terça-feira, 5 de junho de 2007

PAIXÕES DE BOLSO

Adoro dias de sol e frio. O clima somado ao casaco e aos óculos escuros dá um ar soberbo à cidade transformando qualquer Campo Grande em Cidade do Porto. Da janela do coletivo mais decente que consegui pegar, ia admirando as coisas de sempre focando nos locais pré-selecionados pela memória. Cavalinhos pastando no terreno gramado do Cantagalo, patos no laguinho da casinha modesta do Magarça, vila com velhinhos encolhidos na Rio-Santos. Tudo perfeito. Foi me ajeitando para encostar a cabeça no vidro e terminar o sono interrompido de casa que a vi pela primeira vez, bem do meu lado. Tinha entrado em uma das muitas paradas e, era tão discreta, que foi impossível percebê-la chegar. Nunca a tinha visto e, às vezes, me pergunto se realmente ela existiu, pois tudo nela era tão certo, tão harmonioso, que poderia ter sido miragem ou ilusão pelo clima bucólico de outono.

- pode fechar um pouquinho a janela, por favor?

Sou uma daquelas pessoas idiotas que gostam de tomar vento gelado na cara enquanto viajo e nem tinha percebido que incomodava minha colega de poltrona. Pelo menos foi um pretexto para ouvir a voz dela, inédita pra mim. Era uma voz confortável, de timbres afinados e meio incertos, que revelavam sua idade de menina. 22 no máximo. Ela me agradeceu com um sorriso de aeromoça e fuxicou mecanicamente sua pasta transparente. Catou uma apostila, escolheu uma caneta, fechou o estojo quadradinho e começou uma leitura silenciosa. Tentei espichar os olhos no máximo, sem virar o pescoço, para ler. Tentava um fio da meada, algo que pudesse começar uma conversa, algo que eu soubesse falar fluentemente. Fiquei imóvel. Foquei. Foquei mais. Consegui ler: RADIOLOGIA . “Puta que pariu, o que é isso?”. Pensei.

Buscando alternativas, assuntos paralelos, torcendo para o ônibus dar uma freada ou alguém falar uma gracinha, lembrei do calendário universitário e das provas que se aproximavam como nuvens negras. Arrisquei.

- Não vai ter jeito. Agora só colando.

Silêncio. Nem uma risadinha, uma mexida de cabelo. Repeti mais alto com medo de não ter sido ouvido. Nada de resposta. Continuei olhando pra frente, recuperando a marra de europeu daquela manhã e escondendo a vergonha de ser ignorado. Aproveitei a risada de uma gorda feia do lado oposto para olhar rapidamente. Putz, ela estava de fone. Tão alheia a paisagem, aos passageiros, às piadas, ela passeava os olhos clarinhos pela folha, com seu nariz arrebitado vermelho na ponta, revelando a chegada de um resfriado. Poderia passar cinco gerações olhando pra ela mas tive que disfarçar rapidamente quando, abruptamente, tirou o fone, catou na outra bolsa marrom um celular Motorola V3 que tocava. Acho que todas as mulheres gostam desse celular porque parece com um estojo de maquiagem. Elas abrem o aparelho de frente, olham o reflexo no vidrinho e depois atendem o chamado. Muito engraçado. Minha companheira fez igual e falou baixinho com um sorriso sincero, espontâneo, muito incomum numa terça-feira tão cedo. Chamou de amor, falou da prova, mandou beijinho. Já era. Imediatamente senti ciúmes da ligação, fiquei com raiva, me senti traído. Queria reler o email que falava de como os homens se transformavam em canalha. Esse foi feito pra mim. Pensei em ir no West Show, em ligar pra alguém. Achei melhor desencanar.
Lembrei das paixões de bolso que vivi. No cinema, no reflexo das vitrines, no caixa da lanchonete, no cruzamento das ruas, sempre paro meus olhos com outros e vejo meu coração bater apressado. Mesmo sabendo que são efêmeros, mesmo sabendo que tudo começa e termina ali, mesmo sabendo que esquecerei na próxima piscada, deixo ele bater mais feliz. Será que todo mundo já teve, pelo menos uma vez, uma paixão de bolso?Ou isso é mais uma faceta dos românticos metropolitanos?

Fui interrompido pelo encostar leve no meu ombro esquerdo. Com tanta concentração ela acabou dormindo e, sem poder evitar, recostou sua cabeça em mim. Respirei fundo e fiz um leve carinho em sua mão, suficiente para fazê-la acordar. Precisava levantar, descer no meu ponto. Paixões de bolso são assim.

13 comentários:

Líu Brito disse...

Doce, suave e muito romântico. Adorei, especialmente porque já tive, como romântica incurável, algumas paixões de bolso, no ônibus, no teatro, no cinema, enfim. Parabéns, adorei. bjos

Vivianni Patricia disse...

Aru, Show!
Relembrei tantos momentos de bolso. E como é gostoso ter essas sensações, pena que são tão rápidas, algumas perduram uma semana, outras, anos e de vez em quando reaparecem... Amei mesmo.
A superação é inigualável.
Bj.

Anônimo disse...

Massa cara!!! Massa mesmo!!!
Me diverti viajando em cada frase, me identificando com essas "coisas" bem Rio de Janeiro... as paixões de bolso X os fones de ouvido. rsrrs
Me sinto bem vinda ao seu clube!

Isso me lembra uma senhora que conheci no metrô que reclamava das pessoas de fone no ouvido. "A gente passa o dia na rua, convivendo com pessoas que se isolam nos seus mundos com fone de ouvido e deixam de viver o que realmente interessa: o contato com o próximo", disse ela.

Putz que verdade!!!!
Parabéns por captar esse lance tão bem.
bjão.

Juliana Viana disse...

Paixões...todos os dias encontro uma
bjs

Contos de Biscuit disse...

Que coisa linda! Muito fofo!
Eu me arrepiei de emoção qdo ela dormiu no ombro dele, mas no final da história passou um cortador de grama nos pêlos dos meus braços qdo teve que descer do ônibus...
Poxa! Que pena! Mas se não fosse assim, não teria esse título.
Gostei muito!

Contos de Biscuit disse...

Arú, vc pode escrever aqui nesse quadro de comentários?

Anônimo disse...

Muito bom!
Paixões de bolso, gostei do nome.
Parabéns e ótimo feriado pra você!
Beijos

Unknown disse...

haha... paixoes de bolso são ótimas. bjs bjs.

Anônimo disse...

Sensacional!

Unknown disse...

Linda...

Anônimo disse...

Ler uma coisa dessas logo no dia de hoje.. é muito legal!
Enquanto, hoje, eu comemoro uma data tão especial, o Dia do Combate ao trabalho infantil, acabei me pegando a lembrar minhas paixões de bolso!
ahuahuahuahua

Quem nunca teve a sua né?!
Lindo texto...

Da próxima quinta vou tentar mudar meu discurso ok?
Vê se faz um post ruim pow... ahhuahu

Bjusss

cris frança disse...

Amei !!!!
assim....vc é muito fera msmo....
Adorei a parte da radiologia ...rsrs
M senti a propia menina de 22 anos ........rsrsrs...
Como sempre,vc arrazou.....
bjus.........

Anônimo disse...

AMEI!!Bjão Clarissa