Ela viu o passarinho azul. Ele achou que já estava na fita. Fazia tempo que trabalhavam lado-a-lado, mas nunca tinham se visto. Pouco conversaram e logo surgiu o entendimento, harmonia de personalidades, mas ela precisou alugar um filme para se aproximarem. Seguiu alugando todo tipo, aliás menos os clássicos em preto e branco e a intimidade veio dando seus retoques, pintando o clima. Almoçaram juntos, dividiram o mesmo prato e logo o mesmo beijo. Estava escurecendo e a loja de tintas e a locadora permaneciam abertas com o casal papeando no degrau da porta.
- Aquele beijo vai ter replay?
- Você está me deixando vermelha. Nem te conheço direito...
- E o quê você quer saber? - Sei lá. Você já namorou?
- Passa essa parte. Passa...
- Eu namorei, mas o cara me traiu.
- Já vi esse filme.
- Namorava a vizinha há um tempão
- Pois é. Dormindo com o inimigo.
- Foi um borrão na minha vida... Vamos mudar de assunto. Você tem cachorro?
- Bradock e Van Damme . E você?
- Tenho uma gata, a Pink.
- Que time você torce?
- Fluminense. Sou tricolor.
- Agora que a gente se conhece, vamos para algum lugar ?
- Sei lá. Meu destino é que traça o caminho.
- Então princesa. Ejeta isso da memória.
- É. Tá na hora de pintar algo novo na minha vida...
Dali foram misturar seus tons, avaliar profundidades no sombreado mais próximo. Pelos ouvidos dela, palavras ralas chegaram ao coração banhadas no fixador e nem precisa dizer que se apaixonou. Ela queria mais que amizades coloridas, precisava de relacionamentos marcantes. Seu amor não conhecia a escala Pantone e suas variações capazes de pintar mil pavões e borboletas, tinha ficado apenas nas primárias. Sequer prestou atenção no outro, sua natureza de dois cabeçotes, com 120 minutos de duração e a vocação de fingir viver um roteiro original. A semana seguiu com interferências na imagem do moço: mandou flores brancas, preferiu ver filme de sacanagem com os amigos do que visitar a exposição de Mondrian, e o pior, não saiu da loja para admirar o arco-íris. Mas longe de separar, ela aprendia com ele, ouvia sua cultura de National Geographic e mergulhava em suas histórias habitadas pelo fantástico e o surpreendente. Sabia feitiços, astronomia, mitologias, culinária, segredo de cofres, piadas, biografias, estratégias militares, declarações de amor. Sabia conquistar as mulheres pelo melhor ângulo. Justo no dia que completaram uma semana, ele não apareceu na porta da loja o dia inteiro, no outro idem, só deu o ar da graça três dias depois com desculpas daltônicas alegando que tudo foi um grande mal entendido. O amor desbotou-se por completo, descascou as camadas e a menina chorou lágrimas sem cor pensando nos erros da sua intensidade. No mesmo dia ele já estava rondando o salão de beleza que abriu ao lado, pois chegou cabeleireira nova, que corta o papo-furado pela raiz e faz barba, cabelo e bigode por muito menos.
05/09/2002
quinta-feira, 14 de junho de 2007
LITTLE B
Little b nasceu na rachadura da calçada
Nunca me pediu teto, nunca me pediu água, nunca me pediu nada
Sobrevive do fogo do inferno e do orvalho da manhã.
Little b é doce e inconseqüente
mão de gancho e peter pan
tem amigos distantes, amores insípidos,
Little b é diferente, meio Amelie Polain
Um dia quando eu chegar, Little b não vai estar ali
e no seu lugar só nossos ecos e possibilidades
que guardarei no baú do "quem sabe um dia".
Só lá poderei andar de mãos dadas com Little b
pelos pavimentos da nostalgia.
*único poema da minha vida, escrito para uma menina que, na época, não podia ser minha.
Nunca me pediu teto, nunca me pediu água, nunca me pediu nada
Sobrevive do fogo do inferno e do orvalho da manhã.
Little b é doce e inconseqüente
mão de gancho e peter pan
tem amigos distantes, amores insípidos,
Little b é diferente, meio Amelie Polain
Um dia quando eu chegar, Little b não vai estar ali
e no seu lugar só nossos ecos e possibilidades
que guardarei no baú do "quem sabe um dia".
Só lá poderei andar de mãos dadas com Little b
pelos pavimentos da nostalgia.
