crônica publicada no site do CCRJ em 2003. última do ano. Agradeço aos meus amigos que acompanharam o primeiro ano deste blog, os desejo um 2008 bem bacana e espero contar com todos ano que vem. Volto em janeiro!bjs
Estavam os papéis na mesa. Tinham gráficos em disco, barra e coluna ao lado de números cheios de zero e sublinhados de bic. Era o fim de uma agência que tinha dado tantas pequenas alegrias aos seus funcionários. Não eram grandes contas mas sempre pintavam tijolinhos camaradas nos classificados e até um short-list na Semana Internacional de Koala Lampur. Sugeriu-se de tudo – até trabalho voluntário – mas a dona estava decidida a guardar os estiletes e réguas e começar nova vida em outro lugar. Propaganda é isso aí.
Na segunda estariam todos com a pastinha na mão novamente, esbarrando com colegas nas salas de espera, puxando sardinha do amigo que acabou de virar sênior. O problema é que as salas estavam cada vez mais cheias de garotos com gel no cabelo, de brincos e tatuagens, donos de uma autoconfiança intimadora. Ao ligar para os amigos, o velho redator viu que, apesar da crise, cada um se virou como pôde. Atendimento como recepcionista, RTV em festa de 15 anos, diretor de arte fazendo silk-screen, todos com o mesmo discurso “Pelo menos estou trabalhando na área”. Mas ele não estava preocupado com isso e sim para onde iria. Quem quer um redator velho?
Foram 40 anos criando rimas, trocadilhos e joguinhos que agora não servem para nada. Escrever livros não era sua pretensão, ser copy-desk também não, ser digitador muito menos. Aparentemente nada o daria força o suficiente para levantar da cama de manhã e achar que o dia vale a pena.
Para quem passou a vida lidando com problemas insolúveis era constrangedor não resolver o seu. Pensou, pensou, queimou a mufa e o um dia, tomando uma média, surgiu o insight. Pendurou seu gancho coberto de papeizinhos no corrimão do ônibus e deu início ao novo desafio: venderia as palavras. Dentro da sua estratégia, as categorizou como especiais – aquelas que nunca lembramos quando precisamos – e usuais – aquela que não esquecemos até sem querer lembrar. Cada pacote tinha cinco palavras que poderiam ser sortidas ou agrupadas pelo assunto. Por exemplo, a categoria Escritório continha: “Atenciosamente”, “primeiro momento”, “aguarde um minuto” e “estarei verificando”. Já a categoria Amante: “segunda a sexta”, “motel”, “você é muito melhor que ela”.
Mesmo com a idéia original passou o mês sem vender uma palavrinha sequer até que descobriu que era preciso experimentar pois as palavras também têm sabor e só quanto saem da boca temos noção do quanto são gostosas. Deu ao motorista o “pusilânime” para ser usado com os barbeiros no trânsito e ao trocador deu “o cash”, produto importado para renovar seu vocabulário sobre moedas e notas. Entre os passageiros distribuiu “cordialidade”, “compaixão” e “perseverança”. A princípio alguns se negavam a receber mas ele andava com a “insistência” no bolso e foi assim que conseguiu progredir. Vendia “pa-pai” e “ma-mãe” nas creches, faturando uma nota com os bebês além das encomendas de “vai”, “assim”,” rápido” e “tô gozando” que as prostitutas faziam. Seu faturamento estava indo tão bem que doou “dignidade” aos mendigos e “fiiu-fiiuu” a mulher feia. “Esperança”, “amor”, saúde” e “paz” por mais que fossem fáceis de encontrar sempre tinha alguém precisando... Topou o desafio e melhorou a qualidade do produto. Produziu “pôr-do-sol” para os que não enxergavam e “folhas no vento” para os que não ouviam e se viu multinacional quando um inglês encomendou “o calor das praias e das mulatas cariocas” via sedex. Logo descobriu a concorrência e se apaixonou por ela. Fizeram uma sociedade com seus corações e completaram suas reticências. Ela vendia verbos, artigos e preposições, ele palavras. Surgiram no mercado “olhos brilhando”. “fascinado por ti”, “nunca te esquecerei” e outras tão meladas que só podiam ser vendidas se embaladas em papel filme.
Esse ano o casal promete estar em Copacabana, vendendo “adeus ano-velho, feliz ano-novo”, “esse ano vou parar de fumar” e “meu regime começa na segunda”, mas de antemão deixou a quem interessar uma cortesia para 2004:
“Sucesso”, “sucesso”, “sucesso”, “sucesso”, “sucesso”, “sucesso”, “sucesso”, “sucesso”,
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quarta-feira, 19 de dezembro de 2007
quinta-feira, 13 de dezembro de 2007
FÉ DE ANINHA
Com 32 anos, valia a pena apelar, acreditar, despachar, rezar, orar, ou seja lá o que for preciso para ser mãe. Foi um ano cumprindo rituais, visitando cartomantes, participando de correntes positivas e mais um final de ano frustrante chegou sem notícias boas para Aninha. Tadinha. Vivia só num sobrado e apesar de saber que seu sobrenome Souza nunca sumiria da terra, queria perpetuar o da família. Mas nunca pensou que era tão difícil ser comida, abusada, bagunçada por um cara legal. Queria apenas que fosse alguém digno para seu futuro pimpolho se orgulhar, alguém fotogênico suficiente para ficar num porta-retrato em cima da estante. “Com A?... Aviador, Astronauta. B? pode ser bicheiro mesmo. C? Caixa de banco, corista, carteiro, cozinheiro, corredor, cigano, caralho, o que não falta é homem...”. Investiu o esperado décimo terceiro salário na sua fé em bibelôs e presentinhos coloridos que valorizavam sua esperança, também pôs em jogo a aliança de ouro da falecida avó, a peça mais valiosa do seu tesouro de chapeados; desta vez Yemanjá não teria desculpas. Também deu um jeito no cabelo, catucou as cutículas, foi ao ginecologista - que era casado - e verificou seu problema de inflamação, um corrimento natural. Tudo OK.
