces e já que não sou capaz de mudar o que está a minha volta, tudo que está a minha volta mudou de direção. Olha essa fumaça, esse cheiro de queimado. Olha aquela a esposa do porteiro chorando. Nunca entrei no Theatro Municipal, que está localizado aqui atrás do bar, mas sinto que esta é a mais importante ópera da minha vida. E como toda ópera merece um gran finale.

- Raimundo, sabe, mais ou menos, quanto custa uma passagem pra puta que me pariu?

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O QUE VAI E O QUE FICA

O QUE VAI FICAR EM 2011

1 - Minha escolha profissional como redator em agência de propaganda, começa a deixar dúvidas.
2 - Os primeiros amassados do meu pegeout que nem terminei de pagar.
3 - Amigos que foram morar fora, pais que abandonaram seu posto e ninguem para contar história.
4 - Não consigo mais beber nem ficar acordado como adolescente.
5 - Minha tentativa de escrever um livro - mais uma vez - estacionou.


O QUE VOU LEVAR PARA 2012

1 - Batizado, aniversário e andanças de Marysol pelo seu mundo.
2 - Chegada do meu amigo de velha data na Banda e show memorável na Lona.
3 - México de cabo a rabo de carro com cumpadri Washington e minha irmã preta.
4 - Terceiro lugar em concurso nacional para escritores com mais de 1500 obras inscritas.
5 - Pizza, jogo da vida, passeio com o cão e a volta dos prazeres à dois.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

ESCALA

Andou dizendo que vai partir fazendo cara de quem quer ficar
Se despediu e não se moveu, cheia de graça tentando enganar
As roupas continuam no chão vou tateando neste breu estelar
Fronteiras que existem em vão pra quem enxerga tudo do ar.

O cobertor que cobria a janela não impediu a entrada do sol
revelando sua luz amarela e nossas pernas fora do lençol
Você mesmo dormindo dizia que o tempo era mera ilusão
Os tantos atrasados no egito estão adiantados no Japão
(em Quito) (no Gabão)

Hoje sim, ontem não. Nunca é cedo ou tarde pra esperar.
Diz que sim, diz que não. Amor pesado é o que não sabe voar.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

CAMPO GRANDE PRA MIM

Sou a sexta geração de uma família tipicamente campograndense. Moro nos arredores da igreja Nossa Senhora do Desterro, onde os primeiros habitantes dessa terra estranha fincaram suas facas. Estudei no colégio católico da região e fiz primeira comunhão. Trabalhei em um jornal local e, pela felicidade de ter um avô que foi diretor do teatro do bairro, também vivi – e vivo – seu cenário cultural. Este discurso emburrado e cheio de poeira não me traz nenhuma vantagem a não ser o direito de falar o que quiser de onde nasci.

Campo Grande é o quarto de empregada do Rio de Janeiro. É o bairro com maior expectativa de crescimento para a próxima década. Acrianos, alagoanos e mineiros repousam suas malas diariamente no único lugar que ainda tem espaço para sonhar no município. São eles que lotam os transportes públicos onde encontram uma outra família – pelo tanto tempo que convivem indo e vindo - dividindo intimidades até sem querer.
O bairro não está longe o suficiente para ser interior, nem perto o suficiente para ser Rio de Janeiro. Campo Grande está escondido atrás de um vulcão preguiçoso no final de uma reta decadente e monótona chamada avenida Brasil.

Longe de ser um paraíso natural, este terreno vasto e plano possui o que restou de sua mata ameaçada pelo tráfico e outra área natural tomada pela especulação imobiliária. Está entre dois bairros: Santa Cruz, que não tem nenhum talento para ser tornar mais desenvolvido e, mesmo tendo todas as oportunidades do mundo no passado, continua com sua mentalidade provinciana, e Bangu, onde o diabo se abana de calor.

Com tanta gente chegando, inchando os bairros periféricos, em um pulo se tornou curral eleitoral, afastando a utopia de uma emancipação. Cada rua asfaltada, mil votos. Cada parideira com seus quatro filhos no centro social, outros mil votos. Os cariocas de verdade apertam a vista e mal conseguem enxergar onde fica esta quina do Rio. O helicóptero de notícias não chega, pois teria que abastecer pra voltar e os repórteres quando pensam em vir cobrir uma matéria, demoram tanto para regressar a redação, que comprometem o fechamento do periódico. Com esta miopia da opinião pública, compor uma máfia que proteja os comerciantes dos bandidos e permitir que as crianças brinquem no portão com segurança, se tornou mais que um ótimo negócio: virou coisa de super-herói.