*único poema da minha vida, escrito para uma menina que, na época, não podia ser minha.
terça-feira, 5 de junho de 2007
PAIXÕES DE BOLSO
Adoro dias de sol e frio. O clima somado ao casaco e aos óculos escuros dá um ar soberbo à cidade transformando qualquer Campo Grande em Cidade do Porto. Da janela do coletivo mais decente que consegui pegar, ia admirando as coisas de sempre focando nos locais pré-selecionados pela memória. Cavalinhos pastando no terreno gramado do Cantagalo, patos no laguinho da casinha modesta do Magarça, vila com velhinhos encolhidos na Rio-Santos. Tudo perfeito. Foi me ajeitando para encostar a cabeça no vidro e terminar o sono interrompido de casa que a vi pela primeira vez, bem do meu lado. Tinha entrado em uma das muitas paradas e, era tão discreta, que foi impossível percebê-la chegar. Nunca a tinha visto e, às vezes, me pergunto se realmente ela existiu, pois tudo nela era tão certo, tão harmonioso, que poderia ter sido miragem ou ilusão pelo clima bucólico de outono.
- pode fechar um pouquinho a janela, por favor?
Sou uma daquelas pessoas idiotas que gostam de tomar vento gelado na cara enquanto viajo e nem tinha percebido que incomodava minha colega de poltrona. Pelo menos foi um pretexto para ouvir a voz dela, inédita pra mim. Era uma voz confortável, de timbres afinados e meio incertos, que revelavam sua idade de menina. 22 no máximo. Ela me agradeceu com um sorriso de aeromoça e fuxicou mecanicamente sua pasta transparente. Catou uma apostila, escolheu uma caneta, fechou o estojo quadradinho e começou uma leitura silenciosa. Tentei espichar os olhos no máximo, sem virar o pescoço, para ler. Tentava um fio da meada, algo que pudesse começar uma conversa, algo que eu soubesse falar fluentemente. Fiquei imóvel. Foquei. Foquei mais. Consegui ler: RADIOLOGIA . “Puta que pariu, o que é isso?”. Pensei.
Buscando alternativas, assuntos paralelos, torcendo para o ônibus dar uma freada ou alguém falar uma gracinha, lembrei do calendário universitário e das provas que se aproximavam como nuvens negras. Arrisquei.
- Não vai ter jeito. Agora só colando.
Silêncio. Nem uma risadinha, uma mexida de cabelo. Repeti mais alto com medo de não ter sido ouvido. Nada de resposta. Continuei olhando pra frente, recuperando a marra de europeu daquela manhã e escondendo a vergonha de ser ignorado. Aproveitei a risada de uma gorda feia do lado oposto para olhar rapidamente. Putz, ela estava de fone. Tão alheia a paisagem, aos passageiros, às piadas, ela passeava os olhos clarinhos pela folha, com seu nariz arrebitado vermelho na ponta, revelando a chegada de um resfriado. Poderia passar cinco gerações olhando pra ela mas tive que disfarçar rapidamente quando, abruptamente, tirou o fone, catou na outra bolsa marrom um celular Motorola V3 que tocava. Acho que todas as mulheres gostam desse celular porque parece com um estojo de maquiagem. Elas abrem o aparelho de frente, olham o reflexo no vidrinho e depois atendem o chamado. Muito engraçado. Minha companheira fez igual e falou baixinho com um sorriso sincero, espontâneo, muito incomum numa terça-feira tão cedo. Chamou de amor, falou da prova, mandou beijinho. Já era. Imediatamente senti ciúmes da ligação, fiquei com raiva, me senti traído. Queria reler o email que falava de como os homens se transformavam em canalha. Esse foi feito pra mim. Pensei em ir no West Show, em ligar pra alguém. Achei melhor desencanar.
Lembrei das paixões de bolso que vivi. No cinema, no reflexo das vitrines, no caixa da lanchonete, no cruzamento das ruas, sempre paro meus olhos com outros e vejo meu coração bater apressado. Mesmo sabendo que são efêmeros, mesmo sabendo que tudo começa e termina ali, mesmo sabendo que esquecerei na próxima piscada, deixo ele bater mais feliz. Será que todo mundo já teve, pelo menos uma vez, uma paixão de bolso?Ou isso é mais uma faceta dos românticos metropolitanos?
Fui interrompido pelo encostar leve no meu ombro esquerdo. Com tanta concentração ela acabou dormindo e, sem poder evitar, recostou sua cabeça em mim. Respirei fundo e fiz um leve carinho em sua mão, suficiente para fazê-la acordar. Precisava levantar, descer no meu ponto. Paixões de bolso são assim.
- pode fechar um pouquinho a janela, por favor?
Sou uma daquelas pessoas idiotas que gostam de tomar vento gelado na cara enquanto viajo e nem tinha percebido que incomodava minha colega de poltrona. Pelo menos foi um pretexto para ouvir a voz dela, inédita pra mim. Era uma voz confortável, de timbres afinados e meio incertos, que revelavam sua idade de menina. 22 no máximo. Ela me agradeceu com um sorriso de aeromoça e fuxicou mecanicamente sua pasta transparente. Catou uma apostila, escolheu uma caneta, fechou o estojo quadradinho e começou uma leitura silenciosa. Tentei espichar os olhos no máximo, sem virar o pescoço, para ler. Tentava um fio da meada, algo que pudesse começar uma conversa, algo que eu soubesse falar fluentemente. Fiquei imóvel. Foquei. Foquei mais. Consegui ler: RADIOLOGIA . “Puta que pariu, o que é isso?”. Pensei.
