Meu bem arruma a mochila / que o tempo faz preguiça.
Te pego de jeito na pista. / O dia só para quando enguiça
Avisa pra ela não ligar/ (segunda )é feriado nacional
Avisa pra ela não esperar/ com rabanadas no natal
Com polegar pro alto tudo se dá jeito/um sorriso, um beijo e um queijo
Saber do predicado menos do sujeito/um risco pra cada desejo.
Toda rua, toda lua. Casais e breguices de amor.
Toda crua. toda tua. Segredos na orelha com a flor.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
DIA DE CÃO
Um cão sem dono fuxicava o lixo com o nariz. Macarrão com areia e arroz azedo grudavam em seu bigode duro. Não era fome, talvez tédio. O cão procura desafios pra seguir em frente. Antes de partir sente no quadril a pancada forte que vai direto nos ossos. O susto o faz recolher o rabo e saltar de banda, fugindo da vassoura teleguiada. “To cheio desta merda de lugar”. Certamente pensou.
Dali se via o infinito de cimento. Pistas, postes e fios sumindo no horizonte. Foi pra lá que o cão vadio andou. Sem parar, sem parar. Os centros urbanos, tumulto de gente pra lá e pra cá sempre o atraiu, seja pelas porcarias caídas no chão ou para ver a calcinha das senhoras que passeavam. Gostava das gordas peludas, mais velhas, que deixavam seus pentelhos vazando para fora dos elásticos. Lembrava de suas cadelas. Mas hoje não. Passou direto do calçadão e feira livre, pegou a estrada e viu a noite chegar, os faróis arregalarem seus olhos e a lua o desafiar. Uivou pra ouvir seu próprio eco. Só o silêncio. Algumas noites nem os ecos querem conversar.
Andar sem rumo só é terapia para quem não foge de si mesmo. Quando mais se afasta, mais está próximo de seus medos e da convivência insuportável de seus hábitos. Coçar a orelha com a pata de trás e lamber a caceta antes de dormir eram repetições involuntárias, irritantemente impossíveis de mudar. Naquele dia o cão andou entre os carros atrás de emoção mas o domingo de sol à pino trouxe motoristas idiotas para a rua, com suas crianças gritando sentimentos vazios atrás do vidro. Fugiu para não ser adotado. Enfim encontrou um banco de cimento onde um mendigo dormia exibindo uma bunda suja pelo rasgo da calça e ia acomodar-se ali se não fosse por uma cosquinha na barriga. Conhecia bem a fome e não era nada disso. Pareciam borboletas soltas dentro de suas tripas. Foi subitamente tomado pelo desejo e seus sentidos despertaram de uma letargia infinita. O Cão havia se apaixonado pelo frango assado da padaria.
Ele o via girar, em seu movimento harmonioso e gracioso. Mordia os beiços e imaginava orgasmos com dentes cravados em suas cartilagens cada hora mais moles. Queria passar a língua nas suas coxas abertas e maltratar suas asas curvando-as para trás. Imaginou planos, passeios pelo campo e constituir uma família. Ele e sua peça deliciosa, que dormiria do seu lado, sempre disponível para saciar angústias e perversões. Mas o cão não conhecia a personalidade desta nova fixação. Alguns frangos nascem para estar na vitrine e não para serem amados. Basta admirá-los. Se sentem importantes demais para satisfazer a um só. Querem voyeurs, dedos apontando para si e brigas pelo seu rebolar maquinado. O cão arriou suas patas, o corpo magro e permaneceu deitado, sem ligar para o vazamento da caixa de esgoto que umedecia o chão. Nem comia, nem cagava, nem dormia. Fez da rotação da máquina suada sua obsessão de vida. Mas quando um homem de braços roliços e relógio falsificado pegou seu frango molhado de gordura pelo espeto e o esquartejou entre amigos no balcão ele teve a certeza de que os vira latas são criaturas esquecidas por Deus. Lembrou com raiva da cara de satisfação do seu amado, entregue aos encantos da própria vaidade, arreganhado na mesa posta. Nada poderia fazer. Sabia que cedo ou tarde isso aconteceria. Era vitima e culpado de seu próprio sofrimento.
O caminhão de entregas até freiou mas os dias não teriam o mesmo gosto nem o mesmo cheiro depois daquele dia de cão.
Dali se via o infinito de cimento. Pistas, postes e fios sumindo no horizonte. Foi pra lá que o cão vadio andou. Sem parar, sem parar. Os centros urbanos, tumulto de gente pra lá e pra cá sempre o atraiu, seja pelas porcarias caídas no chão ou para ver a calcinha das senhoras que passeavam. Gostava das gordas peludas, mais velhas, que deixavam seus pentelhos vazando para fora dos elásticos. Lembrava de suas cadelas. Mas hoje não. Passou direto do calçadão e feira livre, pegou a estrada e viu a noite chegar, os faróis arregalarem seus olhos e a lua o desafiar. Uivou pra ouvir seu próprio eco. Só o silêncio. Algumas noites nem os ecos querem conversar.
Andar sem rumo só é terapia para quem não foge de si mesmo. Quando mais se afasta, mais está próximo de seus medos e da convivência insuportável de seus hábitos. Coçar a orelha com a pata de trás e lamber a caceta antes de dormir eram repetições involuntárias, irritantemente impossíveis de mudar. Naquele dia o cão andou entre os carros atrás de emoção mas o domingo de sol à pino trouxe motoristas idiotas para a rua, com suas crianças gritando sentimentos vazios atrás do vidro. Fugiu para não ser adotado. Enfim encontrou um banco de cimento onde um mendigo dormia exibindo uma bunda suja pelo rasgo da calça e ia acomodar-se ali se não fosse por uma cosquinha na barriga. Conhecia bem a fome e não era nada disso. Pareciam borboletas soltas dentro de suas tripas. Foi subitamente tomado pelo desejo e seus sentidos despertaram de uma letargia infinita. O Cão havia se apaixonado pelo frango assado da padaria.
