Minha inércia e meu desapego material chegaram ao limite. Vim da Europa empolgado com uma sociedade inteira que realmente se importa mais com o “ser” que o “ter”. Além disso, sobrevivi com uma mochila dois meses e posso continuar assim: meia dúzia de roupas e muito menos quinquilharias tecnológicas. Mas foi a moça falante que viu “Ei, sua camisa ta furada”. Era a terceira em uma semana. Comecei a rascunhar a lista de compras e afazeres mas com o pesar que deveria também fazer a lista de dispensas. É assim com o coração da gente e tem que ser com as coisas também. Mas não consigo. Prefiro não ter a ter que abandonar depois.
Sinceramente tenho medo das listas. Todas as vezes que as faço não consigo executá-la. Bastam dois ou três itens concluídos e a sensação de dever – parcialmente – cumprido toma conta. Me perco em possibilidades e transformo equações exatas em barcos que navegam em mares infinitos. Se eu tivesse criado o mundo, ele não completaria o quinto dia e se tivesse criado os mandamentos, não passariam de conselhos rascunhados. Começo sem prestar atenção.
Primeiro meu carro, cansado de guerra, cheio de arranhões e gambiarras elétricas.O que fazer com ele? O Eco-Escort, como o chamo, tem andado manco, furando pneus e dando de lado. Nele habitam um pé de tênis, que tenho a esperança de encontrar seu irmão gêmeo, uma garrafa de vodka, para a festa nunca acabar, e um casaco para dias sem ninguém. O cd, que não funcionava, deu o ar da graça depois da joelhada de uma pequena mas voltou a se calar recentemente. Tento lembrar o nome dela para que possa repetir o golpe.
Vou direto às roupas, mais urgente. Um armário de adolescente me olha com seus bofes pra fora não suportando uma cueca. Tenho que eliminar algo. Ano passado tive a paranóia de ter que tocar com uma camisa nova a cada apresentação. A doidice passou mas me apeguei a elas. Essa do barbudo de óculos, foi a usada para as fotos no estúdio, fica. Essa listrada, deu sorte, fica. Mas a do ferro de passar foi presente, fica também. No entanto só tenho usado outras, lisas, mais agarradinhas ao corpo, aproveitando os dois quilos a menos que mantenho distraído. Melhor recosturar todas então.
Pulo as contas fixas da lista pois estas sei de cabeça, só não as pago sempre por puro masoquismo. Prefiro organizar os planos futuros, inspiradores. Morar sozinho?Um novo possante? Ou a viagem pela América? Mas, calma aí rapaz. Para fazer tudo isso eu não preciso economizar? Desanimo ao olhar o papel que pede minha atenção, implorando com seu espaço em branco um pouco de conteúdo. Mudo o foco. Começo rapidamente uma nova lista com tudo que fiz este ano. Caminho fácil pelo acampamento inédito em ilha grande, pela fantasia inspirada no carnaval e pelos tantos quilômetros em terras estrangeiras. Tive que voltar as montanhas de San Gotardo, lá nos Alpes, para avistar no horizonte o mochileiro curioso que sou e como posso fazer da minha rotina uma nova aventura. Pensando bem, vou deixar a lista pra lá. Muito melhor é encontrá-la dentro de mim.
terça-feira, 23 de junho de 2009
segunda-feira, 15 de junho de 2009
IMIGRANTE SENTIMENTAL
Meu dia dos namorados foi solitário e cansativo. Casais insaciáveis arrancaram meu couro e a aparelhagem da banda, me esgotou a paciência com sua microfonia de araponga descontrolada. Diferente de tantos finais de semana, onde gente saudável e disposta troca telefones e marcam planos para o dia seguinte, vi dois carros passando e uma chuvinha fina cobria a luz numa transparência de lingerie. Ligo?Não ligo?Quero?Não quero?Deixa pra lá. Segui minha sina de imigrante sentimental e fui me esconder no interior do Rio e no interior de mim.