Com o desenvolvimento econômico das classes baixas e a expectativa que o município vive pelos jogos olímpicos, Campo Grande vive uma nova fase. Tem churrasco todo dia, combos de bebidas para quem quiser, mais carros financiados na rua e a única coisa de metrópole que já conquistamos de antemão foi um trânsito desumano.

Como dinheiro não compra consciência e poder não compra sabedoria, a mentalidade rasa conduzirá esta massa de milhões para o caminho inverso do desenvolvimento. Na verdade, estamos deixando de ser um bairro rural para se tornar subúrbio.

Assim como meus cantores vieram da lama e meus escritores vieram do caos, esfrego minha terra na mão, com a esperança de lhe tirar toda a crosta e entender o que tem de tão poderoso e invisível em seus domínios. Olho a luz branca da manhã nos montes que ainda se preservam verdes, vejo o padeiro em sua bicicleta vendendo de porta em porta e não saio um dia na rua sem cumprimentar uma dezena de vizinhos. São estas miudezas que me cativam e mesmo conhecendo mais de dez países diferentes, não encontro nada igual. Já são seis gerações da família e três décadas de vida. Cansei de querer um Campo Grande melhor para todos. Vou fazer um Campo Grande melhor só para mim.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

O QUERUBIM E AS NOSSAS INVENCIONICES

Metido em sua burocracia celestial, Deus lia em cima da mesa o pedido de serviço e montava seres humanos conforme demanda. Mas como não é dado a obedecer ordens, uma vez que não tem ninguém que as dê, vez ou outra transgredia a lógica, pois assim gostava de ser lembrando. A lógica é coisa da mãe natureza, o caos é coisa do todo-poderoso. Resmungou algo aos seus ajudantes quando leu o histórico de um casal que insistia em repetir a mesma fórmula do fracasso: pais separados, jovens, gravidez inesperada. De certo também repetiria a fórmula pondo no mundo um moleque com olhos de pedinte, voz fraca e grato a ele por ter um prato de comida. Já tinham vários destes pré-montados no estoque, mas, se sentindo desafiado a mudar a roda da vida inventada pelos próprios humanos, decidiu lançar seu cavalo de tróia. Aceitou o desafio que foi confirmado no exame de sangue da moça.

Passeando por seu jardim idílico, cruzou toda a avenida até o playground, onde pequenos querubins faziam suas estripulias de andorinha. Escolheu um a esmo e o levou debaixo do braço, o que despertaria imensa inveja aos outros se este fosse um sentimento permitido no céu. Trancou-se em sua sala, sacou-lhe as asas com a mesma habilidade de veterinários e introduziu – em processo completamente indolor – uma bomba-relógio em seu coração.

- Cuidado com as invenções dos humanos. Vai e volta voando. Terá minha consideração.

Numa noite de agosto, o querubim experimentou pela primeira vez o mundo imperfeito. Depois de um dia todo esperando na placenta, foi posto para fora em líquido amniótico verde, contaminado por suas próprias fezes. Sentiu o salitre no ar e reparou na epiderme imperfeita dos parentes que vinham no vidro olhar o novo rebento. Insistiam que tinha os cabelos do pai, o nariz da mãe, numa tentativa de dar-lhe identificação e personalidade instantânea. Serviu-se de todo elogio durante as horas que esteve no hospital e, se não fosse o incômodo de usar luvas e roupas para cobrir seu sexo, estaria perfeitamente adaptado ao clima tropical da costa verde. Ganhou moradia no meio da mata, onde as borboletas se colidiam no ar e a cachoeira trazia morro abaixo um sortimento de folhas e flores. O querubim, que já havia sido nomeado com inspirações na natureza, descansava inebriado com o leite materno capaz de oferecer uma gama de paladares, quando a bomba-relógio estourou em seu peito, fazendo um estalo abafado, como de uma bexiga debaixo do cobertor. Foi levado ao hospital na cor de um inhame que provavelmente não iria chegar a comer.