Ele o via girar, em seu movimento harmonioso e gracioso. Mordia os beiços e imaginava orgasmos com dentes cravados em suas cartilagens cada hora mais moles. Queria passar a língua nas suas coxas abertas e maltratar suas asas curvando-as para trás. Imaginou planos, passeios pelo campo e constituir uma família. Ele e sua peça deliciosa, que dormiria do seu lado, sempre disponível para saciar angústias e perversões. Mas o cão não conhecia a personalidade desta nova fixação. Alguns frangos nascem para estar na vitrine e não para serem amados. Basta admirá-los. Se sentem importantes demais para satisfazer a um só. Querem voyeurs, dedos apontando para si e brigas pelo seu rebolar maquinado. O cão arriou suas patas, o corpo magro e permaneceu deitado, sem ligar para o vazamento da caixa de esgoto que umedecia o chão. Nem comia, nem cagava, nem dormia. Fez da rotação da máquina suada sua obsessão de vida. Mas quando um homem de braços roliços e relógio falsificado pegou seu frango molhado de gordura pelo espeto e o esquartejou entre amigos no balcão ele teve a certeza de que os vira latas são criaturas esquecidas por Deus. Lembrou com raiva da cara de satisfação do seu amado, entregue aos encantos da própria vaidade, arreganhado na mesa posta. Nada poderia fazer. Sabia que cedo ou tarde isso aconteceria. Era vitima e culpado de seu próprio sofrimento.
O caminhão de entregas até freiou mas os dias não teriam o mesmo gosto nem o mesmo cheiro depois daquele dia de cão.
terça-feira, 22 de setembro de 2009
O DIA QUE MEU CORAÇÃO PAROU
Notei bem depois, quando assustado com o pesadelo não senti os batimentos. Só o silêncio sinistro na alma. Catei o pulso, o lado esquerdo do peito, nada. De tão resignado que estava voltei a dormir já sabendo ter morrido um pouquinho.
Contrário às expectativas, acordei normal, no terceiro toque do despertador. Sentia a respiração longa e pesada. Sem o tum-tum-tum por dentro, outros órgãos sobressaíam em seu funcionamento maquinado e ruidoso. Somos molhados por dentro e a cada saliva que escorre pra dentro o pâncreas, fígado, intestinos e companhia se mexem como o torcer de pano de chão. Mas as evidências não me convenciam até perceber a verdade sobre minha nova condição cadáver. Letreiros, automóveis e toalhas na janela. Parei de enxergar o vermelho e algumas outras cores, como lilás e abóbora, que só vemos enquanto temos alegria no ser. O céu também não contribuía tapado em nuvens cinzas franzindo suas sombrancelhas sobre a cidade. Minha pele estava rígida e fosca; a morte era uma realidade. Sem consegui tirar a roupa velha que durmo, nem escovar o dente, fui assim mesmo trabalhar.
Os emails se acumularam durante todo o dia e minha incapacidade de articular duas frases decentes foram mal vistas pela diretoria. Aleguei falta de circulação no cérebro. Bobagem. O business não tem coração. Fui convidado a me retirar enquanto outro já aguardava entrevista na sala de espera. Ganhei tempo para organizar meu próprio falecimento que deveria acontecer dois ou três dias depois. E assim aconteceu. Duro, com a boca aberta virada para o céu e os olhos arregalados, ouvia a grama do jardim do Palácio do Catete crescer enquanto recordava com paciência as últimas horas. Escolhi este lugar para morrer porque era por ali, entre os patos e crianças, que caminhava cantarolando a cada segunda feira que vinha pensando nela. Os dias eram frescos e iluminados e terminavam sempre com um bonito pôr do sol e uma ligação despretensiosa. Ela sabia me fazer rir e suas opiniões tão cheias de opiniões me deixavam mais vivo, seja por concordar ou por odiá-la por isso.
Daqui ha um tempo vão me descobri aqui, por enquanto o vigia somente me observa como um bêbado inválido entre tantos. E quando isso acontecer vão tentar encontrar culpados e chegarão até seu nome, sabendo que foi ela minha última companhia. Mas não estarei vivo para dizer que me suicidei. Ao querer a moça mais bonita sabia que estava provando do meu próprio veneno, outrora capaz de fazer muitas vítimas. Eu quis, mesmo assim. E o dia chegou: ela se foi, confusa entre suas inexperiências e avidez, porém soberana nas decisões. Me deixou um sorriso seguro de quem tem muito mais vida pela frente para acertar e errar. Suas malas já estavam prontas para pegar a próxima carona. Morrerei aqui, com meus medos e paranóias, sem agradecê-la pela paciência e noites que se tornaram manhãs, sem provocar o último orgasmo nem recontar as últimas piadas.
Não é a primeira vez que essa esquisitice acontece mas sempre me tornei adubo de mim mesmo, graças a capacidade de renascer de um cafuné ou mimo inesperado. Neste dia que marca o fim do inverno, temo não conseguir a proeza de voltar a ser gente. Temo ter morrido de vez.
Contrário às expectativas, acordei normal, no terceiro toque do despertador. Sentia a respiração longa e pesada. Sem o tum-tum-tum por dentro, outros órgãos sobressaíam em seu funcionamento maquinado e ruidoso. Somos molhados por dentro e a cada saliva que escorre pra dentro o pâncreas, fígado, intestinos e companhia se mexem como o torcer de pano de chão. Mas as evidências não me convenciam até perceber a verdade sobre minha nova condição cadáver. Letreiros, automóveis e toalhas na janela. Parei de enxergar o vermelho e algumas outras cores, como lilás e abóbora, que só vemos enquanto temos alegria no ser. O céu também não contribuía tapado em nuvens cinzas franzindo suas sombrancelhas sobre a cidade. Minha pele estava rígida e fosca; a morte era uma realidade. Sem consegui tirar a roupa velha que durmo, nem escovar o dente, fui assim mesmo trabalhar.
Os emails se acumularam durante todo o dia e minha incapacidade de articular duas frases decentes foram mal vistas pela diretoria. Aleguei falta de circulação no cérebro. Bobagem. O business não tem coração. Fui convidado a me retirar enquanto outro já aguardava entrevista na sala de espera. Ganhei tempo para organizar meu próprio falecimento que deveria acontecer dois ou três dias depois. E assim aconteceu. Duro, com a boca aberta virada para o céu e os olhos arregalados, ouvia a grama do jardim do Palácio do Catete crescer enquanto recordava com paciência as últimas horas. Escolhi este lugar para morrer porque era por ali, entre os patos e crianças, que caminhava cantarolando a cada segunda feira que vinha pensando nela. Os dias eram frescos e iluminados e terminavam sempre com um bonito pôr do sol e uma ligação despretensiosa. Ela sabia me fazer rir e suas opiniões tão cheias de opiniões me deixavam mais vivo, seja por concordar ou por odiá-la por isso.
