domingo, 27 de dezembro de 2009

UMA NOITE SÒBRIO

Hoje acredito que tenha sido o primeiro dia desde a vèspera do natal que náo estou bêbado a esta hora.

A primeira lembrança foi o aviáo descendo no meio de montanhas congeladas das cordilheiras dos andes. Montanhas passando ao lado do aviáo e tudo sacudindo. Me deu uma onda de pavor e me segurei. A tonteira também veio forte. Náo via a pista de pouso, nem vestigio da humanidade. Mas o Chile è assim mesmo, cheio de pegadinhas. De uma hora pra outra, estàvamos pousando na cidade. O bairro que estou è o Bellavista e tem gente de tudo que è tipo. Punks, clubbers, hippies, uma variedade infinita de gente bebendo nas mesinhas do lado de fora, na sombra das árvores. Náo è á toa que no final da avenida tem um zoològico onde vi pela primeira vez uma pantera negra, um urso branco dormindo e uma porrada de bichinho interessante. Ainda um pouco bebado perdi tempo olhando como o canguru è estranho. Cheguei a ficar mal humorado olhando aquela aberraçáo. Como estava fora do normal náo achei a vista da cidade nada demais. As cordilheiras ao fundo náo se parecem em nada com as montanhas assustadoras que vi no voo. Do alto, uma metropole cinza, cheia de predios e poluiçáo. Demorei a entender o que a cidade tinha de encantadora. Acredito que seja a limpeza, a organizaçáo e a simpatia dos chilenos. Por falar nisso como sinto saudade das brasileiras. Todas as chilenas parecem um jogo de totó, pequenas e todas com a mesma carinha de fuinha. A primeira noite conheci uma brasileira e bebemos todas com um casal de chilenos. Nesta mesma noite fui rodeado pelas mini moças chilenas que dançaram a dança da manivela comigo. Eles adoram esta merda aqui.

Ontem acordei de ressaca e estava me sentindo meio inutil. Ainda náo havia conhecido nada. Piorou quando cruzei o caminho de quatro cariocas que também estáo viajando e váo para buenos aires no ano novo. Passei o dia falando besteira e, tirando a feirinha e a santa no alto do morro, o dia se resumiu a maior noitada atè agora. Me recordo que estava trancado numa dispensa da casa de uma chilena que os tios moram em miami. Cada menino estava em um lugar da casa. Havia tambem um motoqueiro que nos seguiu e entrou na casa, o irmao da proprietaria e um monte de outras pigmeus de santiago. Cheguei no hostel pronto para o café da manhá.

Hoje paguei o preço do desapego ao meu roteiro. Náo irei conhecer a casa de pablo neruda. As duas estavam fechadas hoje e estaráo tambem amanhá. Por isso abandonei os cariocas perigosos e fui para viña del mar e valparaíso. Vi o Moai original, troquei uma ideia com a chilena mais gostosa que vi até agora. Inclusive esta me mostrou um video dançando reggaton em casa...aiai...mas o que realmente importou foi tomar banho de mar no oceano pacifico. fiquei muitissimo feliz. Comprei uma toalha e pulei no meio da galera na praia, um programa tipico de domingo deste lado de cà da américa tambèm.

O que realmente me impressionou foi a cor do cèu de valparaìso. A cidade respira uma decadencia e uma nostalgia impressionante. Uma mistura de cidade do Porto, Cuba e Centro do Rio que è interessantissimo. O Azul do cèu, o rosa do sol se pondo e casaróes decadentes, com pessoas de uniformes e roupas sociais que parecem esquecer que estamos no século XXI. Náo é um parque, náo è pra turista ver. A cidade è realmente assim, por isso impressiona. Náo è a toa que Neruda escolheu ser enterrado aqui.

Voltando pra casa, com as pernas doendo e muito frio (aqui faz calor pra caralho de dia e o mesmo caralho de frio de noite), encontrei os cariocas que vieram me buscar. Alugaram um carro e vamos amanhá conhecer um glacial bem cedo. Por isso hoje serà a primeira noite que irei dormir sòbrio. Isto è, somente se a belga que està no computador do meu lado náo quiser tomar a saideira de pijama em algum lugar.

hasta lluego!