Quando os primeiros filetes de rojão romperam no céu, Aninha pulou sete ondinhas, comeu lentilha, pitou cachimbo, jogou sal pra trás, rezou para São Judas Tadeu, Maria desatadora dos Nós e Santo Antônio, ofereceu flores, molhou a testa, energizou o Karma, escreveu na areia, tocou sininho, bebeu champagne, , só faltava a embarcação para Yemanjá. Era tão grande e enfeitada que seus espelhos e perfumes da Avon refletiam a metros de distância como um globo de discoteca. Nem havia molhado seu casco por completo quando a primeira onda já arremessou a oferenda de volta. Ajeitou com carinho as alegorias e teve que molhar o joelho para dar partida ao Cruzeiro da esperança. Mas ele voltou. Recolhidos seus trintetantos itens, foi novamente posto em serviço. Aninha se virou sem dar uma olhadinha, mas o menino a alertou “Tia, posso ficar com esse seu brinquedo?” Tomou coragem, encarou a maré até a cintura e teria conseguido se não fosse a onda recheada de palmas que ela jura até hoje ter pedacinhos agarrados na garganta. Andou com seu ebó procurando um lugar mais calmo quando enfim alguém apontou a alma caridosa que levava os agrados até a escuridão do mar. Entrou na fila e viu satisfeita quando seu presente caprichado se esvaiu no horizonte. Que alma caridosa. Que homem bom. Opa! Aninha se viu vermelhinha quando o mar descobriu os cabelos loiros do moço e seus olhos verdes apontavam para ela.
(...”É ele. Meu deus, igualzinho eu pensava. Que cabeleira linda. Deve ser turista pagando promessa. Imagina meu filho, todo ano indo passar férias com o pai na Europa, falando igual gringo ...”)
Ele vinha submergindo devagar, em passos pequenos e sorriso contido. Gritou ainda longe algo como “o próximo” e no instante seguinte, se benzeu. Estava de blusa azul bem clara, agora transparente pela água.
(...Que nada, brasileiríssimo e temente a Deus. Quem sabe já esbarramos na Catedral de Aparecida? Olha que sorriso bonito, gente, deve ser dentista. Vai dar para consertar o pivô de graça e tudo.”)
Pouco mais perto, já dava para notar a ausência do molar e de qualquer postura profissional . Mas mostrou-se disposto, com o corpo riscado por músculos bem feitos.
( Descobri! Ele é militar! Obrigado Yemanjá, não precisava ser tão gostoso. Paraquedista, piloto, marinheiro, macho... Sempre sonhei passar a farda do meu filho).
Ele vinha na direção de Aninha, que fez uma moldurinha improvisada com a mão para imaginar como ficaria bonito lá na sala. Pediu um trago do cigarro do amigo, baforejou para o alto contra os últimos fogos que refletiram seu bigode bem aparado.
(Deve ser caminhoneiro. Tá no jeitão dele. Vai chegar meu filho pela porta e eu aflita, depois de esperar meses, vou preparar aquele almoço... Olha a tatuagem dele. Pode ser também que seja motoqueiro. Essa é boa. Jaquetão e pé na estrada).
Estava bem perto agora, a menos de 5 metros, com medalhão no pescoço e pulseira. Ele vinha falar com ela.
(Ai, meu Deus, tô nervosa. Que ele seja pelo menos um polícial direito ou um pagodeiro em ascensão...)
- Ficou satisfeita, Dona?
- Ainda não... desculpe. Fiquei, obrigada.
- O que você pediu no despacho?
- Um filho.
- Isso a gente resolve né? Brincadeira. Não quis faltar o respeito. Mas quando quiser alguma coisa, eu tô por aqui.
- Como eu te acho?
- Fácil. Sou o catador de latinha oficial da praia, com colete e tudo.
- É,... Muito honrado né?. Hoje está de folga?
- Não, tô de freelancer. Sou uma espécie de tesoureiro de Yemanjá...
Ainda na condução, triste por ver mais uma conquista naufragar, lembrou do seu cheiro, do corpo, dos olhos verdes e aquele último sorriso de lado antes de pular novamente na água. Certamente da próxima vez que o visse, estaria ainda mais bonito, com um pivô de ouro no lugar da janelinha, no quilate exato da aliança da avozinha de aninha.
Quando os primeiros filetes de rojão romperam no céu, Aninha pulou sete ondinhas, comeu lentilha, pitou cachimbo, jogou sal pra trás, rezou para São Judas Tadeu, Maria desatadora dos Nós e Santo Antônio, ofereceu flores, molhou a testa, energizou o Karma, escreveu na areia, tocou sininho, bebeu champagne, , só faltava a embarcação para Yemanjá. Era tão grande e enfeitada que seus espelhos e perfumes da Avon refletiam a metros de distância como um globo de discoteca. Nem havia molhado seu casco por completo quando a primeira onda já arremessou a oferenda de volta. Ajeitou com carinho as alegorias e teve que molhar o joelho para dar partida ao Cruzeiro da esperança. Mas ele voltou. Recolhidos seus trintetantos itens, foi novamente posto em serviço. Aninha se virou sem dar uma olhadinha, mas o menino a alertou “Tia, posso ficar com esse seu brinquedo?” Tomou coragem, encarou a maré até a cintura e teria conseguido se não fosse a onda recheada de palmas que ela jura até hoje ter pedacinhos agarrados na garganta. Andou com seu ebó procurando um lugar mais calmo quando enfim alguém apontou a alma caridosa que levava os agrados até a escuridão do mar. Entrou na fila e viu satisfeita quando seu presente caprichado se esvaiu no horizonte. Que alma caridosa. Que homem bom. Opa! Aninha se viu vermelhinha quando o mar descobriu os cabelos loiros do moço e seus olhos verdes apontavam para ela.