Daqui ha um tempo vão me descobri aqui, por enquanto o vigia somente me observa como um bêbado inválido entre tantos. E quando isso acontecer vão tentar encontrar culpados e chegarão até seu nome, sabendo que foi ela minha última companhia. Mas não estarei vivo para dizer que me suicidei. Ao querer a moça mais bonita sabia que estava provando do meu próprio veneno, outrora capaz de fazer muitas vítimas. Eu quis, mesmo assim. E o dia chegou: ela se foi, confusa entre suas inexperiências e avidez, porém soberana nas decisões. Me deixou um sorriso seguro de quem tem muito mais vida pela frente para acertar e errar. Suas malas já estavam prontas para pegar a próxima carona. Morrerei aqui, com meus medos e paranóias, sem agradecê-la pela paciência e noites que se tornaram manhãs, sem provocar o último orgasmo nem recontar as últimas piadas.
Não é a primeira vez que essa esquisitice acontece mas sempre me tornei adubo de mim mesmo, graças a capacidade de renascer de um cafuné ou mimo inesperado. Neste dia que marca o fim do inverno, temo não conseguir a proeza de voltar a ser gente. Temo ter morrido de vez.
quarta-feira, 29 de julho de 2009
A VISTA
Despertei com olhos que não eram meus. Verdes e com olheiras. É muito estranho acordar com a sua cara sem os olhos. Ele tinha mais lágrimas que o meu, piscava lento e tive que lavá-lo várias vezes para estar limpo de verdade. Cheguei afobado no trabalho e ninguém notou. Meus colegas que almoçam comigo seguiam em sua normalidade e o motorista da condução também. Cheguei em casa para verificar com calma. Eram maiores e tinha cílios mais claros. Comparei as fotos, tirei novas, troquei de espelho. Nada. Novo dia e eu com dor de cabeça. Os olhos que ganhei eram sensíveis a luz e sofri com o sol na janela, por isso passei o dia de óculos. Abandonei o expediente e fui almoçar com minha mãe. Reclamou do dinheiro, do marido, da idade. E foi embora sem me dizer nada. Tive dúvida sobre minha lucidez. Liguei para meu amigo e fiquei com mais dúvida ainda. Veio sábado, veio domingo e decidi ir ao médico. O oftamologista disse que era raro acontecer mas a íris poderia mudar de cor. Não acreditei naquele babaca interessado nas comissões da indústria farmacêutica e saí sem pagar. Me tranquei em casa e meu cachorro me lambeu por compaixão. Para ele, só para ele, eu ainda era eu.
Logo notei que, junto com os novos olhos, também vieram as banalidades. Agora me despertavam atenção bromélias, estampas e diamantes. Pensei nos cegos, no glaucoma e chorei pela primeira vez. Sem perceber fui excluído do meu circulo de amigos e encontros de família. Vez em quando, um ligava. Eu havia desistido de contar esta história mas também não queria contar outra. Ficava mudo e desligavam. Foi nessa época que usei drogas sintéticas pela primeira vez. Pensava em enganar meus olhos ou a mim. Uma alucinação contra a outra. Via tudo azul, depois tudo verde, depois desbotava-se. Numa das viagens acordei todo molhado com um lápis na mão feito punhal. Ia enlouquecer. Decidi refazer meus passos do dia anterior.
“Oi, o senhor viu por aqui um par de olhos castanhos bem normais?”. Melhor não perguntar nada. Sentei no bar tentando lembrar. Mesma mesa, mesma cerveja, mesmo garçom. Veio na lembrança uma certa euforia, mas passou. O músico com teclado e seu som sintético tocava “Azul da cor do mar”. Será que havia relação?Segui a pista e fui andando pela calçada que costumava me equilibrar no paralelepípedo. Passei pelo escritório, pela livraria e pelo banco. Procurei minha vista nas esquinas, nos lixos, queria entender. Mas acabei esgotado com a minha própria incapacidade e fui para casa. Pensava que, ao procurar os olhos havia perdido também o amor próprio. No metrô senti alguém me olhar. Muito. Hesitei em saber quem era. Desci ali mesmo. Pela primeira vez neste quase trinta dias, aquele arrepio que antecede um olhar me afrontou. Segui até minha casa, passos apertados, olhando para todos os cantos pois sabia que, seja lá quem fosse, estaria perto. E o avistei se esgueirando entre os carros estacionados. Eu parava, ele abaixava. Na esquina eu corri. Faltavam dois quarteirões para chegar. Sentia muito medo. Seria uma alucinação?Seria eu mesmo me perseguindo? Não consegui abrir o portão porque nestas horas a luz da rua está sempre apagada ou a fechadura está dura demais. Ele se aproximou tanto que decidi virar de súbito. Estava a menos de 300 metros. Tinha um saco de papel na cabeça com dois furos para olhar. Não falou nada, mas estendeu a mão para mim. Calma, calma. Era uma criatura estranha, pequena, e só depois vi que suas roupas estavam velhas, com aspecto abandonado. Era uma mulher. Levantou sua máscara improvisada e entendi tudo. A conhecia muito bem. Morava ao lado e sempre a quis mas nunca tive coragem para falar. Saíamos para o trabalho no mesmo horário e eu sempre corria para estar em seu caminho. Dia após dia cruzávamos e nos desejávamos em silêncio. De tanta insistência acabamos trocando nossos olhares. Para sempre.
Logo notei que, junto com os novos olhos, também vieram as banalidades. Agora me despertavam atenção bromélias, estampas e diamantes. Pensei nos cegos, no glaucoma e chorei pela primeira vez. Sem perceber fui excluído do meu circulo de amigos e encontros de família. Vez em quando, um ligava. Eu havia desistido de contar esta história mas também não queria contar outra. Ficava mudo e desligavam. Foi nessa época que usei drogas sintéticas pela primeira vez. Pensava em enganar meus olhos ou a mim. Uma alucinação contra a outra. Via tudo azul, depois tudo verde, depois desbotava-se. Numa das viagens acordei todo molhado com um lápis na mão feito punhal. Ia enlouquecer. Decidi refazer meus passos do dia anterior.