Buscando alternativas, assuntos paralelos, torcendo para o ônibus dar uma freada ou alguém falar uma gracinha, lembrei do calendário universitário e das provas que se aproximavam como nuvens negras. Arrisquei.
- Não vai ter jeito. Agora só colando.
Silêncio. Nem uma risadinha, uma mexida de cabelo. Repeti mais alto com medo de não ter sido ouvido. Nada de resposta. Continuei olhando pra frente, recuperando a marra de europeu daquela manhã e escondendo a vergonha de ser ignorado. Aproveitei a risada de uma gorda feia do lado oposto para olhar rapidamente. Putz, ela estava de fone. Tão alheia a paisagem, aos passageiros, às piadas, ela passeava os olhos clarinhos pela folha, com seu nariz arrebitado vermelho na ponta, revelando a chegada de um resfriado. Poderia passar cinco gerações olhando pra ela mas tive que disfarçar rapidamente quando, abruptamente, tirou o fone, catou na outra bolsa marrom um celular Motorola V3 que tocava. Acho que todas as mulheres gostam desse celular porque parece com um estojo de maquiagem. Elas abrem o aparelho de frente, olham o reflexo no vidrinho e depois atendem o chamado. Muito engraçado. Minha companheira fez igual e falou baixinho com um sorriso sincero, espontâneo, muito incomum numa terça-feira tão cedo. Chamou de amor, falou da prova, mandou beijinho. Já era. Imediatamente senti ciúmes da ligação, fiquei com raiva, me senti traído. Queria reler o email que falava de como os homens se transformavam em canalha. Esse foi feito pra mim. Pensei em ir no West Show, em ligar pra alguém. Achei melhor desencanar.
Lembrei das paixões de bolso que vivi. No cinema, no reflexo das vitrines, no caixa da lanchonete, no cruzamento das ruas, sempre paro meus olhos com outros e vejo meu coração bater apressado. Mesmo sabendo que são efêmeros, mesmo sabendo que tudo começa e termina ali, mesmo sabendo que esquecerei na próxima piscada, deixo ele bater mais feliz. Será que todo mundo já teve, pelo menos uma vez, uma paixão de bolso?Ou isso é mais uma faceta dos românticos metropolitanos?
Fui interrompido pelo encostar leve no meu ombro esquerdo. Com tanta concentração ela acabou dormindo e, sem poder evitar, recostou sua cabeça em mim. Respirei fundo e fiz um leve carinho em sua mão, suficiente para fazê-la acordar. Precisava levantar, descer no meu ponto. Paixões de bolso são assim.
quinta-feira, 31 de maio de 2007
MINHAS MULHERES SOLITÁRIAS
Moro em um labirinto de salas e quartos mal recortados, onde nem sempre a luz do sol é convidada a entrar. Minha casa, que durante sua existência abrigou um entra e sai de gente, oferecendo jantares a personalidades e abrigo a anônimos, com homens indomáveis que chegavam famintos do ofício da madrugada, cheios de suas histórias barulhentas e fantásticas, hoje esconde três mulheres, cada uma com sua solidão.
Encontro com a mais velha freqüentemente. É frágil, singela e bonita. Nossa conversa, sempre nas rápidas manhãs, varia entre as fofocas da vizinhança e as contas que nunca se pagam. Quando não a encontro na cozinha, está rezando o terço em seu cantinho de mil santos e promessas. É vó-solteira e carrega a responsabilidade de governanta nas costas, fazendo dos afazeres do dia-a-dia, um ocupar contínuo, como um cachorro que tenta em vão morder o próprio rabo.
Já a do meio, vive assombrada pelas seqüelas do destino. Enclausurou-se com suas fobias de gente e assumiu, instintivamente, o papel da lei nesta terra de ninguém. Decide a ordem dos armários, a função das coisas e as marcas que todos irão usar; uma espécie de general sem soldados. Ainda ecoam pelo corredor suas gargalhadas de mulher moça, recém chegada da farra, em uma época que tinha hormônios de sobra e nenhuma responsabilidade.
Todo colorido da casa é de responsabilidade da menor. Inteligente e faminta, ela rompe o silêncio sem milongas, mostrando sua habilidade com o violão sempre que chega uma visita. Seu riso é gostoso porque guarda uma inocência esquecida pelos adultos revelando seus dentinhos separados de leite. Conhece o pai somente da cintura pra cima, através da única foto que tem, mesmo assim, vive uma esperança diária de vê-lo rompendo pela porta, andando com os pés que ela, a cada sonho, imagina de um jeito.