Deus aguardava ansioso o regresso do querubim, pronto para ouvir seu relato de espanto sobre àquela gente perecível, que se péla de medo da morte. A família de desregrados e fornicadores não transariam deliberadamente, não se apaixonariam inconseqüentemente outra vez, pois lembrariam desta mácula a cada natal; cada vez que se reunissem na mesa. Mas o querubim não voltou, tampouco mandou recado. Sem poder abrir os olhos sentia o calor da mão da mãe que o amamentou e toda uma legião de gente que vinha dizer-lhe coisas doces. Quando saiu do hospital envolta em tecido branco, bordado com crisântemos recebeu incentivo até de quem não o conhecia. O Senhor, famoso por sua ira, possui recursos infinitos e, como bom filho único, que não suporta ser contrariado, mostrou suas faces. Acionou nova bomba instalada no cérebro do pequeno ser divino, que convulsionou e tremeu seu corpo inanimado. A partir deste dia Deus não teve mais notícias do espião celestial. O querubim, recuperado dos ataques violentos, passou a descansar sob a sombra de árvores centenárias, protegidos em suas copas homogêneas. Assim brincou no chão pela primeira vez, comeu bolo de fubá e descobriu que na verdade seria uma mulher, de cabelos longos e loiros no futuro. Também provou doses fartas de amor, um sentimento novo que só nasce no coração de quem sabe o que é perder alguém.

Prestes a completar um ano, o querubim, já adaptado a Terra, distribuía sorrisos generosos aos poucos que ousaram despertar nas primeiras horas de domingo. Na capela de santo Antônio, quase perdida entre árvores e jardins, foi batizado, lavado do pecado original e ingressado, por ironia do destino, na comunidade cristã. Um coral de pássaros foi enviado para saudar a sua saída triunfal e nas horas seguintes foi introduzido a novas invencionices dos seres humanos que acabaram por lhe conquistar completamente. Eu que estava presente no evento e sempre acreditei na profundidade celestial daqueles olhos, vi quando Deus se mexeu sentado no topo da palmeira real. Usava uma túnica com linhas coloridas. Vinha acompanhado de outros querubins e mais dois ou três assistentes. Tentou se passar como desinteressado, fugindo o olhar para as plantas exóticas que moravam ali, mas sei que veio aprender e até estaria com inveja se este fosse um sentimento permitido no céu.



segunda-feira, 13 de junho de 2011

CORAÇÃO PESQUE E PAGUE

Neste lago de águas diáfanas não é preciso vara porque meus sentimentos vão até você. É simples amigo: pegue um olhar, uma mentira bem contada ou qualquer outra migalha, jogue e fique esperando. Logo meus pequenos animais virão comer na sua mão. Tenho de todo tipo, rajados de vermelho, dourados, graúdos e miúdos. Só escolher. Qual recomendo?Aquele grande ali. Come de tudo, cresce rápido mas não digere muito bem. Se chama carência. Tem aquele outro que se chama vingança. Muito ruim de limpar mas tem um sabor inigualável. Escolhe o seu e não me encha mais. A fila deste pesque e pague não pára de crescer.

Dias de feriado é comum acamparem no meu gramado. Já foi mais verde, bem cuidado. Hoje é terra batida com ervas daninhas e capim querendo impor sua natureza pobre. São anos de uso sem qualquer preservação. Neste que passou chegaram em bando e a oferta de iscas foi tanta que alguns sentimentos cresceram demais. A vaidade, a futilidade e a prepotência são raças que não vivem em harmonia dentro de mim e afugentam lá para o fundo do meu lago os sentimentos mais bonitos. Aliás para conhecê-los será necessário mais esforço da outra parte. Não se encantam com os mimos baratos jogados no espelho d´água. Interessado?então mergulhe de cabeça nas profundezas e cavidades do meu coração.

Preferindo também tenho um brejo onde todas as minhas putarias sobrevivem chafurdadas na lama. Promiscuidades cabeludas, fetiches de quatros patas e outra ordem de bichos que parecem estranhos à luz do sol mas se tornam deliciosos à luz da lua. Rompa a carapaça e terá direito de chupar, lamber e morder tudo que encontrar.

À primeira vista ter um pesque pague parece ser um bom negócio porque os clientes viram amigos e sempre aparece gente nova para se divertir. Pensar que você contribui com a vida alheia dá uma leve impressão que se está cumprindo uma missão divina na Terra. Só tenho medo dos recados da mãe natureza. O nível do meu lago a cada ano desce mais e essas águas feitas de lágrimas caídas em um filme bobo de romance ou preenchidas pelo suor de um orgasmo sincero estão cada vez mais difíceis de extrair. Tenho medo de acordar um dia e ver toda espécie rara de ternura, encantamento e lealdade agonizando por um palmo de lago. Justamente estas que viviam em cardume e faziam cócegas no meu estômago quando eu ainda conseguia lembrar o nome de quem se interessava por sentimentos dessa espécie.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