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O QUE VAI E O QUE FICA

O QUE VOU DEIXAR EM 2009

10 – o motor de arranque do meu eco-escort que me deixou a pé no motel.
9 - O soco que eu quase tomei por ciúmes de um ex da moça que eu quase namorei.
8 - O email que recebi junto com as faturas do cartão de crédito dizendo que eu estava sendo demitido.
7 - A venda da casa de praia onde fui batizado, criado e apaixonado, vendida e futuramente demolida.
6 - O dia que ela me beijou sem gosto e percebi que havia me apaixonado sozinho.
5 – O deboche da mulher da imigração em Dublin não entendendo meu inglês de merda.
4 - A total distância entre as minhas angústias e meus amigos do peito.
3 - Os estragos que um coração partido foi capaz de fazer com a minha mãe.
2 - Minha labirintite que não é labirintite, nem fígado, nem frescura e não me deixa.
1 - A minha total incompetência em conduzir relacionamentos amorosos.


O QUE VOU LEVAR PARA 2010

10 – A popularidade e reconhecimento que minha banda conquistou junto a músicos e público.
9 – O autoconhecimento, paisagens e titulo de cidadão do mundo que meu mochilão me deu.
8 – A proximidade de parentes queridos e fundamentais para o meu equilíbrio emocional.
7 - O título do mengão que me fez chorar e os prêmios em propaganda que fizeram meu salário aumentar.
6 – Manjericão, carne seca, cerveja guinness, azeite e outras novidades que surgiram no paladar.
5 – Os novos colos de mãe e ombros amigos que surpreenderam quando o bicho pegou.
4 – Acampamento, baseado, sexo selvagem e outras maluquices que queria experimentar.
3 – Minha irmã virando adulta e minha afilhada deixando de ser criança.
2 – Os olhos verdes, as tatuagens e o piercing que fizeram meu coração sambar.
1 – A conquista da individualidade e a restituição do desejo de não mais viver só.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

FUGA

Meu bem arruma a mochila / que o tempo faz preguiça.
Te pego de jeito na pista. / O dia só para quando enguiça

Avisa pra ela não ligar/ (segunda )é feriado nacional
Avisa pra ela não esperar/ com rabanadas no natal

Com polegar pro alto tudo se dá jeito/um sorriso, um beijo e um queijo
Saber do predicado menos do sujeito/um risco pra cada desejo.

Toda rua, toda lua. Casais e breguices de amor.
Toda crua. toda tua. Segredos na orelha com a flor.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

DIA DE CÃO

Um cão sem dono fuxicava o lixo com o nariz. Macarrão com areia e arroz azedo grudavam em seu bigode duro. Não era fome, talvez tédio. O cão procura desafios pra seguir em frente. Antes de partir sente no quadril a pancada forte que vai direto nos ossos. O susto o faz recolher o rabo e saltar de banda, fugindo da vassoura teleguiada. “To cheio desta merda de lugar”. Certamente pensou.

Dali se via o infinito de cimento. Pistas, postes e fios sumindo no horizonte. Foi pra lá que o cão vadio andou. Sem parar, sem parar. Os centros urbanos, tumulto de gente pra lá e pra cá sempre o atraiu, seja pelas porcarias caídas no chão ou para ver a calcinha das senhoras que passeavam. Gostava das gordas peludas, mais velhas, que deixavam seus pentelhos vazando para fora dos elásticos. Lembrava de suas cadelas. Mas hoje não. Passou direto do calçadão e feira livre, pegou a estrada e viu a noite chegar, os faróis arregalarem seus olhos e a lua o desafiar. Uivou pra ouvir seu próprio eco. Só o silêncio. Algumas noites nem os ecos querem conversar.

Andar sem rumo só é terapia para quem não foge de si mesmo. Quando mais se afasta, mais está próximo de seus medos e da convivência insuportável de seus hábitos. Coçar a orelha com a pata de trás e lamber a caceta antes de dormir eram repetições involuntárias, irritantemente impossíveis de mudar. Naquele dia o cão andou entre os carros atrás de emoção mas o domingo de sol à pino trouxe motoristas idiotas para a rua, com suas crianças gritando sentimentos vazios atrás do vidro. Fugiu para não ser adotado. Enfim encontrou um banco de cimento onde um mendigo dormia exibindo uma bunda suja pelo rasgo da calça e ia acomodar-se ali se não fosse por uma cosquinha na barriga. Conhecia bem a fome e não era nada disso. Pareciam borboletas soltas dentro de suas tripas. Foi subitamente tomado pelo desejo e seus sentidos despertaram de uma letargia infinita. O Cão havia se apaixonado pelo frango assado da padaria.