“Oi, o senhor viu por aqui um par de olhos castanhos bem normais?”. Melhor não perguntar nada. Sentei no bar tentando lembrar. Mesma mesa, mesma cerveja, mesmo garçom. Veio na lembrança uma certa euforia, mas passou. O músico com teclado e seu som sintético tocava “Azul da cor do mar”. Será que havia relação?Segui a pista e fui andando pela calçada que costumava me equilibrar no paralelepípedo. Passei pelo escritório, pela livraria e pelo banco. Procurei minha vista nas esquinas, nos lixos, queria entender. Mas acabei esgotado com a minha própria incapacidade e fui para casa. Pensava que, ao procurar os olhos havia perdido também o amor próprio. No metrô senti alguém me olhar. Muito. Hesitei em saber quem era. Desci ali mesmo. Pela primeira vez neste quase trinta dias, aquele arrepio que antecede um olhar me afrontou. Segui até minha casa, passos apertados, olhando para todos os cantos pois sabia que, seja lá quem fosse, estaria perto. E o avistei se esgueirando entre os carros estacionados. Eu parava, ele abaixava. Na esquina eu corri. Faltavam dois quarteirões para chegar. Sentia muito medo. Seria uma alucinação?Seria eu mesmo me perseguindo? Não consegui abrir o portão porque nestas horas a luz da rua está sempre apagada ou a fechadura está dura demais. Ele se aproximou tanto que decidi virar de súbito. Estava a menos de 300 metros. Tinha um saco de papel na cabeça com dois furos para olhar. Não falou nada, mas estendeu a mão para mim. Calma, calma. Era uma criatura estranha, pequena, e só depois vi que suas roupas estavam velhas, com aspecto abandonado. Era uma mulher. Levantou sua máscara improvisada e entendi tudo. A conhecia muito bem. Morava ao lado e sempre a quis mas nunca tive coragem para falar. Saíamos para o trabalho no mesmo horário e eu sempre corria para estar em seu caminho. Dia após dia cruzávamos e nos desejávamos em silêncio. De tanta insistência acabamos trocando nossos olhares. Para sempre.
terça-feira, 14 de julho de 2009
PEQUENOS CONSELHOS PRELIMINARES PARA SUA VIDA ADULTA
Viaje neste mundo de possibilidades criança, sem querer tatear de fato o que é a vida adulta. Sinta seu cheio mas não a coma, ouça seu canto mas não o repita. Seus pés cresceram e sua bunda também mas mantenha o olhar tão ingênuo e desprotegido quanto aquele que nos deu. ainda na incubadora, ainda sem saber se ia viver.
Como padrinho te preparo para o resto que virá, a primeira curva da sua vida em Indianápolis, fazendo volta em torno de si. O destino é assim, uma eterna repetição de atos com ou sem vontade. Verá sua libido crescer e seus pêlos também. Descobrirá cedo que conquistou seu espaço no pantheon mas precisa comer muito feijão e saber de assuntos que não te interessam se quiser girar conversas na cozinha sem ser interpelada por ter idade de menos. Verá a revolta sem causa nascer em metástase em seu estômago que vervilhará ao chiado de sonrisal. Furará sua orelha, seu corpo, negará seus cabelos e banhas, descobrirá que o verdadeiro monstro do armário está no espelho da porta. A dança dos hormônios também fará monstruosidades com seus amigos, que terão bigode ralo e ereções matinais, menstruação e calcinhas de algodão com ursinhos apaixonados.
Ah, menina grande, como eu gostaria que soubesse o que existe depois da infância sem precisar te trazer até aqui, nesta vida ritmada pela condução que passa às sete e o almoço de uma hora onde engulo minhas ansiedades e pago as contas. A nostalgia não vai tão longe, basta voltar a ser calouro, perfumado e vagabundo. Não te imponho uma formação de doutora e sim de cidadã. Encontre o que gosta e tenha sempre sangue nos olhos para conquistar, dominar, sem modéstia, seu espaço. Não se incline pela facilidade e estabilidade dos empregos sem sal e pelo medo de terminar seus dias velha e pobre. Terá tempo de sobra para cativar pessoas e lugares, dedique-se a isso. Não se envergonhe pela sua ambição nem pelo orgulho ou vaidade. Todo mundo tem o lado ruim escondido na caixinha de remédios.
Também fará bem não se decepcionar por não ter a seu lado as pessoas queridas que gostaria. No futuro estarão aqueles que restaram cujo os pais não foram morar em Manaus ou os que não sucumbiram a religião ou a vícios. Com seus contemporâneos terá a cumplicidade da geração e se arrependerá de não ter dividido a merenda com aquele remelento que agora é o bonitão e gerente, presidente, chefe de gabinete do seu coração não correspondido. Para isso felicite a todos, inclusive a menina que vem aqui em casa te trazer convites de aniversário mesmo que este tenha a data errada escrita à mão e não esqueça de falar com a outra que cresceu rápido demais e não quer mais brincar de pique com você.
Mas ser grande tem suas sensações que precisa aproveitar. Se antes era dominada pelo instinto de se alimentar agora também haverá o de procriar. Tome as medidas necessárias para não adiantar filhos não desejados mas não torne o sexo um tabu. Transe onde, quando e com quem quiser, gozando da sua irresponsabilidade sob medida. Também cometa loucuras por amor, mesmo que seja a si próprio, como pegar caronas rumo a próxima cidade, pular na piscina do vizinho escondido e entrar em festas sem conhecer ninguém. Depois de um certo tempo menina, ficamos bobos demais. Primeiro tentamos legitimar nossa diversão. Se você gosta de descer o gramado no papelão, vira snowboarder, se gosta de subir na árvore, vira engenheiro florestal, mas como a infância não é palpável, deixamos de lado as brincadeiras de rua e o riso bobo: é assim que a infância se vai.
Neste momento, compartilhamos as incertezas pelo amanhã e por isso fico feliz de ter você ao meu lado. Chegue aos quinze pois estou perto dos trinta mas continue revezando comigo a brincadeira com o cachorro e não deixe de beber água no gargalo das garrafas. Posso não estar perto a cada peça que encontrar do seu quebra-cabeças mas estarei aqui para aplaudi-lo assim que você terminar.