O VENENO DE MIRANDA

Miranda raspava os restos da sua quentinha no lixo da cozinha, rompendo o silêncio. Outros vigilantes almoçavam debruçados na bancada, concentrados no mastigar de pensamentos soltos. O dia cinza tornava o lugar aconchegante pelo calor dos mini-fornos em ação. Seu recipiente de alumínio, que neste dia tinha abóbora cozida e carne seca de mistura, era inadequado comparado aos mais modernos, com divisórias e tampas herméticas. Mas Miranda era tradicional e não se importava em parecer ultrapassado. Tanto que não abandonava sua pochete, ou capanga como gostava de se referir. Impunha um certo respeito por parecer que este tem porte de arma e carregava seu trabuco a tiracolo. Não cansava de contar aos sobrinhos que era confundido como papamaique. O vigilante um dia sonhou ser fuzileiro, bombeiro, polícia civil e ser responsável pela entrada e saída dos carros na fábrica quando já passava da metade da vida lhe parecia razoável. Depois de raspar quase toda marmita no lixo, alguém o interpelou.

- Quanto tiver sem fome assim, passa pra cá que eu como.

Não era dado ao desperdício mas desde as primeiras horas estava tomado por uma preocupação inédita. Virou-se de costas e enfrentou a passagem entre as cadeiras. Pouco mais de 30 passos. Esticou o primeiro pé concentrado, logo o outro. E foi cadenciando seu andar intermitente. Parecia ter conseguido fingir normalidade mas quando virou na porta pôde ouvir muxoxos e zombarias. Sentiu alívio quando chegou ao seu posto, onde ficava de pé dentro da cabine acionando o botão do portão. Esteve ali imóvel durante todo o tempo e esqueceu sua preocupação que só veio à tona quando o rádio PX tocou e uma voz conhecida do outro lado o relembrou da rodada de carteado, no trailer embaixo do viaduto.
Não poderia ir, mesmo sabendo que havia deixado 50 pratas em aposta. Gostaria de ir direto para casa, deitar na cama sem dizer uma palavra e fechar os olhos, com esperança de que no dia seguinte tudo voltaria a sua normalidade. Mas o trailer era caminho obrigatório e uma angústia estacionou no seu estômago. Pensou em uma saída tão logo abriu o portão.

Os mesmos que almoçavam em silêncio eram capazes de fazer arruaça de crianças no recreio. Espalhavam-se pela calçada em volta do trailer, revezando no jogo de baralho. Um noticiário de boletim policial vindo da caixinha de som dava o tema das conversas. Falavam de suas façanhas, mortes espetaculares, tipos de arma e mulher. O monza vinho de Cardoso parou e Miranda chegou de carona. Seria estranho pegar carona pela distancia ridícula e sua idéia inicial era que pudesse ir direto para a estação de trem e embarcar para casa. Esqueceu-se que Cardoso, apesar de não jogar, tomava sua talagada de conhaque antes de pegar a estrada. Distraídos em suas jogatinas e causos fantásticos não fizeram qualquer comentário por horas. Já estava escuro e a lâmpada esticada com cabo de vassoura mal conseguia clarear a mesa quando Fraga disparou sua ofensa após se eliminado do jogo.

- Pelo menos não sou quem anda rebolando. Só pode estar usando calcinha.

Seu olhos concentrados em Miranda e o queixo proeminente exigiam uma resposta. Em outra situação o vigilante poderia fazer uso de sua capanga e fingir que ia exterminar qualquer otário mas todos sabiam que não possuía sequer uma garrucha visto que ficou sem alternativa a não ser contar a verdade. Disse tudo em curtas palavras e ninguém pareceu acreditar de tão fantástica a história. Já haviam ouvido falar que o veneno deixava paralisado, cianótico e até matava mas nunca influenciaria o modo de andar. Cardoso deixou Miranda na estação de metrô e arqueou suas sobrancelhas na despedida penalizado com tudo que ouviu. Miranda novamente calculou a distância até o vagão e parecia interminável a chegada até lá. Era extremamente cansativo pensar no passo firme, mais nada. Esquerda, direita. Esquerda direita. Teria conseguido se o alto-falante não tivesse anunciado a saída imediata do trem sentido Santa Cruz. Sabia que depois daquele teria que encarar o parador que visitava as 48 estações até sua casa. Olhou para frente com a mesma obstinação de um maratonista e abandonou seu mantra. Correu e enquanto fazia seu quadril passou a dar rebolados de passista. Suas ancas balançavam em exagero para os lados de maneira que nem os maratonistas de marcha lenta conseguiriam tal proeza. Passou pela multidão de trabalhadores cansados e parecia que uma avenida se abria com todos os olhares apontados para ele. Quanto mais tentava se apressar mais rebolava. Sorte que já estava a paisana senão seria identificado e no outro dia não faltariam zombadores na porta. Preferia estar cagado que passar um constrangimento daquele.