Engana-se quem as acha diferente. São tão unidas, tão peças do mesmo resta-um, que extrapolam a hierarquia tradicional de família. Se chamam de mãe-vó, filha-mãe, neta-filha, sem se preocupar. Abdicaram também do direito de ter cada uma o seu quarto e amontoam-se no mesmo cubículo, onde disputam canal de tv e discutem as diferenças que três gerações distintas têm. Cansadas, acabam adormecendo feito palitos de fósforo, encostando uma a cabeça na outra, talvez para lembrar, mesmo adormecida, que nunca estão sós.
Encontro com a mais velha freqüentemente. É frágil, singela e bonita. Nossa conversa, sempre nas rápidas manhãs, varia entre as fofocas da vizinhança e as contas que nunca se pagam. Quando não a encontro na cozinha, está rezando o terço em seu cantinho de mil santos e promessas. É vó-solteira e carrega a responsabilidade de governanta nas costas, fazendo dos afazeres do dia-a-dia, um ocupar contínuo, como um cachorro que tenta em vão morder o próprio rabo.
Já a do meio, vive assombrada pelas seqüelas do destino. Enclausurou-se com suas fobias de gente e assumiu, instintivamente, o papel da lei nesta terra de ninguém. Decide a ordem dos armários, a função das coisas e as marcas que todos irão usar; uma espécie de general sem soldados. Ainda ecoam pelo corredor suas gargalhadas de mulher moça, recém chegada da farra, em uma época que tinha hormônios de sobra e nenhuma responsabilidade.
Todo colorido da casa é de responsabilidade da menor. Inteligente e faminta, ela rompe o silêncio sem milongas, mostrando sua habilidade com o violão sempre que chega uma visita. Seu riso é gostoso porque guarda uma inocência esquecida pelos adultos revelando seus dentinhos separados de leite. Conhece o pai somente da cintura pra cima, através da única foto que tem, mesmo assim, vive uma esperança diária de vê-lo rompendo pela porta, andando com os pés que ela, a cada sonho, imagina de um jeito.
Engana-se quem as acha diferente. São tão unidas, tão peças do mesmo resta-um, que extrapolam a hierarquia tradicional de família. Se chamam de mãe-vó, filha-mãe, neta-filha, sem se preocupar. Abdicaram também do direito de ter cada uma o seu quarto e amontoam-se no mesmo cubículo, onde disputam canal de tv e discutem as diferenças que três gerações distintas têm. Cansadas, acabam adormecendo feito palitos de fósforo, encostando uma a cabeça na outra, talvez para lembrar, mesmo adormecida, que nunca estão sós.
segunda-feira, 28 de maio de 2007
PREOCUPADO COM FILHINHO
Chegou a criança em casa com bolas, sacos e cestas . Vinha do aniversário da prima onde comeu de batata frita a maçã do amor e – como sempre – pôs tudo pra fora. Sua alimentação cheia de vontades não podia ser considerada modelo. No meio das miniaturas e balas de coco, entre seus pequenos e gordos dedinhos a surpresa: um aquário. Apenas peixinho e pedrinhas, tão encantador quanto sua indisfarçável alegria ao me mostrar o bichinho. Puseram-no em cima do microondas, bem de frente para a mesa de jantar. Logo revi minhas experiências com animais e classifiquei raça – molinésia -, habitat – água corrente e destino: morreria em dois dias. De manhã, mãe e filha correram para contrariar as previsões, trocaram a água do peixe, já batizado de Filhinho, compraram comida, redinha e produtos para tirar o limo, tudo malocado no armário entre as xícaras e sachês da avó. Dedicação homeopática, toda hora uma tarefa diferente, lembrava até as tentativas de salvamento de baleias. Foi a diversão do domingo. Com o corre-corre da semana ninguém teria tempo para bajular o Filhinho, no máximo uma troca d’água de manhã, então ficou sob a responsabilidade da criança o cumprimento do cronograma. E o fez com esmero apesar de seus 4 anos de idade, passaram três dias e o bicho não apresentava o menor indício que iria bater as barbatanas. Na madrugada, após o assalto ao presunto e ao queijo, fui olhá-lo com mais carinho. Era uma boa tê-lo por ali, estava sempre de olhos abertos para qualquer movimento além de ser uma companhia discreta de todas as horas, a água amarela sinalizava que não tinha sido trocada, mas ele não estava nem aí, me olhava tranqüilo pelo vidro, parecia até que estava rindo. Me aproximei e de fato ele ria, só não mostrava os dentes porque não os tinha. Um sorriso despachado de satisfação. No outro dia foi a vez da família rir de mim. Ninguém acreditou. Olhei para ele, na água limpa, e estava totalmente imparcial, fingindo não ser com ele. Enfiei o dedo na água sob protestos afugentando-o para o cantinho e mesmo assim continuava lá com a mesma cara. Fiquei encucado. Será que minha afilhada estava adestrando o peixe? Será que estava doente? Recomendei que trocassem