(...”É ele. Meu deus, igualzinho eu pensava. Que cabeleira linda. Deve ser turista pagando promessa. Imagina meu filho, todo ano indo passar férias com o pai na Europa, falando igual gringo ...”)
Ele vinha submergindo devagar, em passos pequenos e sorriso contido. Gritou ainda longe algo como “o próximo” e no instante seguinte, se benzeu. Estava de blusa azul bem clara, agora transparente pela água.
(...Que nada, brasileiríssimo e temente a Deus. Quem sabe já esbarramos na Catedral de Aparecida? Olha que sorriso bonito, gente, deve ser dentista. Vai dar para consertar o pivô de graça e tudo.”)
Pouco mais perto, já dava para notar a ausência do molar e de qualquer postura profissional . Mas mostrou-se disposto, com o corpo riscado por músculos bem feitos.
( Descobri! Ele é militar! Obrigado Yemanjá, não precisava ser tão gostoso. Paraquedista, piloto, marinheiro, macho... Sempre sonhei passar a farda do meu filho).
Ele vinha na direção de Aninha, que fez uma moldurinha improvisada com a mão para imaginar como ficaria bonito lá na sala. Pediu um trago do cigarro do amigo, baforejou para o alto contra os últimos fogos que refletiram seu bigode bem aparado.
(Deve ser caminhoneiro. Tá no jeitão dele. Vai chegar meu filho pela porta e eu aflita, depois de esperar meses, vou preparar aquele almoço... Olha a tatuagem dele. Pode ser também que seja motoqueiro. Essa é boa. Jaquetão e pé na estrada).
Estava bem perto agora, a menos de 5 metros, com medalhão no pescoço e pulseira. Ele vinha falar com ela.
(Ai, meu Deus, tô nervosa. Que ele seja pelo menos um polícial direito ou um pagodeiro em ascensão...)
- Ficou satisfeita, Dona?
- Ainda não... desculpe. Fiquei, obrigada.
- O que você pediu no despacho?
- Um filho.
- Isso a gente resolve né? Brincadeira. Não quis faltar o respeito. Mas quando quiser alguma coisa, eu tô por aqui.
- Como eu te acho?
- Fácil. Sou o catador de latinha oficial da praia, com colete e tudo.
- É,... Muito honrado né?. Hoje está de folga?
- Não, tô de freelancer. Sou uma espécie de tesoureiro de Yemanjá...
Ainda na condução, triste por ver mais uma conquista naufragar, lembrou do seu cheiro, do corpo, dos olhos verdes e aquele último sorriso de lado antes de pular novamente na água. Certamente da próxima vez que o visse, estaria ainda mais bonito, com um pivô de ouro no lugar da janelinha, no quilate exato da aliança da avozinha de aninha.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2007
O ABANDONO DA MULHER QUE NUNCA TIVE
Foi no dia que a nostalgia me acordou com sussurros abafados pelo travesseiro que eu pensei nela. Sob a desculpa de ter encontrado a simetria que formava a primeira letra do seu nome nas estrelas de papel coladas no teto do quarto, me permiti desvirar o porta-retrato do coração para descobrir nós dois em um único sorriso cercados de uma paisagem qualquer. Poderia ser no primeiro chopp da minha vida ou assistindo o despretensioso filme francês de uma quinta-feira úmida. Não importa. O que estivesse projetado atrás de nós seria apenas uma justificativa, um cenário projetado em croma que escondia nosso orgulho azul de mostrar as verdadeiras cores de uma saudade sazonal. Ora desaparecia, ora invadia.
Ainda no meu casulo de escuridão, sem mexer as pupilas, revirei quinquilharias em mochilas e armários na necessidade de tangibilizar sua pontual presença na minha vida, mas nada restou, apenas algumas impessoais notas fiscais. Todo aquele sentimento, que pelo menos neste momento de abandono de si, eu considerava o mais valioso da minha breve história de amante, estava sob a vigilância das traças do esquecimento que já começaram a roer as datas e nomes. O contrário de sua imagem. Esta será imaculada, carimbada e catalogada nos arquivos da eternidade particular, mesmo que só retorne a ser protagonista quanto Deus me sentar na cadeira dos réus e passar toda minha história em seu cineminha particular. Caso estejamos juntos Ele irá gostar de ver nosso último encontro pois, mesmo contrário aos seus princípios – que criou o sexo com a única função de reprodução, o todo-poderoso se renderá a engenhosidade do ser humano de recriar objetos, atos e emoções, a ponto de transformar gemidos e suor em prova constante de amor. Mais que uma parceira de cama, que perde a validade quanto o dia vem, ela foi cúmplice e adversária, alternando seus coringas feitos de sorrisos, ironias e afetos, jogados numa cama apertada abaixo da janela que emoldurava uma favela carioca na plenitude de sua beleza noturna. Assim como nesta noite que aperta minha jugular sem piedade, eu também abri os olhos quando dormíamos e tentei em vão ler os recados de seu quadro desorganizado logo em frente, e deveria ter entendido ali a minha proporção minúscula no seu destino, pois no mar de papeizinhos coloridos não havia qualquer citação sobre mim. Burro que fui, no êxtase provocado pela imagem mais bonita que já vi na vida – uma mulher nua adormecida em meu peito, não fui capaz de entender que seu ressonar não eram espasmos de euforia pela conquista e sim suspiros do dever cumprido.