Sentou no sofá cansado e ligou a televisão só para fazer companhia. Sua mulher saiu do banho e depois das ablução imersa em cremes de essência de morango, contou seu dia na cronologia dos fatos, vez ou outra buscando a opinião do marido. Vendo que não tinha resposta o confrontava exigindo atenção. A mesa estava quase posta quando Miranda não agüentou e gritou com seu urro de macho alfa.

- Não vê que eu to sofrendo porra! Não consigo parar de rebolar feito uma bicha.

A mulher minimizou o fato explicando que isso para as mulheres era perfeitamente normal e mesmo que tivesse que conviver com esta nova modalidade de andar, se adaptaria facilmente. No final decidiu aplicar a ele o mesmo procedimento de organização de idéias e perguntou a Miranda como foi seu dia. Parou para ouvir atentamente quando este explicou o diagnóstico do doutor.

- Uma espécie rara de lacraia que tem aqui em casa. Deve ter me picado enquanto tomava banho. Seu veneno, contrários dos outros, não mata nem manda ninguém para o hospital. Seu efeito relaxa os músculos da região glútea, deixando-a dormente. Disse que caminhar ajuda na circulação do sangue e na diluição do veneno. Não há outro remédio.

Miranda limpava as cavidades nazais, assoando seu muco com força quando reencontrou a maldita. Pequena, serelepe, tentava subir pelo azulejo. Quando atingida por um pingo caía na água novamente e serpenteava agitada nadando com dificuldade. Assim Miranda nadaria, se precisasse. A lacraia se escondeu na brecha da massa que cedeu a infiltração, assim como Miranda que foi direto para cama, com pijama azul marinho e seu rebolado desconcertante.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

