quinta-feira, 20 de março de 2008

DONT RAVE MONEY

Como todo filme de terror o início é cativante. Eu e um mineiro contra quinhentos gaúchos barulhentos. A disputa?O título de melhor vídeo publicitário no Festival de Gramado. Perdemos, fique sabendo. Na saída, uma filipeta “festa de encerramento?Foda-se, estamos dentro”.

Depois do sobe e desce de táxi, racha para pagar a entrada, lá estávamos. Era minha primeira vez numa RAVE e não sabia ao certo como me comportar. Despistei o amigo na primeira curva e fui me aventurar. Eu tinha namorada, era supervisor da agência, uma postura a zelar. Ficar ao lado do aluno era queimar o filme, já bastava ter perdido um prêmio que estava no maior clima de já ganhou.

Logo na entrada fui entendendo o mapa do local: Lado esquerdo, dedicado ao som ao vivo, do lado direito, som mecânico e embaixo, o mais cheio, o underground. Tudo igual. A música que chacoalhava a galera era a mesma. Um bate estaca de compasso repetido no qual o DJ usava o mesmo recurso que eu nas festas juvenis. Ora baixava, ora escancarava o volume. Deixa estar. Fora da habitual pegação sulista, encostei-me no balcão como um quarentão recém-separado, preparado para rodar as pedrinhas de gelo com o dedo. Daí que tudo começa. No paga daqui, paga de lá, não sobrou nada na carteira e o lugar, pra variar, não aceitava cartão.

Foi pensar em sentir sede e a saliva logo sumiu e, não demorou muito, a língua começou a crescer na boca, como a de um camelo. Implorei, pedi, juntei as mãos, mas não rolou. A moça do caixa estava inflexível, com aquele complexo de pequena autoridade irritante, me pediu licença e continuou seu trabalho. Primeira alternativa: O aluno. Ele era quietinho, franzino, gente boa, não negaria emprestar um qualquer pro amigo.

A incursão na multidão talvez tenha sido a melhor parte desta história. Eu, e um mar de loiras, sacudindo, dando e tomando beliscão na bunda. Pensar que eu poderia estar encaixado numa futura miss Brasil me deixou eufórico. Com tesão, vá lá. Aperta de um lado, afrouxa do outro e nada do meu camarada aparecer. A segunda tentativa seria usar a carioquice que Deus deu, mas logo vi que não dava. Com o pancadão comendo solto, eu poderia ser persa, judeu, iraniano, que ninguém conseguiria ouvir minha voz. Do nada, alguém pega na minha mão e um sorriso lindo – e úmido – apareceu na multidão. Acho que na RAVE é assim, na pescaria. Fui seguindo, muito mais de olho no seu copo de chopp que nos dotes físicos. Era na descida do underground e a fumaça já anunciava: aqui é chapa quente.

“Essa é fulana, essa é ciclana”, nem perguntaram meu nome, e nem me deram bola. Até hoje acho que a moça me confundiu com alguém, afinal fiquei ali, sem lá nem cá, ignorado solenemente por umas meninas que dançavam alucinadas. Nunca vi animação assim. Filmei o ambiente e nenhuma bebida, agora, somente copos vazios. Do pouco que compreendi naquele festa do inferno foi “Quer uma bala?” Aceitei de imediato. Já que eu não podia dar uns beijos, pelo menos algo para estimular a salivação. Do nada, fui tomado por uma onda esquisita, como se eu tivesse engolido todos os agudos e graves do ambiente. O coração socava meu sangue para os quatro cantos do corpo, dava para ouvir, e fui ficando emocionado com a minha própria existência de ser. No primeiro esbarrão senti todo os meus pêlos do braço ouriçados e o bico do meu peito ficou duro. Cruz-credo. Queria ir embora mas senti tanto medo que comecei a chorar e rir num destempero de sal e doce. Não sei qual foi a hora que comecei a dançar mas talvez tenha sido a melhor saída. Batia o pé no chão feito índio e passava a mão pela cara e a cabeça, suado e despenteado. Minha alegria durou até o celular tocar:

- Alô?Amor?Sou eu sua namorada...
- E o prêmio?Você ta na farra. Dá pra me explicar?