Foram quatro estações, um punhado de encontros, algumas dezenas de beijos e um, ou no máximo dois orgasmos, porém a distância tornava cada oportunidade de estar junto em algo inédito que devorávamos com a mesma ansiedade e lamento das últimas pipocas da tigela. A cada vez que me despedia sabia o quanto eu demoraria a vê-la mesmo tendo celebrado horas atrás uma cumplicidade gritante. Na minha intimidade eu fingia entender seu labirinto sentimental e conseguia conviver em silêncio, batendo cabeça em suas paredes até que uma coincidência ao dobrar na esquina ou esbarrar no bloco nos faria achar o rumo novamente. Foi lá, entre seus corredores intermináveis, que escondi um homem que não sou mais. Com ela, só com ela, morava a minha última esperança de voltar a ser alguém apaixonado e correto, que freqüentava roda de amigos e casa de parentes, passando finais de semana redescobrindo programas de TV, pratos de comida e novas marquinhas na pele, numa paz interior que só quem encontrou o amor da sua vida é capaz de ter.
Sem a companhia das estrelinhas de papel fluorescentes que se renderam ao noturno da casa, corri com as mãos o entorno da TV até achar o celular que iluminou meu rosto amassado e revelou, no fichário virtual, seu último eco numa mensagem escrita sem emoção. “Seja feliz com ele”.Respondi.
Ainda no meu casulo de escuridão, sem mexer as pupilas, revirei quinquilharias em mochilas e armários na necessidade de tangibilizar sua pontual presença na minha vida, mas nada restou, apenas algumas impessoais notas fiscais. Todo aquele sentimento, que pelo menos neste momento de abandono de si, eu considerava o mais valioso da minha breve história de amante, estava sob a vigilância das traças do esquecimento que já começaram a roer as datas e nomes. O contrário de sua imagem. Esta será imaculada, carimbada e catalogada nos arquivos da eternidade particular, mesmo que só retorne a ser protagonista quanto Deus me sentar na cadeira dos réus e passar toda minha história em seu cineminha particular. Caso estejamos juntos Ele irá gostar de ver nosso último encontro pois, mesmo contrário aos seus princípios – que criou o sexo com a única função de reprodução, o todo-poderoso se renderá a engenhosidade do ser humano de recriar objetos, atos e emoções, a ponto de transformar gemidos e suor em prova constante de amor. Mais que uma parceira de cama, que perde a validade quanto o dia vem, ela foi cúmplice e adversária, alternando seus coringas feitos de sorrisos, ironias e afetos, jogados numa cama apertada abaixo da janela que emoldurava uma favela carioca na plenitude de sua beleza noturna. Assim como nesta noite que aperta minha jugular sem piedade, eu também abri os olhos quando dormíamos e tentei em vão ler os recados de seu quadro desorganizado logo em frente, e deveria ter entendido ali a minha proporção minúscula no seu destino, pois no mar de papeizinhos coloridos não havia qualquer citação sobre mim. Burro que fui, no êxtase provocado pela imagem mais bonita que já vi na vida – uma mulher nua adormecida em meu peito, não fui capaz de entender que seu ressonar não eram espasmos de euforia pela conquista e sim suspiros do dever cumprido.
Foram quatro estações, um punhado de encontros, algumas dezenas de beijos e um, ou no máximo dois orgasmos, porém a distância tornava cada oportunidade de estar junto em algo inédito que devorávamos com a mesma ansiedade e lamento das últimas pipocas da tigela. A cada vez que me despedia sabia o quanto eu demoraria a vê-la mesmo tendo celebrado horas atrás uma cumplicidade gritante. Na minha intimidade eu fingia entender seu labirinto sentimental e conseguia conviver em silêncio, batendo cabeça em suas paredes até que uma coincidência ao dobrar na esquina ou esbarrar no bloco nos faria achar o rumo novamente. Foi lá, entre seus corredores intermináveis, que escondi um homem que não sou mais. Com ela, só com ela, morava a minha última esperança de voltar a ser alguém apaixonado e correto, que freqüentava roda de amigos e casa de parentes, passando finais de semana redescobrindo programas de TV, pratos de comida e novas marquinhas na pele, numa paz interior que só quem encontrou o amor da sua vida é capaz de ter.
Sem a companhia das estrelinhas de papel fluorescentes que se renderam ao noturno da casa, corri com as mãos o entorno da TV até achar o celular que iluminou meu rosto amassado e revelou, no fichário virtual, seu último eco numa mensagem escrita sem emoção. “Seja feliz com ele”.Respondi.
quinta-feira, 29 de novembro de 2007
DIAS CASUAIS
Encontro não marcado também pode acontecer
Janela do destino que se abre com o vento dos temporais.
Foi bom te conhecer.
Ligações de madrugada nem sempre são tão más
Se tiverem acompanhadas por saudade disfarçada de preocupação.
Vamos dormir em paz.
Reconto minhas histórias, troco palavras de lugar
Ponho aspas nas mentiras pra não te ferir, só pra te poupar.
Meu passado é de ninguém.
Que os dias que nos restam sejam sempre casuais
de carinhos mais sinceros, momentos divertidos e conquistas pontuais.
Isso sim é amor...
Sentir. É mais que uma aposta.
Não é dizer só que gosta.
Sentir, é outra parada.
É saber que para ser feliz é preciso ter você e mais nada.
Janela do destino que se abre com o vento dos temporais.
Foi bom te conhecer.
Ligações de madrugada nem sempre são tão más
Se tiverem acompanhadas por saudade disfarçada de preocupação.
Vamos dormir em paz.
Reconto minhas histórias, troco palavras de lugar
Ponho aspas nas mentiras pra não te ferir, só pra te poupar.