Perdoem-me os amigos pois mentirei a todos eles se insistirem em perguntar sobre a viagem. Falarei sobre a beleza das flores, da energia renovada e dos amores de bolso que deixei por lá. Deturparei valores que gastei, quilômetros que andei e até mesmo a temperatura medida do lado de fora da janela. Só não me peçam fotos e nem busquem testemunhas pois ambas não existem. Meu avô dirá que viu um neto comportado, atualizado em sua sede literária e apto a ser o motorista da família. Minhas primas dirão que mataram a saudade do mochileiro, com histórias mornas pra contar e um saco de dormir cruzado no chão da sala. Meu colega de faculdade dirá que encontrou um cara deslocado, se sentindo velho no show com ex-crianças, tentando fazer de sua companhia um motivo extra para se sentir mais feliz.
O que valeu: Paçoca feita em pilão, crocante e bem batida por muitas mãos. Meu pai com bigode pintado a lápis, acompanhado das suas novas crianças e minha afilhada, desajeitada com a bola. Parentes que não são exatamente meus mas emanam sua sinergia para os demais. Dias sem grandes exageros etílicos.
Agora voltando pela rodovia, entediado da paisagem monocromática, tento não fazer um balanço sobre minhas decisões. Estico a perna para o lado antes que meu companheiro da poltrona ao lado do ônibus chegue. Estou sem saco pra mim mesmo. Mas o ipod também se cansou e arriou suas baterias visto que não tenho outra escolha. Sei que me arrependi de não levar a moça a tira-colo, de não dar chances e exclusividade a quem me quer bem. Ficaram sem dono o chapéu de caubói de brinde que ganhei um par, a maçã do amor pela metade, as frases bonitas das canções que cantei pra ninguém e a brisa gelada, que só existe para unir casais. Nestes dias penso: melhor que ser egoísta, fazer planos solitários e tomar rédeas do destino, é ter alguém para ser ainda mais egoísta com você.
“Oi?Qual é o número do seu assento?Poderia tirar a mochila por favor?Tudo bem, você mora aqui ou ta passeando?Gostou da festa?E o show?Você ta com sono?Tá quieto...”
- Você quer mesmo saber?
Perdoem-me os amigos pois mentirei a todos eles se insistirem em perguntar sobre a viagem. Falarei sobre a beleza das flores, da energia renovada e dos amores de bolso que deixei por lá. Deturparei valores que gastei, quilômetros que andei e até mesmo a temperatura medida do lado de fora da janela. Só não me peçam fotos e nem busquem testemunhas pois ambas não existem. Meu avô dirá que viu um neto comportado, atualizado em sua sede literária e apto a ser o motorista da família. Minhas primas dirão que mataram a saudade do mochileiro, com histórias mornas pra contar e um saco de dormir cruzado no chão da sala. Meu colega de faculdade dirá que encontrou um cara deslocado, se sentindo velho no show com ex-crianças, tentando fazer de sua companhia um motivo extra para se sentir mais feliz.
O que valeu: Paçoca feita em pilão, crocante e bem batida por muitas mãos. Meu pai com bigode pintado a lápis, acompanhado das suas novas crianças e minha afilhada, desajeitada com a bola. Parentes que não são exatamente meus mas emanam sua sinergia para os demais. Dias sem grandes exageros etílicos.
Agora voltando pela rodovia, entediado da paisagem monocromática, tento não fazer um balanço sobre minhas decisões. Estico a perna para o lado antes que meu companheiro da poltrona ao lado do ônibus chegue. Estou sem saco pra mim mesmo. Mas o ipod também se cansou e arriou suas baterias visto que não tenho outra escolha. Sei que me arrependi de não levar a moça a tira-colo, de não dar chances e exclusividade a quem me quer bem. Ficaram sem dono o chapéu de caubói de brinde que ganhei um par, a maçã do amor pela metade, as frases bonitas das canções que cantei pra ninguém e a brisa gelada, que só existe para unir casais. Nestes dias penso: melhor que ser egoísta, fazer planos solitários e tomar rédeas do destino, é ter alguém para ser ainda mais egoísta com você.