Não tinha percebido mas a minha mandíbula havia também travado com essa bala do capeta e nem conseguia falar nada. Quase babando, tentei escrever uma mensagem mas as teclas haviam triplicado e se mexiam conforme a música. Fui me escorando e descendo o corpo, lentamente, escorregando até o chão. Sentei, encolhi as penas, e percebi uns dois ou três malucos agarrados na caixa de som, tentando entrar pela corneta, pelo alto falante, completamente estranho, lembravam cupins na lâmpada em noite de verão. Com medo de ficar como eles, segui as paredes e depois de girar naquele buraco acabei encontrando o ar puro pela saída de emergência. Era demais pra mim. Descobri uma secura na boca como nunca havia visto e me peguei correndo a caminho de casa, de boca aberta, disposto a vencer quilômetros sozinho, a pé. Putz, começou a chover. Bom, agora o que não falta é água.

sexta-feira, 14 de março de 2008

PARAÍSO DE MIM

Tenho dias de rocha. Geralmente estes são motivados por notícias boas, expectativas ou conclusões pessoais. Mas também tenho dias de areia. Nestes me fragmento em mil e me dissolvo em ausências, discordâncias e saudades. Nos dias de rocha, sou pedregulho rolando ribanceira abaixo, não tenho dúvida nem medo. Aproveito a paisagem que passa na janela, sou o durante, não o antes, muito menos o depois. Nos dias de areia, não tenho rumo próprio, dependo do vento que me orienta e torço para encontrar a quina, o cantinho, onde a sujeira se acumula e o momento dá um tempo para eu ser feliz. Posso dizer que sublimes são os encontros onde alguém une seus dedos mágicos e, fazendo um punhado de mim, me faz sentir gigante. “Afinal basta cair um grãozinho no olho, que já era.” diz ela, se divertindo. Porém não há dúvida da decepção que rege os encontros destruidores de castelos, com suas ondas de egoísmo e insensibilidade, arrastando canais e trincheiras de alga e conchinhas do mar. Não julgue. Taque a primeira pedra quem nunca foi areia, grãozinho qualquer que amanhece encolhido no cantinho do dedão, torcendo para não ser espanado. Varra a primeira areia quem nunca foi rocha, dando cabeçada no vazio, vendo a lágrima cair sem se mexer. Grande ou pequeno, volúvel ou inflexível, estes são os paradoxos do paraíso de mim.

Nesta praia que me tornei sobram espaços para ver o pôr do sol e os cocos saltam
desanimados no chão. No entanto, com a soberba dos grandes resorts, insisto em limitar seu acesso, insistindo na segurança de ter dias completamente iguais. Às vezes, quando o frio bate, cato com um rastejar de lagarto as últimas pegadas que deixam sua identidade displicentemente, sem imaginar o quanto tatuadas elas ficaram na minha memória.
Elas são esquecidas apenas quando os vaga-lumes invadem minhas terras. Sou apaixonado por eles. Lindos, matreiros e egocêntricos, que ofuscam as estrelas e me acordam de uma letargia infinita. São como as fadas que tocam minha esperança com suas mãos leves e me fazem acreditar em coisas mágicas, inimagináveis. Espero aqui sentado, o dia que me crescerão asas e aprenderei com eles o quanto de amor próprio é necessário para se fazer acender por completo. Por enquanto aproveito sua breve presença, fazendo troça do meu amor, fazendo me segui-los por horas até o momento que cansam e desaparecem na escuridão.

Um dia, esta porção de terra, perdida no meio de tanto mar, já foi agarrada a outra porção, que por sua vez se agarrava a tantas outras que me davam um título de cidade ou país. Hoje bate um medo quando vejo as luzes da cidade no horizonte, se afastando de vento em popa e sempre me pergunto se não são mais felizes aqueles que se deixam habitar por qualquer trocado, colando cartazes de propaganda na porta do coração, acabando por criar uma superlotação sentimental. Acho que não. Afinal, ninguém paga pelo silêncio das manhãs sem culpa, da liberdade de ir, vir e ser. Quando esta nau em forma de ilha se encontrar com sua alma gêmea não pegará emprestado suas belezas naturais e sim as multiplicará, afinal, amor próprio é olhar para dentro de si e admirar sua própria paisagem.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

FIGURINHAS REPETIDAS

O fato de estar escrevendo agora, antes do combinado, esconde uma verdade: eu não quero me despedir deste dia. Já amanhece na cidade, mas dentro de mim, estrobles e slide-flashs ainda se chacoalham como vaga-lumes apaixonados. No meio deles, ela. Na minha pele, outras lembranças também se misturam, ora sinto o cheiro da máquina de fumaça, ora sinto seu perfume.