FAST FORWARD FRIDAY

“Uruguaiana né?”. Cem passos até o metrô. Um minuto atrasado. Quantos segundos demoram cada porta ao abrir e fechar? Abre e fecha. Abre e fecha. 8x. 11h17h. Todo dia o mesmo horário. “Bom dia gente”. Coca-cola light de ontem?Bebi e ninguém viu. Ela chegou. Não olhei. Notícias do flamengo. De Realengo. Anoto comprar calça nova na lista que começou segunda. Roupas para o show. Expectativa que dá fome. Ninguém tem biscoito. Word/meus arquivos/repertório. Quanto ta uma hering?Escrevo errado. Google acha. Ela pergunta se vi o email. Hoje tem reunião no cliente. Mais fome. Mais ansiedade. Mais Flamengo. Mais Realengo. Volto na lista e anoto fone de ouvido. Lembro do IPVA. Lembro da nota fiscal do show. Começo a fazer conta do mês e não termino. Melhor achar que tem mais. Falta corrigir todos os layouts. 14H o táxi vem. Mais ansiedade. Mais fome. Não dá para almoçar. Olho a campanha e imagino ganhar a conta. Imagino mais dinheiro. Lembro da lista. Lembro da banda e dos shows. Melhor fazer o repertório. Corrijo rápido. O táxi chegou. Ela está discutindo e vai querer atenção. Quis. Não olhei mas falei. Brinquei. Não vai dar para comprar a calça e vou tocar com a velha. Lembro do lenço novo que comprei. Volto na lista para riscá-lo mas não tinha incluído. Quero riscar alguma coisa. Entro no site da Hering. Alguém me chama no Facebook. Outro alguém. Um terceiro alguém sem foto me ofende. Não tenho tempo para gracinha. Já estão todos prontos. Abro o repertório. Ela pede para corrigir tudo de novo. Outra discussão acontece. A promoção tem um balão. Não acharam um balão?Como assim?Vou verificar. Volto. Abro o repertório. “Você viu o email”Não tinha visto. Estamos atrasados. CTRL C + CTRL V. 7 cópias das mesmas músicas. Deixo por conta do improviso. Levo a mala pra ela. A outra me pede para ir no meio. Não sou cavalheiro e vou no canto. Acordo com riso e com meu ronco. Chegamos na reunião dentro do shopping. Lembro da lista. Toca o telefone. Cadê o baterista?Olá, sou redator da agência. Celular no silencioso. Mando mensagem. Ela começa a falar e ler. Tenho medo de ter erro na apresentação. Falo alguma coisa para descontrair. Bebo água. A mensagem volta com o paradeiro do músico. Outro liga. Número desconhecido também. 17h. Gostam do balão. Lembro da discussão. Bebo água. O diretor parece não gostar. Tudo morno. Começo a imaginar como seriam fora do ambiente de trabalho. Lembro do público que vai me assistir. Quero riscar algo da lista. Será que ali vende brinco?Bebo mais água. To cansado mas não posso. Quero tomar um energético e alguém propõe cerveja. Não vejo loja de calça nem de brinco. Ta escuro. Alguém pergunta da reunião. Tento falar duas vezes mas não querem ouvir porque também querem falar. Bebo cerveja. Elogio o balão. Chega outra cerveja. Falamos todos nos celulares. Ela paga minha cerveja. Tento lembrar o número do ônibus. Ando apressado. Lembro da lista e do fone de ouvido. Lembro que vou tocar em outro lugar. Quero pensar só na banda mas ainda me vem as idéias do balão. O dinheiro na conta. Tem uma sobra e paro para comer. Não sei montar essa merda de sanduíche. Saio da fila. Compro energético mais adiante e fico no ponto. Muita gente e não posso me distrair. O baterista não chegou?Vão falar mal dele. Procuro relaxar no escuro com ar condicionado. Agenda: a,b,c.. lembro do brinco e das fotos com roupas iguais. Lembro da minha barriga com a camisa branca. Pego o repertório na mochila e tento pensar nos improvisos. Durmo. Acordo com a lata caindo no chão. Durmo, acordo e não conheço o lugar. O ônibus pegou outro caminho. Ligo e ninguém atende. Não vou conseguir chegar na passagem de som. Quero colocar o assunto na lista mas tenho que fazer outra lista de obrigações. Mas duas vai ser demais. “Posso descer ali no sinal?”Corre, corre, banho morno, calça velha, lenço novo na mochila. Cadê o baterista? Tem trânsito. “Alô, to quase chegando”. Passo direto no quebra molas. Lembro do velocímetro e da divida com o mecânico. Mais coisa na lista. E o repertório??Ligo para casa. Separa e alguém busca. Tenho que me identificar como vocalista. Ganho um sorriso simpático. Diminuo o passo. Agora sou o cantor. Agora sou o cantor. Falo com ela. Não aquela, agora outra diretora, outra cliente. Sorrio. Olho o espaço. Tem gente esperando mas é pouca. Duas moças lindas. Penso na primeira vez no que vou fazer depois do show. O baterista aparece. Ajudo a carregar tudo. Me mostra a camisa nova e fico com inveja. Chega gente. Me escondo no camarim e me arrumo cedo demais. To ansioso pela segunda vez no dia. Melhor beber de novo. Vou passar o volume de voz atrás do telão. O baterista foi para casa e fico sozinho. Lembro do balão e mando mensagem para saber se ganhamos alguma coisa. Lembro do repertório e ligo para o baterista. Mais gente chegando. Melhor beber mais. Volto ao camarim. Amarro o lenço. Tiro da cabeça porque acho que estou parecendo o Cazuza. Tento lembrar outro jeito de amarrar. Vi o vídeo do youtube. Não consigo. Lembro do email que não li. Chega o guitarrista e o baixista. Falam da passagem de som. Chega o percussionista e fala alguma piada que já conheço. Rio com todos. Não consigo amarrar o lenço. Melhor fazer do meu jeito. “A diretora quer falar com você”. Não a primeira, a segunda. Quer Roberto Carlos. Libera a comida. Lembro que não almocei e não me cabe agora fazer. Vou beber. Ela não quer no palco. Devolvo o sorriso. Chega o baterista de camisa nova. Chegam os convidados. Melhor começar agora?Nem olho pra frente. Apresso. Apresso. Quero sair dali. Olho para a moça. Tem outras moças. O que vou fazer depois daqui?Contagem regressiva. Tlec, tlec, tlec...

segunda-feira, 28 de março de 2011

PAUSE E PARABÉNS

Acordei sem poder acordar. Mas isso pra mim é normal. Tem gente que fica de preguiça na cama e atrasa uns minutinhos no trabalho. Eu também. A diferença é que não escolho o dia que isso vai acontecer. É o meu corpo que determina meus domingos. Tenho catalepsia projetiva, conhecida por paralisia do sono. Nada diferente do que ter o dedo do pé para fora da sandália ou um bico do peito diferente do outro. Cedo ou tarde, a gente se acostuma.
É mais ou menos assim: você acorda e parece que ainda está dormindo. Nada mexe, no máximo, a bolinha preta do olho. Quando pequena minha avó dizia que eu estava deixando de ser uma boneca para virar menina. Já meu irmão mais novo dizia que eu tinha um encosto. Seja como for não me incomodaria tanto de travar se hoje não fosse meu aniversário.