“Oi?Qual é o número do seu assento?Poderia tirar a mochila por favor?Tudo bem, você mora aqui ou ta passeando?Gostou da festa?E o show?Você ta com sono?Tá quieto...”
- Você quer mesmo saber?
segunda-feira, 25 de maio de 2009
O SOM QUE VEM DE LÁ
Na terra da laranja tu se espreme, se engarrafa o viaduto, ou quando chega a condução.
Bangu é quente pra caralho Santa Cruz é faroeste, Itaguaí eu nunca vi.
Esquina do pecado é uma beleza, alegria do bicheiro travesti e a igreja,
Prefiro ir pro bloco do Sereno, Água fresca, amendoeira, isso é samba de primeira.
Aqui todo dia chega gente, mas no fundo são parentes ou alguém que eu já vi
Festa do desterro tinha briga, santo Antônio tem garrote, procissão e pescaria
Na terra do vulcão é maravilha, a cachoeira e a trilha pra encontrar nova Iguaçu.
Domingo tem churrasco de alguém, mas se não tiver ninguém, todos tão no Grumari.
Uma hora pra chegar até o centro, de frescão é muito bom se não for final do mês
Quem vai ficar na pista leva o skate, half pipe, free style, o D2 já viu qual é
Calçadão e a bandinha massa, de pastel, caldo de cana, to porta do São Brás
Padeiro, pipoqueiro, troco pinto pelo ouro mas o carro da pamonha resolveu parar.
Bangu é quente pra caralho Santa Cruz é faroeste, Itaguaí eu nunca vi.
Esquina do pecado é uma beleza, alegria do bicheiro travesti e a igreja,
Prefiro ir pro bloco do Sereno, Água fresca, amendoeira, isso é samba de primeira.
Aqui todo dia chega gente, mas no fundo são parentes ou alguém que eu já vi
Festa do desterro tinha briga, santo Antônio tem garrote, procissão e pescaria
Na terra do vulcão é maravilha, a cachoeira e a trilha pra encontrar nova Iguaçu.
Domingo tem churrasco de alguém, mas se não tiver ninguém, todos tão no Grumari.
Uma hora pra chegar até o centro, de frescão é muito bom se não for final do mês
Quem vai ficar na pista leva o skate, half pipe, free style, o D2 já viu qual é
Calçadão e a bandinha massa, de pastel, caldo de cana, to porta do São Brás
Padeiro, pipoqueiro, troco pinto pelo ouro mas o carro da pamonha resolveu parar.
segunda-feira, 18 de maio de 2009
DOMINGO NO SHOPPING
Comprei uma calça azul em Lisboa mas até hoje não sei se gosto dela. Quando recebo um elogio, acho que sim. Quando sou contrariado, acho que não. Mesmo assim fui com ela ao shopping porque havia beijado na boca e estava feliz. Shopping é um lugar muito triste, especialmente aos domingos onde casais sem esperança andam feito elefantes velhos com suas trombas enlaçadas, rumo a qualquer lugar. Reparei nos olhos daqueles moços a cuidar das crias e das suas mulheres gordas que ainda tentam voltar a forma anterior à gravidez. Passeiam arrastando os chinelos, vendo aquilo que não podem ter e construindo sonhos de consumo tão frágeis quanto a promessa de um casamento eterno. Uma das gordas fitou minha calça azul e presumo que tenha, por pura falta de assunto com seu velho diabo, dito algo sobre ela. Fingi que não vi.