As calçadas estão vazias e sujas, quase silêncio. O homem que joga água na calçada para começar o dia de trabalho na loja, me olha com desprezo. Não sou vagabundo, apenas gosto de sair segunda feira. Caminho no sentido oposto, incomodado por virar de costas para o local onde tudo aconteceu. A paixão é como uma conjuntivite que não deixa dúvidas sobre seus sintomas. Vírus sacana, que me deu olhos turvos e por mais que tentasse olhar para outras, era ela que eu queria. Só ela, como se tivesse sempre me pertencido e todo o motivo pelo qual enfrentei corre-corre da chuva, caixa eletrônico, almoço em 30 minutos e ressaca inevitável, se compensasse naquele momento que cruzamos nossos sorrisos como duas gôndolas à passeio. Pelo reflexo na vitrine apagada da rua percebo que até agora ainda guardo parte desta alegria nos cantos da boca.

Conversamos como velhos amigos e foi de forma tão natural que não conseguiria lembrar como me aproximei. Falei, falei, falei até o ponto de me sentir idiota, como uma menina que encontra seu pai pela primeira vez e precisa mostrar urgentemente sua importância, sufocando um medo terrível de vê-lo partir novamente. No começo tentei desviar, blefar, minimizar, usar todos os artifícios que 18 meses de boemia e solidão me deram, mas bastou ouvir suas ironias e sentir sua mão delicada sob meus ombros, para deixar escapar elogios voadores e coloridos. Negar elogios a uma mulher é tão difícil quanto resistir a sobremesa.

Sentado no umbral do portão, recebo o afago do meu cão, me revisitando com seu nariz gelado e rosa. Eu que sempre o critiquei, por seu amor incondicional, quase patético, me vejo dividindo com ele o mesmo olhar melancólico a cada vez que a porta se fecha. Quando a convidei para sair dali e o pedido foi negado, soou o alarme, o reservatório do coração encheu de orgulho, expulsando as expectativas pelo ladrão. Me afastei e fiquei de longe, como uma esposa de pescador na beira do cais, vendo minhas esperanças se afastarem a cada rapaz que se aproximava dela. Ainda me assusto com seu jeito de mulher resolvida, fumante irreversível, que nunca está com o copo vazio tamanha é a oferta masculina para enche-lo. Ainda não encontrei em mim o motivo pelo qual me atraio por mulheres assim, de sorrisos largos e perigosos. Definitivamente jogos de amor são para adultos. O cara se aproximou. Abraçou. Fungou. Acarinhou. Cochichou. Partiu. Opa, melhor eu voltar.

Nunca gostei de apostas e acho que quanto mais necessitado o homem está, mais ele sucumbe na esperança por uma vida melhor repentinamente, porém hoje a bola caiu no 22 preto, onde, sem perceber, eu escondi minhas fichas. Sinto um troço preso na garganta a cada vez que penso nela, pois não consigo expulsar os pensamentos, muito menos engoli-los. Porém, mesmo com este refluxo, gozo de um prazer enorme ao relembrar este encaixe perfeito, geralmente encontrado nas peças de quebra-cabeças e nas rodinhas de caminhões de madeira. Sim, finalmente nos beijamos e nos olhamos e nos sentimos, tão efusivamente, que me confundi com ela mesma, numa cumplicidade rara. Nem a luz fria e impessoal do salão principal nos separou.