Ele o via girar, em seu movimento harmonioso e gracioso. Mordia os beiços e imaginava orgasmos com dentes cravados em suas cartilagens cada hora mais moles. Queria passar a língua nas suas coxas abertas e maltratar suas asas curvando-as para trás. Imaginou planos, passeios pelo campo e constituir uma família. Ele e sua peça deliciosa, que dormiria do seu lado, sempre disponível para saciar angústias e perversões. Mas o cão não conhecia a personalidade desta nova fixação. Alguns frangos nascem para estar na vitrine e não para serem amados. Basta admirá-los. Se sentem importantes demais para satisfazer a um só. Querem voyeurs, dedos apontando para si e brigas pelo seu rebolar maquinado. O cão arriou suas patas, o corpo magro e permaneceu deitado, sem ligar para o vazamento da caixa de esgoto que umedecia o chão. Nem comia, nem cagava, nem dormia. Fez da rotação da máquina suada sua obsessão de vida. Mas quando um homem de braços roliços e relógio falsificado pegou seu frango molhado de gordura pelo espeto e o esquartejou entre amigos no balcão ele teve a certeza de que os vira latas são criaturas esquecidas por Deus. Lembrou com raiva da cara de satisfação do seu amado, entregue aos encantos da própria vaidade, arreganhado na mesa posta. Nada poderia fazer. Sabia que cedo ou tarde isso aconteceria. Era vitima e culpado de seu próprio sofrimento.

O caminhão de entregas até freiou mas os dias não teriam o mesmo gosto nem o mesmo cheiro depois daquele dia de cão.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O DIA QUE MEU CORAÇÃO PAROU

Notei bem depois, quando assustado com o pesadelo não senti os batimentos. Só o silêncio sinistro na alma. Catei o pulso, o lado esquerdo do peito, nada. De tão resignado que estava voltei a dormir já sabendo ter morrido um pouquinho.

Contrário às expectativas, acordei normal, no terceiro toque do despertador. Sentia a respiração longa e pesada. Sem o tum-tum-tum por dentro, outros órgãos sobressaíam em seu funcionamento maquinado e ruidoso. Somos molhados por dentro e a cada saliva que escorre pra dentro o pâncreas, fígado, intestinos e companhia se mexem como o torcer de pano de chão. Mas as evidências não me convenciam até perceber a verdade sobre minha nova condição cadáver. Letreiros, automóveis e toalhas na janela. Parei de enxergar o vermelho e algumas outras cores, como lilás e abóbora, que só vemos enquanto temos alegria no ser. O céu também não contribuía tapado em nuvens cinzas franzindo suas sombrancelhas sobre a cidade. Minha pele estava rígida e fosca; a morte era uma realidade. Sem consegui tirar a roupa velha que durmo, nem escovar o dente, fui assim mesmo trabalhar.

Os emails se acumularam durante todo o dia e minha incapacidade de articular duas frases decentes foram mal vistas pela diretoria. Aleguei falta de circulação no cérebro. Bobagem. O business não tem coração. Fui convidado a me retirar enquanto outro já aguardava entrevista na sala de espera. Ganhei tempo para organizar meu próprio falecimento que deveria acontecer dois ou três dias depois. E assim aconteceu. Duro, com a boca aberta virada para o céu e os olhos arregalados, ouvia a grama do jardim do Palácio do Catete crescer enquanto recordava com paciência as últimas horas. Escolhi este lugar para morrer porque era por ali, entre os patos e crianças, que caminhava cantarolando a cada segunda feira que vinha pensando nela. Os dias eram frescos e iluminados e terminavam sempre com um bonito pôr do sol e uma ligação despretensiosa. Ela sabia me fazer rir e suas opiniões tão cheias de opiniões me deixavam mais vivo, seja por concordar ou por odiá-la por isso.

Daqui ha um tempo vão me descobri aqui, por enquanto o vigia somente me observa como um bêbado inválido entre tantos. E quando isso acontecer vão tentar encontrar culpados e chegarão até seu nome, sabendo que foi ela minha última companhia. Mas não estarei vivo para dizer que me suicidei. Ao querer a moça mais bonita sabia que estava provando do meu próprio veneno, outrora capaz de fazer muitas vítimas. Eu quis, mesmo assim. E o dia chegou: ela se foi, confusa entre suas inexperiências e avidez, porém soberana nas decisões. Me deixou um sorriso seguro de quem tem muito mais vida pela frente para acertar e errar. Suas malas já estavam prontas para pegar a próxima carona. Morrerei aqui, com meus medos e paranóias, sem agradecê-la pela paciência e noites que se tornaram manhãs, sem provocar o último orgasmo nem recontar as últimas piadas.