Como padrinho te preparo para o resto que virá, a primeira curva da sua vida em Indianápolis, fazendo volta em torno de si. O destino é assim, uma eterna repetição de atos com ou sem vontade. Verá sua libido crescer e seus pêlos também. Descobrirá cedo que conquistou seu espaço no pantheon mas precisa comer muito feijão e saber de assuntos que não te interessam se quiser girar conversas na cozinha sem ser interpelada por ter idade de menos. Verá a revolta sem causa nascer em metástase em seu estômago que vervilhará ao chiado de sonrisal. Furará sua orelha, seu corpo, negará seus cabelos e banhas, descobrirá que o verdadeiro monstro do armário está no espelho da porta. A dança dos hormônios também fará monstruosidades com seus amigos, que terão bigode ralo e ereções matinais, menstruação e calcinhas de algodão com ursinhos apaixonados.
Ah, menina grande, como eu gostaria que soubesse o que existe depois da infância sem precisar te trazer até aqui, nesta vida ritmada pela condução que passa às sete e o almoço de uma hora onde engulo minhas ansiedades e pago as contas. A nostalgia não vai tão longe, basta voltar a ser calouro, perfumado e vagabundo. Não te imponho uma formação de doutora e sim de cidadã. Encontre o que gosta e tenha sempre sangue nos olhos para conquistar, dominar, sem modéstia, seu espaço. Não se incline pela facilidade e estabilidade dos empregos sem sal e pelo medo de terminar seus dias velha e pobre. Terá tempo de sobra para cativar pessoas e lugares, dedique-se a isso. Não se envergonhe pela sua ambição nem pelo orgulho ou vaidade. Todo mundo tem o lado ruim escondido na caixinha de remédios.
Também fará bem não se decepcionar por não ter a seu lado as pessoas queridas que gostaria. No futuro estarão aqueles que restaram cujo os pais não foram morar em Manaus ou os que não sucumbiram a religião ou a vícios. Com seus contemporâneos terá a cumplicidade da geração e se arrependerá de não ter dividido a merenda com aquele remelento que agora é o bonitão e gerente, presidente, chefe de gabinete do seu coração não correspondido. Para isso felicite a todos, inclusive a menina que vem aqui em casa te trazer convites de aniversário mesmo que este tenha a data errada escrita à mão e não esqueça de falar com a outra que cresceu rápido demais e não quer mais brincar de pique com você.
Mas ser grande tem suas sensações que precisa aproveitar. Se antes era dominada pelo instinto de se alimentar agora também haverá o de procriar. Tome as medidas necessárias para não adiantar filhos não desejados mas não torne o sexo um tabu. Transe onde, quando e com quem quiser, gozando da sua irresponsabilidade sob medida. Também cometa loucuras por amor, mesmo que seja a si próprio, como pegar caronas rumo a próxima cidade, pular na piscina do vizinho escondido e entrar em festas sem conhecer ninguém. Depois de um certo tempo menina, ficamos bobos demais. Primeiro tentamos legitimar nossa diversão. Se você gosta de descer o gramado no papelão, vira snowboarder, se gosta de subir na árvore, vira engenheiro florestal, mas como a infância não é palpável, deixamos de lado as brincadeiras de rua e o riso bobo: é assim que a infância se vai.
Neste momento, compartilhamos as incertezas pelo amanhã e por isso fico feliz de ter você ao meu lado. Chegue aos quinze pois estou perto dos trinta mas continue revezando comigo a brincadeira com o cachorro e não deixe de beber água no gargalo das garrafas. Posso não estar perto a cada peça que encontrar do seu quebra-cabeças mas estarei aqui para aplaudi-lo assim que você terminar.
quarta-feira, 24 de junho de 2009
CONFISSÕES ERÓTICAS SOBRE A PRIMEIRA VEZ
*Baseado no relato de uma amiga confidente, bêbada e feliz.
Pra mim é orgia, mas ele disse que não. Chama de experiência madura ou sei lá que porra é essa. Começou como brincadeira de cócegas, cochichando sacanagem mas acabou falando sério. Saí pela direita.
Nosso namoro não anda bem nestes meses mas já teve sua glória. Sinto que sua ereção mudou. Antes metia afoito, eu nem aproveitava tanto. Depois passou a ser mais paciente e me deixou à vontade, e, de um tempo pra cá, temos apenas transado uma vez por final de semana. Pra mim é pouco. Os últimos dias que me fez gozar de verdade foram aqueles que antecederam o anal. Toda aquela expectativa que criei o fazia bufar, me pegar com força, me subjugar, coisa que adoro. O anal mesmo, detestei. Fiquei tensa. Lembro que vi algo sobre usar o chuveirinho na revista mas o dia me fugiu o planejamento e realmente tive medo de sujar tudo. Ele gostou. Disse que era apertado, quente, não sei o que lá, e nunca quis de novo. Só bêbado. Acho que os homens querem enfiar no cu apenas para conquistar, como fincar uma bandeira, no mais é só um buraco. Sujo, convenhamos.
A proposta me pareceu absurda pois nunca havia pensado em dividir meu namorado com ninguém, ainda mais com a amiga dele. Só não brigamos porque já a conheço e sei que não faz seu tipo. É gordinha, tem espinhas, estria na bunda branca e meio quadradona. Ele gosta de mignon, como eu, não picanha como ela. O que me argumentou era que gostaria de transar comigo e deixá-la com vontade, contando com minha ajuda pra excitá-la. Achei tentadora a proposta vista por este lado tão sádico e aceitei. Por mais que não desse importância, não saía da minha cabeça a imagem daquela gorda, esparramada no sofá, se masturbando e fazendo cara de tesão. Por outro lado, as tentativas com seu membro mole me faziam sentir a pior.
No dia combinado já havíamos brigado tanto que pensei em desistir. Mas ele parou seu Uno preto antes do horário combinado no portão da minha casa e buzinou. Havia comprado uma calcinha ousada, vermelha, mas lembrando da presença de outra fiquei insegura e acabei optando por uma básica mesmo. Que saco a presença desta vaca!Seria tão bom tê-lo de volta, sem a dança do maxixe. Este não é o homem que eu conheci. Nos levou a um pé sujo perto de sua casa, sem cerimônia. A amiga, que me foi apresentada numa das festas de faculdade, até estava muito bonita, usando todos os artifícios de sedução disponíveis no mercado. Francamente ela errou o tom e a roupa estava demais para o ambiente, mas, a esta altura, quem sou eu?Uma mulher que precisa doar metade do seu homem para tornar sua vida interessante. Bateu uma tristeza, tão evidente quanto a tentativa dele de nos deixar à vontade, por isso fui ao banheiro enquanto repetiam suas histórias de sala de aula que eu já não agüentava ouvir e rir educadamente. Tava lá no espelho a verdade, sublinhada por rugas de expressão que a maquiagem não escondeu. Falava sozinha quando minha - quase - rival entrou. Em silêncio, urinou de portas abertas, de cócoras, evitando o contato com a tábua da privada, me olhando distraída. Ainda se secando com o papel ordinário, cortado em tiras, disparou:
- Ele ta achando que vai comer a gente. Coitado.