Fui a procura do que pudesse preencher as horas vazias do final de semana. A grande pausa modorrenta causada por uma tarde sem jogo do flamengo, nem praia, nem alguém do meu lado despertando sem pressa. Um livro seria bom, ou filme também. Mas o telefone novo tocou no bolso e a moça da flor no cabelo me ligava. Mas não estava feliz comigo. Sob a desculpa qualquer de uma informação que eu teria, vieram cobranças de sentimentos nobres que não tinha para dar. Ela não brigou mas fez pior: baixou a voz e soltou palavras sem valor, numa evidente decepção àquilo que imaginava sobre mim. Não tinha o que dizer nem queria mentir e a menina que prendi uma flor vermelha nos cabelos há tempos atrás se foi no fechar do celular, como numa piscada lenta de criança de castigo.
Havia acabado de perder o que nem cheguei a ter.
Não me lembro se disse que odeio minha calça azul, especialmente quando ela chama atenção para mim quando não quero ser visto. Me senti tão amarrotado e patético que preferi sentar e tomar um chopp, escondido entre colunas da escada rolante. Do meu lado, um daqueles casais, trocavam ofensas e cumplicidade numa profusão delirante. Ele perguntou quem era Mario e tentou arrancar o celular da mão dela. Ela explicou que era do trabalho. Ele perguntou se era melhor que ele na cama. Ela debochou e respondeu que sim. Ele queria mais que sim, queria elogio, queria um pingo de segurança naquele enorme deserto de areia movediça que se tornou sua relação. Bebiam, se ofendiam e me irritavam com seu diálogo de teatro de marionete. Abri minha bolsa de mão e comecei a rever os tickets que trouxe da Europa, tentando encontrar algo novo que prolongasse ainda mais minhas lembranças de momentos recém passados. Encontrei o telefone da portuguesa de bunda grande que dormia na cama de cima em Roma. Encontrei outro que não me lembro de quem era e por último encontrei o dela. A Alemã que se foi em Florença por não gostar de gostar. Me deixou com um beijo sem gosto e um adeus aliviado. Definitivamente não era isto que eu queria neste domingo á tarde. A conta, por favor.
- “Qualquer livro do Pedro Juan Gutierrez”. “Não minha filha, Juan não é com R”. “Antônio Lobo Antunes, tem?”, “Esquece, muito obrigado”. Odeio quando lembro que meu bairro é feito sob medida para gente ignorante. Filme?Só dublado. Livraria?Só uma, e olhe lá. Em contrapartida, torre de chopp e churrasco a quilo tem para todo lado. Mas bem feito pra mim. Quem mandou ir ao shopping?Quem mandou atender o telefone quando não tinha nada a dizer?Quem mandou não cativar alguém para te fazer companhia nos momentos mais sem graças da vida? Os corredores me espremiam com suas vitrines e não tive dúvidas. Disparei com meu carro velho, furando engarrafamento, controlando seu desalinho que sempre o empurra para o lado direito, rumo a qualquer lugar. Praguejava a minha total falta de sorte e só silenciei quando subi o viaduto e vi o céu sorrindo,simples e encantador, misturando as nuvens coalhadas, os montes verdes da Pedra do Rui e os raios de sol, avermelhados no horizonte. Diminui a marcha, a pulsação, a culpa, a vontade de acertar e, aos poucos, fui me encontrando dentro de mim, rindo das urgências que eu mesmo criei. O domingo terminou sossegado, sentado no portão com a minha bonita calça azul.
Fui a procura do que pudesse preencher as horas vazias do final de semana. A grande pausa modorrenta causada por uma tarde sem jogo do flamengo, nem praia, nem alguém do meu lado despertando sem pressa. Um livro seria bom, ou filme também. Mas o telefone novo tocou no bolso e a moça da flor no cabelo me ligava. Mas não estava feliz comigo. Sob a desculpa qualquer de uma informação que eu teria, vieram cobranças de sentimentos nobres que não tinha para dar. Ela não brigou mas fez pior: baixou a voz e soltou palavras sem valor, numa evidente decepção àquilo que imaginava sobre mim. Não tinha o que dizer nem queria mentir e a menina que prendi uma flor vermelha nos cabelos há tempos atrás se foi no fechar do celular, como numa piscada lenta de criança de castigo.