sua água por filtrada, afinal o cloro da CEDAE já tinha feito estrago em estômagos sensíveis, quem sabe não era uma paralisia? Já tinha esquecido do assunto quando cheguei em casa e Filhinho girava como motoqueiro no globo da morte, era tão rápido que a água fazia rodamoinhos de liqüidificador. Foi parando devagar depois que percebeu a luz acesa e ficou no mesmo lugar que estava na primeira noite rindo pra mim. Peixe debochado e maluco, enquanto eu me preocupava com a sua integridade física ele ria de tudo. Catuquei-o de novo com força e dessa vez fui ignorado pela sua pose estática. Pouco mais de dez dias, a novidade já tinha perdido a graça e o peixe havia crescido muito, triplicou de tamanho, nem cabia mais na mãozinha da dona. Sua beiçola também acompanhou o espichamento, agora ficava pendurada. Procurava ignorá-lo, passei dias levando o lanche para o quarto até o dia que fui a cozinha no escuro e ouvi um glub, glub meio estranho. Filhinho estava estrebuchando na água amarelada, se sacudia todo e batia a cabeça no fundo espalhando as pedrinhas... de repente parou. “Caramba, o Filhinho morreu” – pensei. Em consideração à criança, corri para salvá-lo e só depois de muito tempo na água limpa o molinésia voltou a sua inexpressiva normalidade. Mas tinham comprado galão de água filtrada para ele, então não podia ser isso. Só no trabalho atentei para uma resposta, clara e racional. Era a radioatividade do microondas que estava entortando–o e a água amarela era sua decomposição. Coitado dele. Fiz até carinho em suas mini-escamas, devia ter tumores por dentro, o fim estava bem próximo. Passou os dias seguintes em cima da geladeira, recebendo todas as regalias de um condenado. Ainda assim ria bonito, esticando os olhinhos e arreganhando a beiça o quanto podia, mas era só se distrair que ploft ele pulava no chão . Passei a noite equilibrando o PH da água, estando tão indisposto de manhã que faltei todos os compromissos. Bem cedo minha avó prometeu um cházinho para me deixar melhor. E foi daí, após o primeiro gole, que entendi tudo. Nem água, nem adestramento, muito menos radiação, minha afilhada trocou os frascos e enquanto minha avó se enbebedava duas vezes ao dia com chá de plâncton, Filhinho estava viciado em erva cidreira. Esclarecida a confusão agora a preocupação é outra, acho que minha avó anda demorando demais no banho...
quarta-feira, 16 de maio de 2007
HORÁCIO E A VELHA
Aos que pensam na solidão como causa de suicídio e paranóias verão que, desta vez, ela foi conseqüência. Afinal, depois de passar a vida maltratando os seus, a velha finalmente goza de um lar solitário, onde pessoas povoam somente os porta-retratos. Aos poucos, filhos, netos e inquilinos se libertaram das chantagens emocionais e ranhetices da viúva e nunca mais olharam para trás. Se não fosse Horácio, seria certeiro afirmar que o único ser vivo da rua Jaqueira nº 77 era aquela senhora.
Horácio era uma arara comprada com status de papagaio que foi presenteada ainda filhote por um dos muitos cunhados que passaram ali. Tinha uma plumagem vermelha e velha, porém fosca e misturada com outras mais acinzentadas. Seu pescoço era pelado como de um abutre e mancava de uma pata um pouco menor que a outra. A velha, cujo único afeto foi batizá-lo com o possível nome de um filho homem que não veio, o mantinha preso no viveiro pequeno para sua estatura, alimentando-o burocraticamente com semente de girassol. Por vezes misturava outros grãos à ração, divertindo-se com os efeitos colaterais que estes provocavam.
Raros momentos de alegria de uma pessoa atormentada por suas culpas. Era comum encontrar a velha pelos cantos falando sozinha, se punindo com ofensas, muitas vezes se apertando como se travasse uma briga com ela própria.
Certo dia, lavando suas anáguas no tanque, vagava em pensamento sobre suas fugas propositais em pleno dias das mães, quando chegava somente à noite e encontrava as crianças chorando, cagadas e mortas de fome. Queria fazer vista ao marido, que não reconhecia seu trabalho doméstico. Neste mesmo momento de sadismo e culpa, a velha ouve em sua retaguarda uma voz grave, com leve sotaque mineiro, porém facilmente compreendida:
- Tô ligado.
Sem se virar, percebeu que Horácio a fitava, concentrado em seus movimentos. Fingiu não se abalar, estendeu a roupa e entrou na cozinha com o peito pesado, observando-o pela fresta da porta. Em 26 anos de convívio com a ave nunca havia ensinado nada à ela, e muito menos ouvido ela falar. Tinha inclusive falado mal do bicho "imprestável por natureza". Os dias se sucederam assim, freqüentemente a velha era surpreendida pela mesma frase de Horácio, sempre que revolvia seu baú de pensamentos.