Não é a primeira vez que essa esquisitice acontece mas sempre me tornei adubo de mim mesmo, graças a capacidade de renascer de um cafuné ou mimo inesperado. Neste dia que marca o fim do inverno, temo não conseguir a proeza de voltar a ser gente. Temo ter morrido de vez.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

A VISTA

Despertei com olhos que não eram meus. Verdes e com olheiras. É muito estranho acordar com a sua cara sem os olhos. Ele tinha mais lágrimas que o meu, piscava lento e tive que lavá-lo várias vezes para estar limpo de verdade. Cheguei afobado no trabalho e ninguém notou. Meus colegas que almoçam comigo seguiam em sua normalidade e o motorista da condução também. Cheguei em casa para verificar com calma. Eram maiores e tinha cílios mais claros. Comparei as fotos, tirei novas, troquei de espelho. Nada. Novo dia e eu com dor de cabeça. Os olhos que ganhei eram sensíveis a luz e sofri com o sol na janela, por isso passei o dia de óculos. Abandonei o expediente e fui almoçar com minha mãe. Reclamou do dinheiro, do marido, da idade. E foi embora sem me dizer nada. Tive dúvida sobre minha lucidez. Liguei para meu amigo e fiquei com mais dúvida ainda. Veio sábado, veio domingo e decidi ir ao médico. O oftamologista disse que era raro acontecer mas a íris poderia mudar de cor. Não acreditei naquele babaca interessado nas comissões da indústria farmacêutica e saí sem pagar. Me tranquei em casa e meu cachorro me lambeu por compaixão. Para ele, só para ele, eu ainda era eu.

Logo notei que, junto com os novos olhos, também vieram as banalidades. Agora me despertavam atenção bromélias, estampas e diamantes. Pensei nos cegos, no glaucoma e chorei pela primeira vez. Sem perceber fui excluído do meu circulo de amigos e encontros de família. Vez em quando, um ligava. Eu havia desistido de contar esta história mas também não queria contar outra. Ficava mudo e desligavam. Foi nessa época que usei drogas sintéticas pela primeira vez. Pensava em enganar meus olhos ou a mim. Uma alucinação contra a outra. Via tudo azul, depois tudo verde, depois desbotava-se. Numa das viagens acordei todo molhado com um lápis na mão feito punhal. Ia enlouquecer. Decidi refazer meus passos do dia anterior.

“Oi, o senhor viu por aqui um par de olhos castanhos bem normais?”. Melhor não perguntar nada. Sentei no bar tentando lembrar. Mesma mesa, mesma cerveja, mesmo garçom. Veio na lembrança uma certa euforia, mas passou. O músico com teclado e seu som sintético tocava “Azul da cor do mar”. Será que havia relação?Segui a pista e fui andando pela calçada que costumava me equilibrar no paralelepípedo. Passei pelo escritório, pela livraria e pelo banco. Procurei minha vista nas esquinas, nos lixos, queria entender. Mas acabei esgotado com a minha própria incapacidade e fui para casa. Pensava que, ao procurar os olhos havia perdido também o amor próprio. No metrô senti alguém me olhar. Muito. Hesitei em saber quem era. Desci ali mesmo. Pela primeira vez neste quase trinta dias, aquele arrepio que antecede um olhar me afrontou. Segui até minha casa, passos apertados, olhando para todos os cantos pois sabia que, seja lá quem fosse, estaria perto. E o avistei se esgueirando entre os carros estacionados. Eu parava, ele abaixava. Na esquina eu corri. Faltavam dois quarteirões para chegar. Sentia muito medo. Seria uma alucinação?Seria eu mesmo me perseguindo? Não consegui abrir o portão porque nestas horas a luz da rua está sempre apagada ou a fechadura está dura demais. Ele se aproximou tanto que decidi virar de súbito. Estava a menos de 300 metros. Tinha um saco de papel na cabeça com dois furos para olhar. Não falou nada, mas estendeu a mão para mim. Calma, calma. Era uma criatura estranha, pequena, e só depois vi que suas roupas estavam velhas, com aspecto abandonado. Era uma mulher. Levantou sua máscara improvisada e entendi tudo. A conhecia muito bem. Morava ao lado e sempre a quis mas nunca tive coragem para falar. Saíamos para o trabalho no mesmo horário e eu sempre corria para estar em seu caminho. Dia após dia cruzávamos e nos desejávamos em silêncio. De tanta insistência acabamos trocando nossos olhares. Para sempre.