Havia acabado de perder o que nem cheguei a ter.
Não me lembro se disse que odeio minha calça azul, especialmente quando ela chama atenção para mim quando não quero ser visto. Me senti tão amarrotado e patético que preferi sentar e tomar um chopp, escondido entre colunas da escada rolante. Do meu lado, um daqueles casais, trocavam ofensas e cumplicidade numa profusão delirante. Ele perguntou quem era Mario e tentou arrancar o celular da mão dela. Ela explicou que era do trabalho. Ele perguntou se era melhor que ele na cama. Ela debochou e respondeu que sim. Ele queria mais que sim, queria elogio, queria um pingo de segurança naquele enorme deserto de areia movediça que se tornou sua relação. Bebiam, se ofendiam e me irritavam com seu diálogo de teatro de marionete. Abri minha bolsa de mão e comecei a rever os tickets que trouxe da Europa, tentando encontrar algo novo que prolongasse ainda mais minhas lembranças de momentos recém passados. Encontrei o telefone da portuguesa de bunda grande que dormia na cama de cima em Roma. Encontrei outro que não me lembro de quem era e por último encontrei o dela. A Alemã que se foi em Florença por não gostar de gostar. Me deixou com um beijo sem gosto e um adeus aliviado. Definitivamente não era isto que eu queria neste domingo á tarde. A conta, por favor.
- “Qualquer livro do Pedro Juan Gutierrez”. “Não minha filha, Juan não é com R”. “Antônio Lobo Antunes, tem?”, “Esquece, muito obrigado”. Odeio quando lembro que meu bairro é feito sob medida para gente ignorante. Filme?Só dublado. Livraria?Só uma, e olhe lá. Em contrapartida, torre de chopp e churrasco a quilo tem para todo lado. Mas bem feito pra mim. Quem mandou ir ao shopping?Quem mandou atender o telefone quando não tinha nada a dizer?Quem mandou não cativar alguém para te fazer companhia nos momentos mais sem graças da vida? Os corredores me espremiam com suas vitrines e não tive dúvidas. Disparei com meu carro velho, furando engarrafamento, controlando seu desalinho que sempre o empurra para o lado direito, rumo a qualquer lugar. Praguejava a minha total falta de sorte e só silenciei quando subi o viaduto e vi o céu sorrindo,simples e encantador, misturando as nuvens coalhadas, os montes verdes da Pedra do Rui e os raios de sol, avermelhados no horizonte. Diminui a marcha, a pulsação, a culpa, a vontade de acertar e, aos poucos, fui me encontrando dentro de mim, rindo das urgências que eu mesmo criei. O domingo terminou sossegado, sentado no portão com a minha bonita calça azul.
terça-feira, 5 de maio de 2009
REABILITAÇÃO EM RETALHOS
Às vezes acho que percebo demais.
As pessoas cortaram seus cabelos de um jeito diferente e vão agora para uma boate diferente. As ruas estão vazias novamente na segunda mas já me disseram que quarta tem lugar novo para beber. Tentei beber mais e a manhã veio sem consegui. Também não consegui cantar uma música que queria e fiquei rouco no segundo dia. Meu time ganhou e pelo menos este era o mesmo que eu torcia, apesar de ter um atacante novo no gramado. Os amigos estão aparecendo aos poucos. Uns aparecem para saber como foi a viagem, outros só aparecem para contar o que andaram fazendo. Tento fazer um vídeo com as fotos da Europa mas paro para lembrar de como foi e esqueço o vídeo. Amanhã eu faço. Tento organizar os papéis e dar cabo dos vestígios da viagem mas paro para lembrar de como foi e esqueço a organização. Amanhã eu faço. Tento definir uma nova meta para 2010 mas paro para lembrar de como está sendo o ano e esqueço das metas. Amanhã eu faço.