Meu passado é de ninguém.
Que os dias que nos restam sejam sempre casuais
de carinhos mais sinceros, momentos divertidos e conquistas pontuais.
Isso sim é amor...
Sentir. É mais que uma aposta.
Não é dizer só que gosta.
Sentir, é outra parada.
É saber que para ser feliz é preciso ter você e mais nada.
quinta-feira, 22 de novembro de 2007
ALMA DE SUNGA
Péssima idéia não ter bebido nada antes de começar. Agora estou aqui, fugindo dos olhos que me fuzilam, me cobram a responsabilidade de estar à frente destes cavaleiros que esperam a ordem para atacar. O tempo que demoram para afinar suas armas é interminável, irritante e preciso conter a ansiedade afinal, hoje, como todos os dias, enfrento o mundo com a voz e uma pandeirola na mão.
O silêncio que antecede nossa primeira música parece alagar o espaço, umedecendo as costas e as mãos, e, assim como na infância, fecho os olhos e fico de costas para este mar, aguardando o golpe misericordioso da onda fresca e sonora que irá me jogar sem rumo na direção do público que assiste. Tec.Tec.Tec. É o som que mais gosto de ouvir ultimamente. Quando lá detrás Xande dá a ordem para começar, estalando suas baquetas, meu coração se precipita, entra no ritmo, dando a pista de como meu organismo deve funcionar pelas próximas horas. Penso “agora fudeu”.
Canto as primeiras palavras no microfone, repetindo mecanicamente as sílabas para, na intimidade, experimentar o próprio som da minha voz pela primeira vez na noite, repetida e potencializada, e me sinto como uma criança recém-nascida assustada ao ouvir seu próprio choro cheio de fôlego. Neste momento que aguardo a chegada daquele sujeito que fuma, com o rosto escondido na sombra do chapéu, que me chamará a sua mesa e dirá em alto e bom som para todos que sou uma farsa e minhas habilidades vocais se limitam a variações nasais de pato no cio. Só assim sairia das costas esta responsabilidade, mais pesada que a caixa de retorno e de voz, que carregamos entre resmungos e acusações de comodismo a cada show. Enquanto o homem não vem, sinalizo em gesto de jogador de futebol americano, por trás do corpo, longe dos olhares curiosos, meu descontentamento com a regulagem do reverbe, do delay, do ganho, ou de qualquer outra coisa que um dia destes aprendi o nome.
A neurastemia continua, e se mexe um botão de um lado, se vira a caixa de outro, no incômodo de pacientes na sala de espera, que dura até as primeiras palmas. A partir delas me vendo barato ao público, que oferece sorrisos a este stripper que precisa despir toda sua timidez sob luzes e lentes deixando a alma exposta, de sunga.
Nem nos dias adolescentes de verão que abdiquei de amigas cheias de espinha e tesão para ficar trancado com o violão e algumas folhas cifradas no quarto, cheguei a sonhar em ser vocalista de uma banda, no entanto, hoje acho difícil viver sem ela. Sinto saudade destes cinco estranhos que invadem minha varanda para guardar os instrumentos, que me tiram do colo perfumado de uma mulher tatuada para encarar ensaios domingueiros numa casa que o teto cospe poeira avisando que está prestes a cair. Possivelmente se não tivéssemos tal compromisso entraríamos todos em algum elevador da vida e nem lembraríamos da gentileza de desejar um bom-dia na saída, tamanha é a nossa diferença de personalidade, porém, o único fio de lã que nos conduz ao mesmo objetivo transforma bárbaros de instrumento na mão em lordes corteses que esperam a entrada de um solo, a virada de uma bateria.
Estamos perto do fim do set e me sinto levemente embriagado com o coquetel de holofotes e acordes. O público, sempre impassível antes das primeiras garrafas de cerveja, teve mesmo tardia, uma reação espontânea e animada. Depois de tantas brigas, de tanta disputa entre MPB, rock dos anos 80 e a pauleira hard core, entendi, mais uma vez que diversidade enriquece e a unanimidade emburrece. Fizemos um som digno, criativo, particular, e respondemos a expectativa de uma estréia que faz o estômago roncar de vontade. Agradeço, apresento a todos, digo o meu nome rapidamente e os deixo finalmente se deliciar com as harmonias antes de devolver o silêncio que pegamos emprestado no início da noite. Mas ainda de costas ouço seus cochichos e uma nova canção começa. Sem uma palavra a banda diz “Aru não pára não”.
O silêncio que antecede nossa primeira música parece alagar o espaço, umedecendo as costas e as mãos, e, assim como na infância, fecho os olhos e fico de costas para este mar, aguardando o golpe misericordioso da onda fresca e sonora que irá me jogar sem rumo na direção do público que assiste. Tec.Tec.Tec. É o som que mais gosto de ouvir ultimamente. Quando lá detrás Xande dá a ordem para começar, estalando suas baquetas, meu coração se precipita, entra no ritmo, dando a pista de como meu organismo deve funcionar pelas próximas horas. Penso “agora fudeu”.
Canto as primeiras palavras no microfone, repetindo mecanicamente as sílabas para, na intimidade, experimentar o próprio som da minha voz pela primeira vez na noite, repetida e potencializada, e me sinto como uma criança recém-nascida assustada ao ouvir seu próprio choro cheio de fôlego. Neste momento que aguardo a chegada daquele sujeito que fuma, com o rosto escondido na sombra do chapéu, que me chamará a sua mesa e dirá em alto e bom som para todos que sou uma farsa e minhas habilidades vocais se limitam a variações nasais de pato no cio. Só assim sairia das costas esta responsabilidade, mais pesada que a caixa de retorno e de voz, que carregamos entre resmungos e acusações de comodismo a cada show. Enquanto o homem não vem, sinalizo em gesto de jogador de futebol americano, por trás do corpo, longe dos olhares curiosos, meu descontentamento com a regulagem do reverbe, do delay, do ganho, ou de qualquer outra coisa que um dia destes aprendi o nome.