Decidida a colocar um ponto final no assunto, a velha enfrentou o bicho e foi surpreendida mais uma vez. Alheio à possível ameaça da dona, Horácio a encarou nos olhos, colando o bico gasto na grade, com uma segurança que a idade lhe deu, fazendo seus olhos multicoloridos vibrarem, como de costume na espécie. A velha teve uma vontade irresistível de matá-lo, mas foi novamente advertida por Horácio.
- Tô ligado. - Disse mais uma vez.
As tempestades de março transformavam os céus naquela época. A viúva, que começou a fechar portas e janelas quando o tempo virava, não via mais motivo para abri-las. Escondeu-se dentro de casa, pois tinha a absoluta certeza de que o papagaio era vidente e enxergava seu pensamentos. Parou de dar comida fazia meses na esperança covarde dele morrer de inanição, mas o via comendo a própria unha do pé. Depois de um dia inteiro de perturbações e culpas, a velha dormia acabada no sofá quando Deus finalmente mostrou um pouco de sua misericórdia. Um dos raios do temporal acertou em cheio o viveiro de Horácio, transformando imediatamente tudo em pó. Mas era tarde demais.
Cada lembrança da velha era ilustrada pelo vôo silencioso de seu papagaio em volta da casa, prestando atenção no que ela pensava e fazia. Neste momento o ranger das portas, o uivo dos ventos, tudo parecia ser Horácio, que a observava no vulto da noite, entre a dobradiça da janela. Seu chacoalhar de asas podia ser ouvido até entre as trovoadas mais fortes e sua pata manca batia nas telhas de amianto junto com os pingos de chuva.
Febril, escondida entre colchas de retalho no escuro, a velha viúva tentava colocar em ordem os pensamentos mas faltava-lhe lucidez. Estava mesmo disposta a se livrar de onde Horácio pudesse estar. Começou pelas paredes, tentando derrubá-las com a marreta, porém conseguindo apenas fazer grandes rombos entre os cômodos. Com o espaço, o eco se propagou multiplicando os agouros. Foi aí que ela decidiu dar fim a tudo. Espalhou querosene nos colchões, guarda-roupas, jóias, tudo, e como numa enorme fogueira, viu sua casa crepitando, consumida pelas chamas.
O acontecido chamou a atenção de muita gente da vizinhança que , ao longe, acompanhava a desgraça alheia. Iluminada pelo fogarel, somente com a roupa do corpo, a velha foi tomada de um alívio inédito e não segurou a gargalhada, pois, no fundo, sentiu-se eternamente agradecida a Horácio. Se existia alguma maneira de recomeçar a vida, esta teria que nascer das cinzas.
Horácio era uma arara comprada com status de papagaio que foi presenteada ainda filhote por um dos muitos cunhados que passaram ali. Tinha uma plumagem vermelha e velha, porém fosca e misturada com outras mais acinzentadas. Seu pescoço era pelado como de um abutre e mancava de uma pata um pouco menor que a outra. A velha, cujo único afeto foi batizá-lo com o possível nome de um filho homem que não veio, o mantinha preso no viveiro pequeno para sua estatura, alimentando-o burocraticamente com semente de girassol. Por vezes misturava outros grãos à ração, divertindo-se com os efeitos colaterais que estes provocavam.
Raros momentos de alegria de uma pessoa atormentada por suas culpas. Era comum encontrar a velha pelos cantos falando sozinha, se punindo com ofensas, muitas vezes se apertando como se travasse uma briga com ela própria.
Certo dia, lavando suas anáguas no tanque, vagava em pensamento sobre suas fugas propositais em pleno dias das mães, quando chegava somente à noite e encontrava as crianças chorando, cagadas e mortas de fome. Queria fazer vista ao marido, que não reconhecia seu trabalho doméstico. Neste mesmo momento de sadismo e culpa, a velha ouve em sua retaguarda uma voz grave, com leve sotaque mineiro, porém facilmente compreendida:
- Tô ligado.
Sem se virar, percebeu que Horácio a fitava, concentrado em seus movimentos. Fingiu não se abalar, estendeu a roupa e entrou na cozinha com o peito pesado, observando-o pela fresta da porta. Em 26 anos de convívio com a ave nunca havia ensinado nada à ela, e muito menos ouvido ela falar. Tinha inclusive falado mal do bicho "imprestável por natureza". Os dias se sucederam assim, freqüentemente a velha era surpreendida pela mesma frase de Horácio, sempre que revolvia seu baú de pensamentos.
Decidida a colocar um ponto final no assunto, a velha enfrentou o bicho e foi surpreendida mais uma vez. Alheio à possível ameaça da dona, Horácio a encarou nos olhos, colando o bico gasto na grade, com uma segurança que a idade lhe deu, fazendo seus olhos multicoloridos vibrarem, como de costume na espécie. A velha teve uma vontade irresistível de matá-lo, mas foi novamente advertida por Horácio.
- Tô ligado. - Disse mais uma vez.