Geralmente tenho estes piripaques depois de um dia cansativo. Mas ontem não saí da rotina. O momento mais emocionante foi ter suturado a língua do gato. Sei da importância que ela tem para os seus banhos, por isso fiquei feliz. Convenhamos: ser veterinária em uma clínica é uma realização pessoal nada agitada. O primeiro a me desejar parabéns foi o Cocoroca, meu cachorro. Chegou com andar de xerife, pernas arcadas e focinho amassado. Ouvi seus passos tilintando no piso. Depois de esperar um afago, em vão, tentou pular na cama, presumindo que eu o ajudaria a subir. Seria um dia perfeito, acordar com seu ronco de batráquio fazendo festinha. Mas quis o destino que eu virasse uma samambaia no dia que completo 26 anos.

Durmo olhando a parede. Nas suas imperfeições sempre vejo formar as mesmas figuras. O Don Quixote, onde sujei com o pé. O carro de corrida, na parte áspera. A silhueta de mulher, na rachadura recoberta pela tinta. Estava olhando para elas quando minha amiga, que divide apartamento comigo, apareceu na ponta dos pés. Como todo mundo, achou que eu estivesse dormindo. Entrou com um cartão na mão, que puder ver que era vermelho. O pendurou no mural e ali ficou, olhando, lendo, revisitando detalhes de fotografias que os olhos insistem em esquecer, só para nos devolver o prazer de sentir uma coceirinha na alma. Isso deveria ter um nome mais bonito que nostalgia. Observá-la assim, neste breve momento de encantamento foi meu melhor presente. Sei que naquele instante o mundo para ela também parou. A parte que o cartão disparou seu jingle eletrônico cantando “parabéns pra você” e ela saiu em disparada, deixa pra lá.

Diz o médico que, para sair deste estado em pause, preciso me concentrar na respiração. Tiro pensamentos da cabeça e foco no ar passeando, oxigenando e saindo, com pressão de calibrador de pneu. Começo a inspirar mas logo lembro da comida descongelando fora da geladeira. Lembro dos amigos que se mobilizaram para ajudar nos preparativos. E lembro de alguém que não poderia lembrar. Alguém que faz meu coração disparar, mesmo teimando em não querer.
Putz. Para as favas a respiração.

Meu celular apitou 18 vezes de meia noite para cá. A cada apito, uma mensagem de texto. Como ociosidade é algo obrigatório agora, calculei a média de amigos que lembraram de mim por hora: 2.57. Não é muito se levar em consideração os parentes e o recado da operadora cobrando faturas esquecidas. Mas não me importo, gosto tanto deles. Em breve estarão misturados, fazendo drinques, arriscando piadas e reiterando os votos de amizade eterna. Do telefone da pizzaria, que entrega depois de meia noite, aos sábados sem grana que amanhecemos jogando baralho, são eles que estão por trás de tudo.

Acabei dando um improvável suspiro, o que me anima a possibilidade de voltar ao normal dentro de algumas horas. Já sinto o pé formigando. Enquanto isso tento bloquear a saudade.Talvez só as figuras inventadas na parede saibam como sinto falta da minha mãe e sua maneira peculiar de me acordar fazendo voltinhas em meu cabelo. Sinto também falta dos gritos de domador de urso do meu pai. Mas se não controlo nem o meu tempo, é muita presunção da minha parte querer controlar o destino. Agora que tenho 26 anos vou olhar para os 30 de rabo de olho tentando não dar ouvido às suas obrigações. Sou veterinária, sou amiga, dona de um cachorro e do meu próprio nariz. Talvez não seja uma boneca e com certeza não tenho um encosto, mas passei a ver com outros olhos essa esquisitice de viver sonhando acordada.