Tenho que ir trabalhar e resisto para não dormir sentado aqui. O sol já acena no final da rua e o cheiro de café abraça minha casa anunciando uma avó com insônia. Tiro do bolso nossas figurinhas repetidas, que não canso de rever, talvez para reafirmar que na vida colecionamos o mesmo álbum. Somos de escorpião, vamos estudar em outro país, somos debochados e risonhos, cantamos as mesmas canções. Porém esta é apenas uma noite, não uma vida, como ela costuma dizer, e preciso controlar meu impulsos de homem-bala. Com o lamento de um devedor que precisa penhorar seus bens, abro as mãos e ela escapa entre meus dedos, sem promessas, nem juras. Nada.
Estas são as regras da noite, onde o ideal e o desejado nem sempre andam de braços dados. O táxi amarelo some depois da curva à direita. Já amanhece na cidade, mas dentro de mim, estrobles e slide-flashs ainda se chacoalham como vaga-lumes apaixonados.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

ACONCHEGO ENTRE JOBS

“Sabe qual é a melhor coisa que Deus inventou depois da mulher?O fone de ouvido”

Lancei a piada como um espirro inevitável que respingou mais longe que o previsto. Pior que falar demais no trabalho novo é perceber, só depois, que a maioria em sua volta é mulher.

Amasso e coloco meu comentário no bolso torcendo para não ter sido ouvido e dou graças a Deus quando o silêncio é interrompido pelo telefonema que gera uma série de perguntas e respostas paralelas. De rabo de olho admiro essa capacidade das mulheres de concatenarem tantos pensamentos, como se jogassem palavras cruzadas simultaneamente. Minha diretora de criação por exemplo, consegue atender, corrigir, orçar, ler, layoutar e trocar confidências com o namorado ao mesmo tempo. E neste meio tempo, se comento algo, ela responde prontamente. Diferente de ambientes mistos, uma agencia dominada por mulheres tem temperos únicos. Chiliques, birras, tititis, são somados aos duros briefings e brainstorms dando um clima aconchegante a rotina mecânica da propaganda, como se, sempre que precisar, estarão à disposição um colo e um cafuné. As observo assim como fazia pequeno, da brecha da porta ou fingindo estar dormindo, para poder me aprofundar em seus mundos. O que mais me chama atenção são as piadas inocentes, que as acompanham desde a infância. Diferente dos homens que mandam tomar no cú pelo puro divertimento do desafio, as mulheres brincam com a delicadeza de um pianista, zombando de seus pequenos poderes. A que senta aqui na frente um dia desses deixou o telefone tocar, tocar, fez cara de tolerância, respirou fundo, todas riram, só depois atendeu. Adoro essas coisas de menina.

Observando o mercado e fazendo um corte e colagem de tantas Meio & Mensagens que leio, posso decretar: agências presididas por homens vão acabar. O pensamento é simples. A propaganda deixou de ser a vedete e se viu a necessidade de trabalhar outras ferramentas de comunicação, funcionando de maneira conjunta. Em miúdos: o cara que lançava um produto ontem anunciando no jornal nacional, hoje é obrigado a fazer uma ação no supermercado, desenvolver um site interativo e preparar uma promoção. No mínimo. Como administrar tudo isso ao mesmo tempo?Só usando saias.

Ela faz pose. Ela dança, Ela chora, Ela faz o mundo parar para ver algo fofo em seu Mac. É assim com os clientes, fornecedores e funcionários. Tentar entender os pensamentos da minha chefe é como olhar para o céu e conseguir prever quais são os próximos desenhos que as nuvens vão formar.

Neste primeiro mês tenho usufruído deliberadamente dos dengos, mesmo contidos, das minhas colegas de trabalho. Afinal faz muito tempo que alguém não leva uma gripe minha a sério, ou simplesmente nota o que tem desenhado na minha blusa. Confesso que passei virando algumas noites decifrando jobs com a obstinação de uma mãe que nina um bebê com cólicas, mas também tive o prazer de acompanhá-las em compras no meio do expediente ou me sentar para matar uma garrafa de champagne em plena quinta-feira.

“Sabe porque as baratas resistem a tudo?Por que nunca foram casadas com um homem”. Putz, elas ouviram.


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

CRIA DO CARNAVAL

Pela janela do ônibus, Luciano viu os arcos no final da rua. Esse era o sinal para ele descer. Uma multidão se aboletava nas soleiras fugindo dos pingos, lotando ainda mais os bares. Estava começando mais um dia de trabalho e que seria até normal se não fosse terça-feira de carnaval. As fantasias multicoloridas e riso frouxo dos foliões resistiam com bravura ao mês de chuvas contínuas. Quando chove o Rio de Janeiro apaga suas velas e se torna tão sem graça quanto andar de carrossel.