As tempestades de março transformavam os céus naquela época. A viúva, que começou a fechar portas e janelas quando o tempo virava, não via mais motivo para abri-las. Escondeu-se dentro de casa, pois tinha a absoluta certeza de que o papagaio era vidente e enxergava seu pensamentos. Parou de dar comida fazia meses na esperança covarde dele morrer de inanição, mas o via comendo a própria unha do pé. Depois de um dia inteiro de perturbações e culpas, a velha dormia acabada no sofá quando Deus finalmente mostrou um pouco de sua misericórdia. Um dos raios do temporal acertou em cheio o viveiro de Horácio, transformando imediatamente tudo em pó. Mas era tarde demais.
Cada lembrança da velha era ilustrada pelo vôo silencioso de seu papagaio em volta da casa, prestando atenção no que ela pensava e fazia. Neste momento o ranger das portas, o uivo dos ventos, tudo parecia ser Horácio, que a observava no vulto da noite, entre a dobradiça da janela. Seu chacoalhar de asas podia ser ouvido até entre as trovoadas mais fortes e sua pata manca batia nas telhas de amianto junto com os pingos de chuva.
Febril, escondida entre colchas de retalho no escuro, a velha viúva tentava colocar em ordem os pensamentos mas faltava-lhe lucidez. Estava mesmo disposta a se livrar de onde Horácio pudesse estar. Começou pelas paredes, tentando derrubá-las com a marreta, porém conseguindo apenas fazer grandes rombos entre os cômodos. Com o espaço, o eco se propagou multiplicando os agouros. Foi aí que ela decidiu dar fim a tudo. Espalhou querosene nos colchões, guarda-roupas, jóias, tudo, e como numa enorme fogueira, viu sua casa crepitando, consumida pelas chamas.
O acontecido chamou a atenção de muita gente da vizinhança que , ao longe, acompanhava a desgraça alheia. Iluminada pelo fogarel, somente com a roupa do corpo, a velha foi tomada de um alívio inédito e não segurou a gargalhada, pois, no fundo, sentiu-se eternamente agradecida a Horácio. Se existia alguma maneira de recomeçar a vida, esta teria que nascer das cinzas.
quinta-feira, 10 de maio de 2007
O MAL PELA RAIZ
“Cadê minha costeletas?”, olhei no espelho tarde demais. O Barbeiro havia arrancado as duas, sem muita cerimônia. Disse algo como acertar o pé e deixou pra lá. Paguei as 10 pratas que o devia e achei justo não cortar mais cabelo ali, nunca mais. Ele também nada fez, continuou sua vidinha normal. Dia após dia passava em frente a sua barbearia, aberta junto com os primeiros raios do dia. Era uma portinhola que mal cabia alguém de frente. De azulejo, fria, escura, com cadeiras antigas, alguns calendários passados e jornais de esporte. Frente aos salões de beleza era algo repugnante, que ficava às moscas na maior parte do tempo. Eu passava, assoviava e ele, somente com as sobrancelhas, respondia. Na verdade sempre olhei o cara de rabo de olho, meio sem vontade, mas fui convencido a cortar em um dia com muita chuva e preguiça.
Era uma quarta-feira nublada, com as luzes do poste ainda acesas e depois de um mês de silêncio entre ele e eu que fui surpreendido de manhãzinha, com sua voz, logo após ter passado apressado na frente do estabelecimento.
- Bom dia. Sonhei que você ia ter um dia cabeludo pela frente. Vai com Deus, garoto.
Meu barbeiro nunca foi dado a piadas e pelo seu tom seco, grave e compassado, não me parecia uma simples tirada de palavras. Fiquei cabreiro e tive um dia péssimo, mas sem grandes novidades.
Vendo pelo fato dele nunca mais me cumprimentar, podia dizer que aquele foi um episódio pontual. Porém, passado exato um mês, novamente fui surpreendido, agora por um sorriso com dentes trincados. O arrepio me tomou o corpo e passei a ter medo daquele sujeito careca, de bigode, sem muitos amigos. Algumas viagens pensando nisso tive o insight definitivo: ele só falava comigo quando meu cabelo estava grande. Passei a usar boné na época que a juba começava a aparecer mas sempre com uma gracinha discreta, ele se pronunciava.
Nunca fui dado a barbeiros, sempre achei sua figura com navalha e tesoura na mão um tanto quanto assustadora, mas tinha superado isso depois que uma cabelereira de decotes enormes passou a tratar minha capilança, quando adolescente.
Tentando entender o caso me afundei em uma onda maior de pavor depois que descobri, na arquitetura do enorme sobrado da década de 40, com apartamentos e lojas comerciais geminados, a existência de uma passagem interna do seu micro-salão para a loja ao lado, uma funerária. Nunca contei a ninguém mas sempre achei que ele tinha uma pinta de coveiro e agora, tudo passava ter mais sentido: o barbeiro corta cabelo de defunto toda madrugada.