terça-feira, 14 de julho de 2009

PEQUENOS CONSELHOS PRELIMINARES PARA SUA VIDA ADULTA

Viaje neste mundo de possibilidades criança, sem querer tatear de fato o que é a vida adulta. Sinta seu cheio mas não a coma, ouça seu canto mas não o repita. Seus pés cresceram e sua bunda também mas mantenha o olhar tão ingênuo e desprotegido quanto aquele que nos deu. ainda na incubadora, ainda sem saber se ia viver.

Como padrinho te preparo para o resto que virá, a primeira curva da sua vida em Indianápolis, fazendo volta em torno de si. O destino é assim, uma eterna repetição de atos com ou sem vontade. Verá sua libido crescer e seus pêlos também. Descobrirá cedo que conquistou seu espaço no pantheon mas precisa comer muito feijão e saber de assuntos que não te interessam se quiser girar conversas na cozinha sem ser interpelada por ter idade de menos. Verá a revolta sem causa nascer em metástase em seu estômago que vervilhará ao chiado de sonrisal. Furará sua orelha, seu corpo, negará seus cabelos e banhas, descobrirá que o verdadeiro monstro do armário está no espelho da porta. A dança dos hormônios também fará monstruosidades com seus amigos, que terão bigode ralo e ereções matinais, menstruação e calcinhas de algodão com ursinhos apaixonados.

Ah, menina grande, como eu gostaria que soubesse o que existe depois da infância sem precisar te trazer até aqui, nesta vida ritmada pela condução que passa às sete e o almoço de uma hora onde engulo minhas ansiedades e pago as contas. A nostalgia não vai tão longe, basta voltar a ser calouro, perfumado e vagabundo. Não te imponho uma formação de doutora e sim de cidadã. Encontre o que gosta e tenha sempre sangue nos olhos para conquistar, dominar, sem modéstia, seu espaço. Não se incline pela facilidade e estabilidade dos empregos sem sal e pelo medo de terminar seus dias velha e pobre. Terá tempo de sobra para cativar pessoas e lugares, dedique-se a isso. Não se envergonhe pela sua ambição nem pelo orgulho ou vaidade. Todo mundo tem o lado ruim escondido na caixinha de remédios.

Também fará bem não se decepcionar por não ter a seu lado as pessoas queridas que gostaria. No futuro estarão aqueles que restaram cujo os pais não foram morar em Manaus ou os que não sucumbiram a religião ou a vícios. Com seus contemporâneos terá a cumplicidade da geração e se arrependerá de não ter dividido a merenda com aquele remelento que agora é o bonitão e gerente, presidente, chefe de gabinete do seu coração não correspondido. Para isso felicite a todos, inclusive a menina que vem aqui em casa te trazer convites de aniversário mesmo que este tenha a data errada escrita à mão e não esqueça de falar com a outra que cresceu rápido demais e não quer mais brincar de pique com você.

Mas ser grande tem suas sensações que precisa aproveitar. Se antes era dominada pelo instinto de se alimentar agora também haverá o de procriar. Tome as medidas necessárias para não adiantar filhos não desejados mas não torne o sexo um tabu. Transe onde, quando e com quem quiser, gozando da sua irresponsabilidade sob medida. Também cometa loucuras por amor, mesmo que seja a si próprio, como pegar caronas rumo a próxima cidade, pular na piscina do vizinho escondido e entrar em festas sem conhecer ninguém. Depois de um certo tempo menina, ficamos bobos demais. Primeiro tentamos legitimar nossa diversão. Se você gosta de descer o gramado no papelão, vira snowboarder, se gosta de subir na árvore, vira engenheiro florestal, mas como a infância não é palpável, deixamos de lado as brincadeiras de rua e o riso bobo: é assim que a infância se vai.

Neste momento, compartilhamos as incertezas pelo amanhã e por isso fico feliz de ter você ao meu lado. Chegue aos quinze pois estou perto dos trinta mas continue revezando comigo a brincadeira com o cachorro e não deixe de beber água no gargalo das garrafas. Posso não estar perto a cada peça que encontrar do seu quebra-cabeças mas estarei aqui para aplaudi-lo assim que você terminar.