Luciano já vinha com suas canelas molhadas e chinelo encardido, mesmo assim fugiu das poças com medo dos cacos de vidro disfarçados. Ainda tinha em sua lembrança a beiça que abriu na sola, quando matou a bola no peito e rachou com o goleiro no campinho da Barreira, onde morava. Não demorou muito alguém o abordou. Um real. Até que o dia começara bem. Pela Joaquim Silva, entrou na sinuca e sentou-se sem dar pinta. Era seu local preferido. Lembrava um pouco sua casa, cheia de irmãos barulhentos, amontoados em volta da mesa da cozinha, esperando a sopa de legumes com arroz no final da noite. Eram nove filhos, e, tirando a menor de dois anos, todos trabalhavam na rua. Lu vendia chiclete em tablete, de dois sabores, que a mãe organizava através de potes coloridos e transparentes. O do garoto era pequeno e azul, cabendo no máximo 15 unidades, isto é, 15 reais. Destes, cinco pratas ficarão para ele, que gostava de comprar pipa e figurinha para colar na cabeceira da cama coletiva.

Quando viu as luzes do poste acenarem da janela, teve que abandonar seus minutos de criança observadora, para garantir o ordenado. Caminhou pelas ruelas até se deparar com a multidão cantando atrás do bloco Quizomba, iniciando o desfile pelo bairro.
Luciano se encantou com o carro de som que parecia um barco à deriva no meio de tantas cabecinhas saltitantes. Empurra ali, toma um pisão aqui e lá foi o pequeno, sentado no pára-choque, onde somente ele ficaria confortável devida à altura. De repente, entre seus pés, aparece uma máscara de bate-bola, com fitas prateadas, amarradas no topo da cabeleira e flores no lugar dos olhos. Havia caído, se salvado de um zilhão de pisões, atravessando entre as quatro rodas do caminhão para finalmente ser resgatada por Luciano. Com a nova aquisição poderia começar a juntar sua graninha e no ano seguinte comprar o resto das vestes de bate-bola, com saião rodado, bolero e guarda-chuva. Em sua fantasia, o dinheiro sempre daria para realizar tudo, apesar da realidade em sua volta falar o contrário.

No bolso haviam dez reais, que usava para dar troco, e mais quatro, das vendas. Por isso precisou apelar para comer algo, depois da metade de um dia com estômago vazio. Já conhecia os locais onde poderia descolar um lanche. No china, entrou pela porta lateral e sentou no último lugar disponível no balcão. Ao seu lado, um cara de pano amarrado na cabeça detonava seu segundo salgado. Esse era eu.

Luciano me olhou e, ao invés, de fazer cara de coitado, me pediu seu lanche com naturalidade, enquanto encontrava uma posição mais confortável. O atendi prontamente e dali iniciei uma série de perguntas, para ele, meio bobas. Nunca fui fã de dar coisas na rua para não estimular os pedintes e tenho uma sisma pessoal com crianças dissimuladas, que aprendem a fazer cara de coitada e contar histórias tristes mas garanto que Luciano não era assim. Era espontâneo, autêntico, gostava de pentear o cabelo, tinha uma namorada que estava viajando e detestava coxinha com camarão. A maior lembrança que tenho é de sua soberba pedindo catchup. Talvez não fosse gente grande para assimilar isso, mas, antes de gostar do tempero, Luciano estava gostando de exercer sua dignidade, enfim estava em posição de ser servido depois de passar os últimos dez anos servindo a todos. Numa espécie de pré-vestibular em minutos testei sua personalidade, tomando emprestada sua máscara, pedindo que dividisse o refrigerante e inteirando o troco que eu havia dado para pagar o segundo salgado. Finalmente encontrei o menino que eu procurava. Fui ao banco, saquei uma quantidade estipulada nas minhas promessas e dei a ele, que deixou escapar olhinhos brilhantes como lantejoulas. Tentei aconselhá-lo quanto ao uso do dinheiro e os próximos passo de sua vida mas não consegui segurar as lágrimas quanto disse que ele teria a idade para ser meu filho.Tomamos destinos opostos na Rua Senador Dantas, ele com suas balas, máscara de bate-bola e um monte de desejos infantis a serem realizados; eu com o melhor dia de carnaval que alguém poderia ter.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