A neurastemia continua, e se mexe um botão de um lado, se vira a caixa de outro, no incômodo de pacientes na sala de espera, que dura até as primeiras palmas. A partir delas me vendo barato ao público, que oferece sorrisos a este stripper que precisa despir toda sua timidez sob luzes e lentes deixando a alma exposta, de sunga.
Nem nos dias adolescentes de verão que abdiquei de amigas cheias de espinha e tesão para ficar trancado com o violão e algumas folhas cifradas no quarto, cheguei a sonhar em ser vocalista de uma banda, no entanto, hoje acho difícil viver sem ela. Sinto saudade destes cinco estranhos que invadem minha varanda para guardar os instrumentos, que me tiram do colo perfumado de uma mulher tatuada para encarar ensaios domingueiros numa casa que o teto cospe poeira avisando que está prestes a cair. Possivelmente se não tivéssemos tal compromisso entraríamos todos em algum elevador da vida e nem lembraríamos da gentileza de desejar um bom-dia na saída, tamanha é a nossa diferença de personalidade, porém, o único fio de lã que nos conduz ao mesmo objetivo transforma bárbaros de instrumento na mão em lordes corteses que esperam a entrada de um solo, a virada de uma bateria.
Estamos perto do fim do set e me sinto levemente embriagado com o coquetel de holofotes e acordes. O público, sempre impassível antes das primeiras garrafas de cerveja, teve mesmo tardia, uma reação espontânea e animada. Depois de tantas brigas, de tanta disputa entre MPB, rock dos anos 80 e a pauleira hard core, entendi, mais uma vez que diversidade enriquece e a unanimidade emburrece. Fizemos um som digno, criativo, particular, e respondemos a expectativa de uma estréia que faz o estômago roncar de vontade. Agradeço, apresento a todos, digo o meu nome rapidamente e os deixo finalmente se deliciar com as harmonias antes de devolver o silêncio que pegamos emprestado no início da noite. Mas ainda de costas ouço seus cochichos e uma nova canção começa. Sem uma palavra a banda diz “Aru não pára não”.
quinta-feira, 8 de novembro de 2007
CAIXINHA DE SURPRESAS
Por Héllen Dutra
Sábado à noite, iluminado pelo pratear da lua cheia no céu, convidativo ao prazer. Dá aquela vontade de sair, tomar um chopp, reunir os amigos, dançar a noite inteira, fazer qualquer coisa que permita sentir o pulsar da vida. Com o controle remoto, rodeio canal a canal da tv aberta, da tv fechada, a diferença é nenhuma, em todos eles a programação é a mesma. Passo por filmes que parecem bons, apesar de estarem sempre pela metade, novelas que não se acompanham durante a semana, mas que é possível compreender a trama assistindo a um único capítulo, e programas trash, do tipo mais Silvio Santos, impossível. É, parece que será mais um sábado perdido. Eis que acende o celular e faz aquele barulhinho delicioso. (Só quem já perdeu sábados inteiros compartilha do prazer deste momento) Oba! É convite, alguém lembrou de mim e antes mesmo de atender eu já vou correndo trocar de roupa, passar a maquiagem, encontrar a chave do carro, contabilizar a micharia que me resta para diversão... ao abrir o aparelho, a constatação de que se trata de uma mensagem e não de uma ligação, anuncia um possível desapontamento, que não demora para que se comprove. Vamos à praia amanhã? Bj Jane. Maneiro, vamos sim, mas e hoje, não vamos fazer nada? Escrevo imediatamente. A resposta demora a chegar. Ficar olhando aquele aparelhinho mudo, esperando o bendito sinal da resposta, enlouquece qualquer pessoa. Amiga, hoje tenho uma festa de família, não vai dar, mas amanhã tá de pé?
Existe alguma coisa mais terrível do que o quase? Acontecer ou não acontecer, tudo bem, mas quase acontecer é terrível, deixa um travo de decepção amargando na boca e na alma. Aproveito a caixa de entrada em aberto e apertando a tecla do celular, começo a reler as mensagens antigas.“Compra sim, depois te dou o dinheiro”; “Tá em casa? Não consigo te ligar”; “Saudades”, “Vamos sim... quando chegar, te ligo”. “Ontem foi d+, precisamos repetir em breve...” É impressionante como cada mensagem traz, com uma força quase que violenta, momentos cotidianos que por vezes até nos esquecemos de que existiram. Como por exemplo, aquele show do monobloco que, aliás, foi divertidíssimo e movimentou celulares por pelos menos três dias consecutivos: o anterior, prefigurando a organização e a compra dos ingressos – “vamos quebrar tudo no monobloco?”, “eu compro, depois tu me dá”, “te pego às 23 h.”; o dia propriamente dito, – “Caralho, ta aonde? To cansado de te esperar”, “To passando na tua rua” –; e o depois – “Agüentou ir pra pós?”