Como uma mulher pode compreender tanto a outra?... Era tudo aquilo que eu gostaria de ouvir. O castelo de areia, o harém daquele cafajeste se desmontou. Trocamos confidências e rimos da possibilidade absurda numa cumplicidade que só o espelho e o batom podem explicar. Soube ali que nunca haviam transado e tudo não passou de uns beijos arrependidos.Voltamos triunfantes, de cabelos soltos e penteados, rebolando sem notar e chamando atenção dos rapazes reunidos perto do poste. Não combinamos nada mas invertemos o jogo, seduzindo o pobre diabo, cujo pau se apertava na bermuda estampada por coqueiros e ondas. O instrumento eu conhecia bem, mas, sem que ninguém notasse, o fitei e me excitei no primeiro esbarrão de seu braço, alheio ao meu. Sentia com as rédeas da noite nas mãos. A gorda contribuiu com o clima dando agulhadas e deboches. Não se tocaram em nenhum momento, eu vigiava.
Tomávamos um vinho barato pois não há nada melhor para temperar uma noite vadia. Mas aquela birosca, de garrafas multicoloridas, não foi capaz de saciar nossa sede. Foi ele quem sugeriu o motel. Eu tomei um susto, mas depois ri.
- Vai a merda. Com este pinto pequeno você não agüenta nem comigo.
Disse no susto e achei tão divertido, tendo de apoio a gargalhada da amiga. Mas os homens sempre possuem resposta quando o assunto é putaria. Enfiando a mão nas calças, colocou para fora e balançou aquela verga dura, escura, com veias saltando para fora, e a sacudiu numa banalidade de menino brincando com seu cavalinho. Vendo um homem com o membro na mão não há mulher que fique impune, visto que um silêncio tomou conta do carro, ao cruzar os pingos e a modorra de segunda de madrugada. Reprimi-o sem jeito e depois de algum tempo ele entrou abrupto no estacionamento que eu desconhecia. Parecia um posto de gasolina desativado ou algo assim. Saiu do carro no mesmo instante e disse algo sobre comprar bebida. Havia esquecido momentaneamente a minha nova amiga sentada no banco de trás que me surpreendeu ao cochichar no ouvido um assunto que poderia ter sido dito de outra forma mas que, tenho que confessar, não me daria tanto tesão. Molhei numa vez só minha calcinha mesmo tendo um ataque moral de levantar o corpo. Virei de frente a encará-la e a gorda me tocou os cabelos, sorrindo complacente e, se aproximando de súbito, beijou o canto da minha boca, provocando formigamento na língua que a queria. Toquei-a pensando em afastá-la e só a provoquei mais. Também não tinha forças e minha mão escorreu pela fartura de seus seios, que depois de expostos, arrepiaram-se no ato. Gostaria de ter um pau, que tocasse as coisas como se fosse minhas mãos, só assim teria controle e poderia sair tateando fissuras, mas não, sou uma mulher que, ao ser estimulada, sinto um puta tesão do umbigo ao joelho, ficando impossível determinar onde ela me tocou. Quando percebi já passeava com seus dedos úmidos entre as minhas pernas, numa precisão nunca sentida por mim. Deitei meu corpo acionando um botão do painel que passou a assoprar vento quente em nós. Foda-se. Ela encaixou a cabeça entre minhas pernas, agora completamente aberta e, pacientemente, pressionou sua boca carnuda e suas bochechas macias, enchendo os lábios com meus ralos pêlos pubianos. Ainda lembro de seus olhos e do constrangimento pois eram os mesmos que me buscavam no banheiro, querendo cumplicidade. Gozei quando ele se aproximava, revelando apenas uma silhueta ao longe, com o pesado garrafão de vinho nas mãos. Ele sentiu o cheiro, me viu ajeitar a roupa, ficar vermelha e virar para frente mas, estava tão imóvel, tão paralisada, tão desajeitada com a situação, que não tirei os olhos do retrovisor. O gozo me fazia querer mais. As mãos dela me procurando pelo canto da porta também. Impossível. Tinha sido descoberta, sido vencida, corrompido meus códigos morais. A cabeça latejava enquanto os dois riam e falavam besteira sobre qualquer coisa que passasse pela janela. O homem correndo da chuva, o gato que quase virou asfalto, tudo virou motivo.
Nunca mais aconteceu, óbvio. E o namorado também não resistiu a crise de identidade e talvez até esteja com outra. Estou solteira e evito qualquer intimidade ao me ver sozinha com amigas. Vou morrer sem dizer para nenhuma delas que tenho até hoje tesão naquela gordinha ou em qualquer outra que cruze meu caminho. Bom, pelo menos era segredo, até agora.
Pra mim é orgia, mas ele disse que não. Chama de experiência madura ou sei lá que porra é essa. Começou como brincadeira de cócegas, cochichando sacanagem mas acabou falando sério. Saí pela direita.
Nosso namoro não anda bem nestes meses mas já teve sua glória. Sinto que sua ereção mudou. Antes metia afoito, eu nem aproveitava tanto. Depois passou a ser mais paciente e me deixou à vontade, e, de um tempo pra cá, temos apenas transado uma vez por final de semana. Pra mim é pouco. Os últimos dias que me fez gozar de verdade foram aqueles que antecederam o anal. Toda aquela expectativa que criei o fazia bufar, me pegar com força, me subjugar, coisa que adoro. O anal mesmo, detestei. Fiquei tensa. Lembro que vi algo sobre usar o chuveirinho na revista mas o dia me fugiu o planejamento e realmente tive medo de sujar tudo. Ele gostou. Disse que era apertado, quente, não sei o que lá, e nunca quis de novo. Só bêbado. Acho que os homens querem enfiar no cu apenas para conquistar, como fincar uma bandeira, no mais é só um buraco. Sujo, convenhamos.