Cantar e transar são dois prazeres que sinto falta. Mas também sinto medo de não saber fazer tão bem quanto imaginava fazer. Estou inseguro comigo mas também satisfeito pelo meu feito. Gozo com a minha própria consciência e durmo em paz. “É muita doideira”; “é muita coragem”; é muito dinheiro”. Ouvi de tudo sobre mochilão. Disse o mesmo sobre gravidez e carro zero. Cada um tem o que merece. Em compensação, se tudo anda solto de um lado, de outro engata-se. Vou trabalhar todos os dias, acordando cedo e me aborrecendo com a rotina imbecil que preciso seguir. Sou o primeiro a chegar e o último a sair. Tenho um mês para a empresa não fechar no vermelho e assim garantir meu emprego que imaginava ser meu. Precisamos de três títulos?Faço treze.
Domingo senti cheiro de bosta e mato. Fui na festa de São Jorge e vi muitos cavalos. Em sua maioria, magros e tristes. Queria comer carne de sol e aipim mas vendo o cavalo magro, desisti. Já bastam as conchas de feijão, os bifes com gordura e a coxinha que repeti sem critério esta semana. Fui surpreendido também por pessoas que não conheço mas que falaram, com olhos atentos, sobre minhas manias loucas enquanto enfrento o público com o microfone na mão. Aliás, conhecer pessoas é algo que tenho feito, não sei se pelo puro vício ou para recuperar o tempo perdido. Lá fora, a cada foto tirada ou cama escolhida, uma pessoa com histórias pra contar aparecia na cabeceira. O iraniano que não explode, a argentina que procura sua família com a foto na mão ou a alemã que se esconde do amor que nunca teve. Todos os dias gente nova, sorrisos inéditos, pedidos inusitados, gente cheia de hipocrisias, de dúvidas, de metas, mentiras e lembranças. Gente como eu. O final de semana foi e deixou uma superlotação na minha memória.
Comprei um presente pra minha mãe que está perdendo a cor e a história. Ela não apareceu para pegar, nem eu fui levar. Comprei outro para minha afilhada, ela não conseguiu montar. Comprei também uma flor para o cabelo da menina que me deu uma foto antes de ir. Pra mim, poucas novidades na mala. Bom mesmo é poder usar roupa velha que ficou nova agora e não as mesmas camisas e calças que esgotaram sua criatividade em combinações. Melhor ainda é me despir da vida que passou e ficar peladão esperando o que ainda virá.
As pessoas cortaram seus cabelos de um jeito diferente e vão agora para uma boate diferente. As ruas estão vazias novamente na segunda mas já me disseram que quarta tem lugar novo para beber. Tentei beber mais e a manhã veio sem consegui. Também não consegui cantar uma música que queria e fiquei rouco no segundo dia. Meu time ganhou e pelo menos este era o mesmo que eu torcia, apesar de ter um atacante novo no gramado. Os amigos estão aparecendo aos poucos. Uns aparecem para saber como foi a viagem, outros só aparecem para contar o que andaram fazendo. Tento fazer um vídeo com as fotos da Europa mas paro para lembrar de como foi e esqueço o vídeo. Amanhã eu faço. Tento organizar os papéis e dar cabo dos vestígios da viagem mas paro para lembrar de como foi e esqueço a organização. Amanhã eu faço. Tento definir uma nova meta para 2010 mas paro para lembrar de como está sendo o ano e esqueço das metas. Amanhã eu faço.
Cantar e transar são dois prazeres que sinto falta. Mas também sinto medo de não saber fazer tão bem quanto imaginava fazer. Estou inseguro comigo mas também satisfeito pelo meu feito. Gozo com a minha própria consciência e durmo em paz. “É muita doideira”; “é muita coragem”; é muito dinheiro”. Ouvi de tudo sobre mochilão. Disse o mesmo sobre gravidez e carro zero. Cada um tem o que merece. Em compensação, se tudo anda solto de um lado, de outro engata-se. Vou trabalhar todos os dias, acordando cedo e me aborrecendo com a rotina imbecil que preciso seguir. Sou o primeiro a chegar e o último a sair. Tenho um mês para a empresa não fechar no vermelho e assim garantir meu emprego que imaginava ser meu. Precisamos de três títulos?Faço treze.