Pois é, eu não tinha me dado conta de como este aparelhinho podia guardar em sua memória eletrônica tanta história de vida: a frieza da tecnologia a serviço das calorosas relações de amizade e de amor. (O que o filósofo da pós-modernidade, Bauman, acharia disso?) Os torpedos se alicerçam num pacto cúmplice onde a presença e a ausência da palavra é fundamental, pois no espaço intervalar entre o que está escrito e a lacuna que se cria no silêncio das intenções que só os correspondentes entendem, existe um imenso universo de sensações individuais, que ficam no escrito e no que ficou por dizer. Basta ler “pegar o 260 e soltar na C&A.”, para lembrar daquele domingo chuvoso no Méier com a Janaína que foi engraçadíssimo; ou ainda ler “põe o vinho pra gelar!”, (seguindo de uma carinha de animação) para lembrar do coração apertado, ansioso pra contar um segredo para o Ralph. E apenas um “saiu”, vago e reticente, enviado pela amiga no meio do expediente, é capaz de te fazer dar saltos de alegria. Poxa! É aquela promoção que ela tanto esperava... saiu... e ela quis dividir este momento único comigo. Me impressiono com o quanto de intimidade estes pequenos escritos escondem.
Fico a pensar em como os amigos se entendem perfeitamente, em como as palavras são insuficientes para expressar momentos, em como o vazio é significativo, em como é bom ter vivido problemas, pois eles nos dão a possibilidade de receber verdadeiras declarações de amor em ônibus, na sala de aula, no mercado, em qualquer lugar, que se tenha um celular com créditos. Ler um “to do seu lado, te ajudo a vender bala no trem”, enviado pelo Aru, no momento de desespero em que se jogou o mestrado pro alto, acalma o coração; assim como ler um “vamos pra Lapa hoje?”, anima a noite porvir; ou ainda um simples “eu te amo”, da irmã que acaba de compartilhar com você a comprar de seu primeiro carro, pode te fazer disfarçar as lágrimas em pleno calçadão de Madureira. E ainda quantas lembranças amorosas guardam o verbo “cheguei”, enviado de madrugada para o amante? Como um mosaico, a caixinha de entrada do celular é capaz de contar o mais essencial da vida de cada um de nós, guardada nesta memória que ninguém duvida que seja quase humana.
Sábado à noite, iluminado pelo pratear da lua cheia no céu, convidativo ao prazer. Dá aquela vontade de sair, tomar um chopp, reunir os amigos, dançar a noite inteira, fazer qualquer coisa que permita sentir o pulsar da vida. Com o controle remoto, rodeio canal a canal da tv aberta, da tv fechada, a diferença é nenhuma, em todos eles a programação é a mesma. Passo por filmes que parecem bons, apesar de estarem sempre pela metade, novelas que não se acompanham durante a semana, mas que é possível compreender a trama assistindo a um único capítulo, e programas trash, do tipo mais Silvio Santos, impossível. É, parece que será mais um sábado perdido. Eis que acende o celular e faz aquele barulhinho delicioso. (Só quem já perdeu sábados inteiros compartilha do prazer deste momento) Oba! É convite, alguém lembrou de mim e antes mesmo de atender eu já vou correndo trocar de roupa, passar a maquiagem, encontrar a chave do carro, contabilizar a micharia que me resta para diversão... ao abrir o aparelho, a constatação de que se trata de uma mensagem e não de uma ligação, anuncia um possível desapontamento, que não demora para que se comprove. Vamos à praia amanhã? Bj Jane. Maneiro, vamos sim, mas e hoje, não vamos fazer nada? Escrevo imediatamente. A resposta demora a chegar. Ficar olhando aquele aparelhinho mudo, esperando o bendito sinal da resposta, enlouquece qualquer pessoa. Amiga, hoje tenho uma festa de família, não vai dar, mas amanhã tá de pé?
Existe alguma coisa mais terrível do que o quase? Acontecer ou não acontecer, tudo bem, mas quase acontecer é terrível, deixa um travo de decepção amargando na boca e na alma. Aproveito a caixa de entrada em aberto e apertando a tecla do celular, começo a reler as mensagens antigas.“Compra sim, depois te dou o dinheiro”; “Tá em casa? Não consigo te ligar”; “Saudades”, “Vamos sim... quando chegar, te ligo”. “Ontem foi d+, precisamos repetir em breve...” É impressionante como cada mensagem traz, com uma força quase que violenta, momentos cotidianos que por vezes até nos esquecemos de que existiram. Como por exemplo, aquele show do monobloco que, aliás, foi divertidíssimo e movimentou celulares por pelos menos três dias consecutivos: o anterior, prefigurando a organização e a compra dos ingressos – “vamos quebrar tudo no monobloco?”, “eu compro, depois tu me dá”, “te pego às 23 h.”; o dia propriamente dito, – “Caralho, ta aonde? To cansado de te esperar”, “To passando na tua rua” –; e o depois – “Agüentou ir pra pós?”
Pois é, eu não tinha me dado conta de como este aparelhinho podia guardar em sua memória eletrônica tanta história de vida: a frieza da tecnologia a serviço das calorosas relações de amizade e de amor. (O que o filósofo da pós-modernidade, Bauman, acharia disso?) Os torpedos se alicerçam num pacto cúmplice onde a presença e a ausência da palavra é fundamental, pois no espaço intervalar entre o que está escrito e a lacuna que se cria no silêncio das intenções que só os correspondentes entendem, existe um imenso universo de sensações individuais, que ficam no escrito e no que ficou por dizer. Basta ler “pegar o 260 e soltar na C&A.”, para lembrar daquele domingo chuvoso no Méier com a Janaína que foi engraçadíssimo; ou ainda ler “põe o vinho pra gelar!”, (seguindo de uma carinha de animação) para lembrar do coração apertado, ansioso pra contar um segredo para o Ralph. E apenas um “saiu”, vago e reticente, enviado pela amiga no meio do expediente, é capaz de te fazer dar saltos de alegria. Poxa! É aquela promoção que ela tanto esperava... saiu... e ela quis dividir este momento único comigo. Me impressiono com o quanto de intimidade estes pequenos escritos escondem.