Para C.C.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

DIAS DE JANEIRO

É caxias esse janeiro. Quando os meses do calendário se reuniram para organizar a fila, foi ele o primeiro a chegar e o primeiro a levar a bandeira do ano recém nascido. Bem feito. Mal sabia que junto da bandeira vinha uma mala sem alça chamada realização. Dezembro fica com os sonhos. Janeiro os transforma em meta. Vigília, disciplina e providência passam a cozinhar em banho-maria para, um dia, se transformarem em atitude. Janeiro pega fogo, não pelo sol de maçarico lá de fora mas pelas ebulições, aqui dentro. Assisto passivo o pocket show da vida alheia de tudo que não vai acontecer para o resto do ano: 30 dias sem por álcool na boca, 30 dias viajando, 30 dias de namoro.

Janeiro tem inveja das tardes frias de julho, da desimportância de novembro e do humor negro de agosto. Talvez se nessa reunião tivessem comparecido também as estações do ano, as resoluções seriam diferentes. Tudo em seu reino é frívolo e artificial como o bronzeado de domingo. Não se faz amigos, não se encontram amores, tudo que se vê é fruto de miragem causada pela radiação do décimo terceiro salário e a chegada eminente do carnaval. Janeiro não tem árvore, não tem raiz, só pó.

É cheio de marra esse janeiro. Bate no peito para falar de suas posses, afinal, o Rio é só dele. E seguindo o pensamento vale refletir: São Paulo seria das águas de março?Existe uma magnética doida nesta lógica de estado e calendário pois o Rio e o Janeiro alimentam o tesão um pelo outro e chamam o verão para completar a suruba, cujos os filhos, somos nós, cariocas que temos a certeza de morar no melhor lugar do mundo mesmo sem conhecer o outro lado da rua.

Antes que soe contraditório, embora pareça ser, isento as praias em sua concepção natural. Nada tem a ver a ignorância surda das ondas e a benevolência das areias. A praia é o portal onde, regando com champagne, enterramos nosso pedidos, moedinhas e lentilhas, para, uma semana depois, deitarmos semi nus sobre eles. Na mesma areia entregamos nossa alma e oferecemos nosso corpo. O sagrado e o profano junto e misturado.

Quero que janeiro passe em galope e não deixe uma brisa sequer para balançar meu móbile apanhador dos sonhos. Deste mês, que tem o mesmo destino dos aeroportos e a mesma tristeza das estações de metrô, não ficará uma lembrança no porta-retrato, um bilhete colado na geladeira. Não porque os momentos de sol, sal e suor não foram importantes e sim porque todos os anos eles se repetem, repetem, repetem. Janeiros são sempre iguais.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O QUE VAI E O QUE FICA

O QUE VAI FICAR EM 2010

10 - O retrocesso como motorista arranhando meu carro de todo jeito.
09 - Um sol marcado na minha pele em forma de tatuagem com tristes quelóides.
08 - A resposta negativa que a boliviana deu ao me ouvir dizer que estava de malas prontas para revê-la.
07 - Tudo que eu tive que repetir para a minha avó que já não processa informação tão rapído.
06 - Minha total desorganização financeira que me custou seis meses contando moedas.
05 - O abandono total de aventuras mais distantes mediante ao comodismo da fama barata.
04 - Um projeto de romance que terminou em lágrimas mais amargas que o normal.
03 - Dois ou três seres sem luz que trairam e ofenderam a minha amizade.
02 - Perceber que minha mãe não tem o mínimo talento para assumir este posto.
01 - O destino que fez minha filha nascer, mudou de idéia e quase a levou de volta.

O QUE VOU LEVAR DE 2010

10 - O privilégio de ter o melhor pub do bairro ao lado de casa e fazer parte do seu sucesso.
09 - O pegeout com seu ar condicionado e a trava que faz ele piscar de longe.
08 - Picos nevados, lagos, cidades sagradas, e as mil e uma aventuras nos 3 novos países visitados.
07 - Peso de rapazinho e exame de sangue completo demonstrando que ando comendo menos e melhor.
06 - Shows memoráveis, casas cheias, agenda lotada, lágrimas, assédio, fotos e a Truque subindo a ladeira com velocidade.
05 - As lágrimas que escorreram escondidas com a superação dos 77km de caminhada no Peru em condições precárias
04 - Os momentos de absoluta intimidade e carinhos nos poucos mas sinceros romances que vivi.
03 - Novos amigos de raça, amigos nobres, amigos intensos, doidos, gente que veio pra ficar.
02 - A convicção ao escolher o padrinho da minha filha que acabou me dando uma nova família.
01 - O momento que minha filha nasceu, me olhou nos olhos e tudo fez sentido.