Por isso a loja aberta tão cedo. Por isso o aspecto sujo e sem clientes. Por isso os olhos vermelhos. A imagem dele colocando o presunto sentado na cadeira, iluminado por uma lâmpada fraca de 60w, rindo satisfeito com aquela grana fácil, até hoje não sumiu dos meus pesadelos. Quanto ao meu cabelo a resposta veio a galope, em um dia solitário do outono: ele queria que eu morresse cabeludo.
Pense comigo: 1) Acontece algo comigo, trazem meu corpo pra casa. 2) com o tempo passando a funerária mais próxima fica sendo a melhor opção. 3)contratam a da esquina e como todos estarão em choque, a própria empresa vai ficar responsável por cuidar da minha aparência. 4)É nessa hora que o barbeiro entra.
Seria a glória para quem sabe que enquanto vivo, sou um cliente morto, isto é, que nunca mais pisarei lá. Tentei alternativas como acordar mais cedo e nada adiantou, pois ainda escuro, a portinha dele estava aberta. Tentei raspar a cabeça uma vez mas o cabelo cresce rápido demais. Também tentei dar um pique e correr para não vê-lo mas só chamei mais atenção dos passantes.
Depois de um ano inteiro tenso, que rendeu alterações de humor e calmantes escondidos, ainda vivo sob a vigília implacável do meu barbeiro. Perco boa parte do tempo fazendo caminhos alternativos mas sempre tenho a impressão que, mais cedo ou mais tarde, serei surpreendido por seus agouros, cada vez mais cabeludos.
Era uma quarta-feira nublada, com as luzes do poste ainda acesas e depois de um mês de silêncio entre ele e eu que fui surpreendido de manhãzinha, com sua voz, logo após ter passado apressado na frente do estabelecimento.
- Bom dia. Sonhei que você ia ter um dia cabeludo pela frente. Vai com Deus, garoto.
Meu barbeiro nunca foi dado a piadas e pelo seu tom seco, grave e compassado, não me parecia uma simples tirada de palavras. Fiquei cabreiro e tive um dia péssimo, mas sem grandes novidades.
Vendo pelo fato dele nunca mais me cumprimentar, podia dizer que aquele foi um episódio pontual. Porém, passado exato um mês, novamente fui surpreendido, agora por um sorriso com dentes trincados. O arrepio me tomou o corpo e passei a ter medo daquele sujeito careca, de bigode, sem muitos amigos. Algumas viagens pensando nisso tive o insight definitivo: ele só falava comigo quando meu cabelo estava grande. Passei a usar boné na época que a juba começava a aparecer mas sempre com uma gracinha discreta, ele se pronunciava.
Nunca fui dado a barbeiros, sempre achei sua figura com navalha e tesoura na mão um tanto quanto assustadora, mas tinha superado isso depois que uma cabelereira de decotes enormes passou a tratar minha capilança, quando adolescente.
Tentando entender o caso me afundei em uma onda maior de pavor depois que descobri, na arquitetura do enorme sobrado da década de 40, com apartamentos e lojas comerciais geminados, a existência de uma passagem interna do seu micro-salão para a loja ao lado, uma funerária. Nunca contei a ninguém mas sempre achei que ele tinha uma pinta de coveiro e agora, tudo passava ter mais sentido: o barbeiro corta cabelo de defunto toda madrugada.
Por isso a loja aberta tão cedo. Por isso o aspecto sujo e sem clientes. Por isso os olhos vermelhos. A imagem dele colocando o presunto sentado na cadeira, iluminado por uma lâmpada fraca de 60w, rindo satisfeito com aquela grana fácil, até hoje não sumiu dos meus pesadelos. Quanto ao meu cabelo a resposta veio a galope, em um dia solitário do outono: ele queria que eu morresse cabeludo.
Pense comigo: 1) Acontece algo comigo, trazem meu corpo pra casa. 2) com o tempo passando a funerária mais próxima fica sendo a melhor opção. 3)contratam a da esquina e como todos estarão em choque, a própria empresa vai ficar responsável por cuidar da minha aparência. 4)É nessa hora que o barbeiro entra.
Seria a glória para quem sabe que enquanto vivo, sou um cliente morto, isto é, que nunca mais pisarei lá. Tentei alternativas como acordar mais cedo e nada adiantou, pois ainda escuro, a portinha dele estava aberta. Tentei raspar a cabeça uma vez mas o cabelo cresce rápido demais. Também tentei dar um pique e correr para não vê-lo mas só chamei mais atenção dos passantes.
Depois de um ano inteiro tenso, que rendeu alterações de humor e calmantes escondidos, ainda vivo sob a vigília implacável do meu barbeiro. Perco boa parte do tempo fazendo caminhos alternativos mas sempre tenho a impressão que, mais cedo ou mais tarde, serei surpreendido por seus agouros, cada vez mais cabeludos.
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