Fico a pensar em como os amigos se entendem perfeitamente, em como as palavras são insuficientes para expressar momentos, em como o vazio é significativo, em como é bom ter vivido problemas, pois eles nos dão a possibilidade de receber verdadeiras declarações de amor em ônibus, na sala de aula, no mercado, em qualquer lugar, que se tenha um celular com créditos. Ler um “to do seu lado, te ajudo a vender bala no trem”, enviado pelo Aru, no momento de desespero em que se jogou o mestrado pro alto, acalma o coração; assim como ler um “vamos pra Lapa hoje?”, anima a noite porvir; ou ainda um simples “eu te amo”, da irmã que acaba de compartilhar com você a comprar de seu primeiro carro, pode te fazer disfarçar as lágrimas em pleno calçadão de Madureira. E ainda quantas lembranças amorosas guardam o verbo “cheguei”, enviado de madrugada para o amante? Como um mosaico, a caixinha de entrada do celular é capaz de contar o mais essencial da vida de cada um de nós, guardada nesta memória que ninguém duvida que seja quase humana.
quinta-feira, 1 de novembro de 2007
BICUDOS QUE SE BEIJAM
Quando ele disse que não tinham nada a ver, ela chorou porque sabia disso. O signo, os gostos, os valores, com o tempo tudo foi ficando diferente. A única coisa em que combinavam naquela terça-feira de carnaval, era a fantasia de cupido com asas, túnicas e flechas, que ela até desejou que fossem verdadeiras, para que o atingisse sumindo na multidão. Mas era tarde demais para agir, e lá foi ele abraçado à amigos e garrafas. Presa fácil para a diaba que cobrava pedágio de quem passasse. Deu um beijo sarrado nela, que saiu consertando o batom e recontando o vigésimo do dia. Ainda zonza, esbarrou no garçom negão estreante no carnaval depois de anos de celibato. Faziam poucos dias que havia abandonado a vida de seminarista, o que não tirou sua habilidade de tê-las de bandeja. Na verdade, quando encarou o desejo de chifre e rabo, nem teve tempo para se benzer, gostou tanto que ainda terminando a bitoca já avistou a segunda freguesa. Não tardou para ir atrás da enfermeira de shortinho que passeava com suas amigas. A estrutura frágil, de menina rica e protegida, pôde sentir pela primeira vez o tal sangue quente dos negros. Sua brancura imaculada foi explorada como nunca, e o sexo se tornou questão de tempo - mas não com ele. Girou entre os blocos, escolheu o mais bonito dos índios que desfilavam na rua principal e, os últimos minutos da virgindade ficaram na sua cabeça por muito tempo, assim como os grãos de areia embolados entre os cabelos. Não estranhou quando o índio galã saiu para mijar e não voltou pois sabia que ele procuraria outras com mais experiência. Na verdade, sexo fazia parte da sua rotina de gigolô e, aquele dia era o único que não cobrava. O ritmo de trabalho viciou o homem e, mesmo somando carícias, beijos e chupões ainda faltava caçar alguém. O índio a achou quando foi comprar cachaça no quiosque, bêbada, atrás do balcão. A galega, mulher do português, afogava sua frustração de estar trabalhando enquanto o marido se perdia por aí e nem percebeu que era uma desculpa, daquele Deus Tupã, a reclamação sobre a porta do banheiro. Foi empurrada para dentro, derrubando o cesto de papel higiênico e sua postura de mulher casada. Deixou ser explorada até o ponto certo que garantiria a volta dele por muitas vezes. Enquanto isso, foi saciando seus pequenos desejos e, ali mesmo, dez minutos depois, na frente dos clientes, a lusitana agarrou o cabeludo vestido de Tarzan e, com direito a pegadinha no cipó e tudo, o descartou em seguida. Mal sabia o quanto era carente aquele homem, retirado em casa quase todo o ano, vivendo sem qualquer vício urbano, aliás tinha apenas um, o Flamengo era sua maior alegria, tanto que havia andado atrás das jogadoras ninfetas por toda noite. A única a lhe dar bola era a baixinha botafoguense que o surpreendeu na primeira oportunidade, com delicadeza e inteligência. Logo, o escudo rubro negro tatuado no seu peito, beijou a estrela solitária do uniforme, quando se abraçaram pela primeira vez. Namoraram anos, se casaram e o Tarzan Flamenguista, até hoje não sabe que nos únicos segundos em que esteve distante do amor da sua vida para comprar cachorro quente, alguém lhe roubou um beijo, alguém com três vezes mais altura e nem a metade da sua paixão. Um Sujeito magricelo, que combinava com a fantasia de morte, tinha dedos de juntas grossas e carinhos rápidos que deixaram a menina imóvel. Sumiu pela sombra do trio elétrico todo bobo, pois nunca, nos seus 15 anos, havia beijado alguém. A cara maquiada ajudou a disfarçar o excesso de espinha, preencher a falta de barba e esconder seus olhos curiosos e infantis. Mesmo tomando bronca da mãe por ultrapassar o horário marcado, tinha prometido pra ele mesmo que tudo seria diferente do ano passado, quando era muitos centímetros menor. Tomou o caminho de casa pensativo, contando pra si as aventuras e só foi interrompido pelo próprio coração, ao ver os olhinhos molhados de um anjo. Com palavras sinceras a acolheu e recebeu um beijo lento e sôfrego de recompensa. Se distanciou encantado pelo momento, enxotado por ela que queria ficar só. Por mais que tentasse esconder, ainda era uma mulher apaixonada e, só ele a faria feliz, com suas asas desencaixadas e auréola de arame. Enquanto beijava a morte, pensou nele, e jurou ter sentido o gosto da sua boca. Tarde demais para lembranças, já tinha se convencido que a diferença era grande e que os opostos nunca se atraem.
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