TODA MULHER GOSTA DE PODER

Toda mulher gosta de poder

Poder ficar diante do espelho
Pintar, unha, pêlos e cabelo
Mas dizer que estão sempre pra fazer
Porque toda mulher gosta de poder

Poder rachar conta de motel
e ser uma amante fiel
mas ter um amigo pra poder lhe socorrer
porque toda mulher gosta de poder

Toda mulher gosta de poder

Poder tomar chopp com as amigas
e ficar bem longe das intrigas
mas saber tudo que passa na TV
Porque toda mulher gosta de poder

Poder se livrar da TPM
poder se encher de gel e creme
pra dizer que está linda de morrer
Porque toda mulher gosta de poder

Toda mulher gosta de poder


Poder dormir só de calcinha
Poder se vestir de menininha
e dizer que o bonito é pra se ver
porque toda mulher gosta de poder

Poder escolher o cara certo
mas gostar do cara mais esperto
elas gostam de se contradizer
Porque toda mulher gosta de poder

Toda mulher gosta de poder

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

O ANO QUE FICOU PRA LÁ

O ano que ficou pra lá começou com uma pilha de roupas na sala que finalmente tive coragem de abandonar. Quando elas caíram do armário embolando-se no chão foi o sinal. Eu realmente deveria me despir de coisas do passado se quisesse começar um novo ano.

Comecei pelas camisas velhas, que muitas visitas já usaram para dormir, e pelas amizades, que já sofreram inúmeras lavagens. Depois de meia vida sofrendo para reunir pessoas que fizeram parte da minha história, escondendo um medo de perder as referências de quem eu sou, finalmente organizei os arquivos, privatizei o sistema e instalei uma balança que não mede o tempo de convívio e sim sua intensidade. Saem amigos que trocam cumplicidade por um porta-retrato e entram camaradas que vão explorar o mundo e me carregam na mala.

As metas profissionais também ganharam nova roupagem, principalmente depois do final de uma relação sem tesão com a agência que ajudei a tocar por dois anos. Culpa da profissão, nada mais, que necessita injetar adrenalina na tinta da caneta para os títulos realmente saírem com emoção. Reunidos os cacos e algumas peças do portifólio saí com o fôlego de estagiário, relembrado pela página da agenda de 2001 emoldurada na parede, disposto a reconquistar uma nova vaga no mercado. 24h depois eu estava empregado e fortalecido da minha capacidade de fazer o que gosto.

Falando em preferência salvei da trouxa a camisa que mais gosto de vestir ultimamente. Mesmo suada de tantos ensaios de madrugada e discussões desnecessárias por egos exacerbados, minha banda foi responsável pelas maiores alegrias que tive, me proporcionando um aprendizado técnico e pessoal de convívio e aceitação das diferenças. Através dela me tornei da noite pro dia um cantor e até hoje me surpreendo com elogios de gente que dedica a sua vida a fazer isso.

O ano que ficou pra lá foi marcado pela instabilidade de um náufrago em plena calmaria. O amor até mandou suas marolas mas nada que me fizesse enxergar terra à vista. No meio da imensidão azul, sem tubarões ou sereias, pude curtir minhas particularidades e conhecer cada ruga e cutícula da minha alma. Foi um ano que finalmente aprendi a boiar e descobri que melhor que tentar dominar o mundo é deixar que ele te empurre.

No entanto outras coisas permaneceram-se intactas como as camisas do flamengo que eu não ouso tirar do armário. O carro é o mesmo. Os quilos também. Nenhuma doença nem morte por perto. Continuo saindo segunda, usando costeleta, jogando vídeo-game e ouvindo que pareço o Rogério Flausino. Razoável para quem acredita que a nostalgia seja o primeiro sintoma da velhice.

Terminada a separação das peças, parto finalmente para a lavagem da roupa suja mas antes salvo do bolso das calças os confetes do melhor carnaval que já tive, os tickets não trocados por cerveja no west show, os conselhos da primeira e única mulher que fui apenas amigo, o orgulho de me ver espelhado nas atitudes da minha afilhada e finalmente as novas metas escritas em um guardanapo, que irei entregar ao mar em uma oração silenciosa e sincera com os pés molhados. Mas não antes de curtir o o eco deste armário quase vazio e sonhar com as mil coisas que poderão morar nele.