A proposta me pareceu absurda pois nunca havia pensado em dividir meu namorado com ninguém, ainda mais com a amiga dele. Só não brigamos porque já a conheço e sei que não faz seu tipo. É gordinha, tem espinhas, estria na bunda branca e meio quadradona. Ele gosta de mignon, como eu, não picanha como ela. O que me argumentou era que gostaria de transar comigo e deixá-la com vontade, contando com minha ajuda pra excitá-la. Achei tentadora a proposta vista por este lado tão sádico e aceitei. Por mais que não desse importância, não saía da minha cabeça a imagem daquela gorda, esparramada no sofá, se masturbando e fazendo cara de tesão. Por outro lado, as tentativas com seu membro mole me faziam sentir a pior.
No dia combinado já havíamos brigado tanto que pensei em desistir. Mas ele parou seu Uno preto antes do horário combinado no portão da minha casa e buzinou. Havia comprado uma calcinha ousada, vermelha, mas lembrando da presença de outra fiquei insegura e acabei optando por uma básica mesmo. Que saco a presença desta vaca!Seria tão bom tê-lo de volta, sem a dança do maxixe. Este não é o homem que eu conheci. Nos levou a um pé sujo perto de sua casa, sem cerimônia. A amiga, que me foi apresentada numa das festas de faculdade, até estava muito bonita, usando todos os artifícios de sedução disponíveis no mercado. Francamente ela errou o tom e a roupa estava demais para o ambiente, mas, a esta altura, quem sou eu?Uma mulher que precisa doar metade do seu homem para tornar sua vida interessante. Bateu uma tristeza, tão evidente quanto a tentativa dele de nos deixar à vontade, por isso fui ao banheiro enquanto repetiam suas histórias de sala de aula que eu já não agüentava ouvir e rir educadamente. Tava lá no espelho a verdade, sublinhada por rugas de expressão que a maquiagem não escondeu. Falava sozinha quando minha - quase - rival entrou. Em silêncio, urinou de portas abertas, de cócoras, evitando o contato com a tábua da privada, me olhando distraída. Ainda se secando com o papel ordinário, cortado em tiras, disparou:
- Ele ta achando que vai comer a gente. Coitado.
Como uma mulher pode compreender tanto a outra?... Era tudo aquilo que eu gostaria de ouvir. O castelo de areia, o harém daquele cafajeste se desmontou. Trocamos confidências e rimos da possibilidade absurda numa cumplicidade que só o espelho e o batom podem explicar. Soube ali que nunca haviam transado e tudo não passou de uns beijos arrependidos.Voltamos triunfantes, de cabelos soltos e penteados, rebolando sem notar e chamando atenção dos rapazes reunidos perto do poste. Não combinamos nada mas invertemos o jogo, seduzindo o pobre diabo, cujo pau se apertava na bermuda estampada por coqueiros e ondas. O instrumento eu conhecia bem, mas, sem que ninguém notasse, o fitei e me excitei no primeiro esbarrão de seu braço, alheio ao meu. Sentia com as rédeas da noite nas mãos. A gorda contribuiu com o clima dando agulhadas e deboches. Não se tocaram em nenhum momento, eu vigiava.
Tomávamos um vinho barato pois não há nada melhor para temperar uma noite vadia. Mas aquela birosca, de garrafas multicoloridas, não foi capaz de saciar nossa sede. Foi ele quem sugeriu o motel. Eu tomei um susto, mas depois ri.
- Vai a merda. Com este pinto pequeno você não agüenta nem comigo.
Disse no susto e achei tão divertido, tendo de apoio a gargalhada da amiga. Mas os homens sempre possuem resposta quando o assunto é putaria. Enfiando a mão nas calças, colocou para fora e balançou aquela verga dura, escura, com veias saltando para fora, e a sacudiu numa banalidade de menino brincando com seu cavalinho. Vendo um homem com o membro na mão não há mulher que fique impune, visto que um silêncio tomou conta do carro, ao cruzar os pingos e a modorra de segunda de madrugada. Reprimi-o sem jeito e depois de algum tempo ele entrou abrupto no estacionamento que eu desconhecia. Parecia um posto de gasolina desativado ou algo assim. Saiu do carro no mesmo instante e disse algo sobre comprar bebida. Havia esquecido momentaneamente a minha nova amiga sentada no banco de trás que me surpreendeu ao cochichar no ouvido um assunto que poderia ter sido dito de outra forma mas que, tenho que confessar, não me daria tanto tesão. Molhei numa vez só minha calcinha mesmo tendo um ataque moral de levantar o corpo. Virei de frente a encará-la e a gorda me tocou os cabelos, sorrindo complacente e, se aproximando de súbito, beijou o canto da minha boca, provocando formigamento na língua que a queria. Toquei-a pensando em afastá-la e só a provoquei mais. Também não tinha forças e minha mão escorreu pela fartura de seus seios, que depois de expostos, arrepiaram-se no ato. Gostaria de ter um pau, que tocasse as coisas como se fosse minhas mãos, só assim teria controle e poderia sair tateando fissuras, mas não, sou uma mulher que, ao ser estimulada, sinto um puta tesão do umbigo ao joelho, ficando impossível determinar onde ela me tocou. Quando percebi já passeava com seus dedos úmidos entre as minhas pernas, numa precisão nunca sentida por mim. Deitei meu corpo acionando um botão do painel que passou a assoprar vento quente em nós. Foda-se. Ela encaixou a cabeça entre minhas pernas, agora completamente aberta e, pacientemente, pressionou sua boca carnuda e suas bochechas macias, enchendo os lábios com meus ralos pêlos pubianos. Ainda lembro de seus olhos e do constrangimento pois eram os mesmos que me buscavam no banheiro, querendo cumplicidade. Gozei quando ele se aproximava, revelando apenas uma silhueta ao longe, com o pesado garrafão de vinho nas mãos. Ele sentiu o cheiro, me viu ajeitar a roupa, ficar vermelha e virar para frente mas, estava tão imóvel, tão paralisada, tão desajeitada com a situação, que não tirei os olhos do retrovisor. O gozo me fazia querer mais. As mãos dela me procurando pelo canto da porta também. Impossível. Tinha sido descoberta, sido vencida, corrompido meus códigos morais. A cabeça latejava enquanto os dois riam e falavam besteira sobre qualquer coisa que passasse pela janela. O homem correndo da chuva, o gato que quase virou asfalto, tudo virou motivo.
Nunca mais aconteceu, óbvio. E o namorado também não resistiu a crise de identidade e talvez até esteja com outra. Estou solteira e evito qualquer intimidade ao me ver sozinha com amigas. Vou morrer sem dizer para nenhuma delas que tenho até hoje tesão naquela gordinha ou em qualquer outra que cruze meu caminho. Bom, pelo menos era segredo, até agora.
terça-feira, 23 de junho de 2009
COMPRAS E AFAZERES
Minha inércia e meu desapego material chegaram ao limite. Vim da Europa empolgado com uma sociedade inteira que realmente se importa mais com o “ser” que o “ter”. Além disso, sobrevivi com uma mochila dois meses e posso continuar assim: meia dúzia de roupas e muito menos quinquilharias tecnológicas. Mas foi a moça falante que viu “Ei, sua camisa ta furada”. Era a terceira em uma semana. Comecei a rascunhar a lista de compras e afazeres mas com o pesar que deveria também fazer a lista de dispensas. É assim com o coração da gente e tem que ser com as coisas também. Mas não consigo. Prefiro não ter a ter que abandonar depois.
Sinceramente tenho medo das listas. Todas as vezes que as faço não consigo executá-la. Bastam dois ou três itens concluídos e a sensação de dever – parcialmente – cumprido toma conta. Me perco em possibilidades e transformo equações exatas em barcos que navegam em mares infinitos. Se eu tivesse criado o mundo, ele não completaria o quinto dia e se tivesse criado os mandamentos, não passariam de conselhos rascunhados. Começo sem prestar atenção.
Primeiro meu carro, cansado de guerra, cheio de arranhões e gambiarras elétricas.O que fazer com ele? O Eco-Escort, como o chamo, tem andado manco, furando pneus e dando de lado. Nele habitam um pé de tênis, que tenho a esperança de encontrar seu irmão gêmeo, uma garrafa de vodka, para a festa nunca acabar, e um casaco para dias sem ninguém. O cd, que não funcionava, deu o ar da graça depois da joelhada de uma pequena mas voltou a se calar recentemente. Tento lembrar o nome dela para que possa repetir o golpe.
Vou direto às roupas, mais urgente. Um armário de adolescente me olha com seus bofes pra fora não suportando uma cueca. Tenho que eliminar algo. Ano passado tive a paranóia de ter que tocar com uma camisa nova a cada apresentação. A doidice passou mas me apeguei a elas. Essa do barbudo de óculos, foi a usada para as fotos no estúdio, fica. Essa listrada, deu sorte, fica. Mas a do ferro de passar foi presente, fica também. No entanto só tenho usado outras, lisas, mais agarradinhas ao corpo, aproveitando os dois quilos a menos que mantenho distraído. Melhor recosturar todas então.
Pulo as contas fixas da lista pois estas sei de cabeça, só não as pago sempre por puro masoquismo. Prefiro organizar os planos futuros, inspiradores. Morar sozinho?Um novo possante? Ou a viagem pela América? Mas, calma aí rapaz. Para fazer tudo isso eu não preciso economizar? Desanimo ao olhar o papel que pede minha atenção, implorando com seu espaço em branco um pouco de conteúdo. Mudo o foco. Começo rapidamente uma nova lista com tudo que fiz este ano. Caminho fácil pelo acampamento inédito em ilha grande, pela fantasia inspirada no carnaval e pelos tantos quilômetros em terras estrangeiras. Tive que voltar as montanhas de San Gotardo, lá nos Alpes, para avistar no horizonte o mochileiro curioso que sou e como posso fazer da minha rotina uma nova aventura. Pensando bem, vou deixar a lista pra lá. Muito melhor é encontrá-la dentro de mim.
Sinceramente tenho medo das listas. Todas as vezes que as faço não consigo executá-la. Bastam dois ou três itens concluídos e a sensação de dever – parcialmente – cumprido toma conta. Me perco em possibilidades e transformo equações exatas em barcos que navegam em mares infinitos. Se eu tivesse criado o mundo, ele não completaria o quinto dia e se tivesse criado os mandamentos, não passariam de conselhos rascunhados. Começo sem prestar atenção.
Primeiro meu carro, cansado de guerra, cheio de arranhões e gambiarras elétricas.O que fazer com ele? O Eco-Escort, como o chamo, tem andado manco, furando pneus e dando de lado. Nele habitam um pé de tênis, que tenho a esperança de encontrar seu irmão gêmeo, uma garrafa de vodka, para a festa nunca acabar, e um casaco para dias sem ninguém. O cd, que não funcionava, deu o ar da graça depois da joelhada de uma pequena mas voltou a se calar recentemente. Tento lembrar o nome dela para que possa repetir o golpe.
Vou direto às roupas, mais urgente. Um armário de adolescente me olha com seus bofes pra fora não suportando uma cueca. Tenho que eliminar algo. Ano passado tive a paranóia de ter que tocar com uma camisa nova a cada apresentação. A doidice passou mas me apeguei a elas. Essa do barbudo de óculos, foi a usada para as fotos no estúdio, fica. Essa listrada, deu sorte, fica. Mas a do ferro de passar foi presente, fica também. No entanto só tenho usado outras, lisas, mais agarradinhas ao corpo, aproveitando os dois quilos a menos que mantenho distraído. Melhor recosturar todas então.
Pulo as contas fixas da lista pois estas sei de cabeça, só não as pago sempre por puro masoquismo. Prefiro organizar os planos futuros, inspiradores. Morar sozinho?Um novo possante? Ou a viagem pela América? Mas, calma aí rapaz. Para fazer tudo isso eu não preciso economizar? Desanimo ao olhar o papel que pede minha atenção, implorando com seu espaço em branco um pouco de conteúdo. Mudo o foco. Começo rapidamente uma nova lista com tudo que fiz este ano. Caminho fácil pelo acampamento inédito em ilha grande, pela fantasia inspirada no carnaval e pelos tantos quilômetros em terras estrangeiras. Tive que voltar as montanhas de San Gotardo, lá nos Alpes, para avistar no horizonte o mochileiro curioso que sou e como posso fazer da minha rotina uma nova aventura. Pensando bem, vou deixar a lista pra lá. Muito melhor é encontrá-la dentro de mim.
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