Domingo senti cheiro de bosta e mato. Fui na festa de São Jorge e vi muitos cavalos. Em sua maioria, magros e tristes. Queria comer carne de sol e aipim mas vendo o cavalo magro, desisti. Já bastam as conchas de feijão, os bifes com gordura e a coxinha que repeti sem critério esta semana. Fui surpreendido também por pessoas que não conheço mas que falaram, com olhos atentos, sobre minhas manias loucas enquanto enfrento o público com o microfone na mão. Aliás, conhecer pessoas é algo que tenho feito, não sei se pelo puro vício ou para recuperar o tempo perdido. Lá fora, a cada foto tirada ou cama escolhida, uma pessoa com histórias pra contar aparecia na cabeceira. O iraniano que não explode, a argentina que procura sua família com a foto na mão ou a alemã que se esconde do amor que nunca teve. Todos os dias gente nova, sorrisos inéditos, pedidos inusitados, gente cheia de hipocrisias, de dúvidas, de metas, mentiras e lembranças. Gente como eu. O final de semana foi e deixou uma superlotação na minha memória.
Comprei um presente pra minha mãe que está perdendo a cor e a história. Ela não apareceu para pegar, nem eu fui levar. Comprei outro para minha afilhada, ela não conseguiu montar. Comprei também uma flor para o cabelo da menina que me deu uma foto antes de ir. Pra mim, poucas novidades na mala. Bom mesmo é poder usar roupa velha que ficou nova agora e não as mesmas camisas e calças que esgotaram sua criatividade em combinações. Melhor ainda é me despir da vida que passou e ficar peladão esperando o que ainda virá.
segunda-feira, 27 de abril de 2009
PÁGINA EM BRANCO
Visitei tantas igrejas e túmulos mas perto de Deus mesmo eu me senti voando de volta para o Rio. Foram 8 horas para tentar ordenar o fuso-horário e as batidas do coração. Vi a primeira estrela nascer e parecia que estava ao meu lado. Lembrei do pequeno príncipe e seu planetinha. Não é a toa que o escritor do livro era piloto de avião. Fiquei horas olhando pra ela, assim como eu fazia quando era adolescente e pedi pra Deus uma confirmação de que eu havia tomado a decisão certa. Uma estrelinha cadente me saudou, riscando céu enquanto uma lágrima sem-vergonha pulava do meu olho. Há quase dois meses atrás eu havia abandonado uma banda com poucos fãs mas com muitos amigos, um emprego com alguns êxitos profissionais e uma família orgulhosa deste feito tão maluco. Agora, volto sem dinheiro, sem emprego, com um mundo em crise e cheio de idéias pra realizar. Na verdade eu só troco de mochila e agora carrego nas costas a responsabilidade de pagar minhas dívidas e tentar uma oportunidade neste mercado cheio de amizades e traições.
Vi meu pai me saudar com um sorriso igual ao do meu avô e junto com ele o agente de viagem que me adiantou as burocracias. Sofri com o calor e com a falta de iluminação das ruas e conforme ia me aproximando de campo grande o coração pulava como se estivesse indo visitar uma cidade nova em qualquer lugar da Europa. Família, beijos, presentes em 15 minutos e logo descobri que a banda estava tocando perto de casa. Em um pulo estava lá. Entrei sem ninguém ver e tive que segurar a onda da emoção com a gritaria das pessoas. Ninguém sabia que eu chegaria naquele momento e para todo lugar que eu olhava eu via sorrisos tão bonitos e cheios de saudade que era impossível pensar em problemas. A banda estava lá, com um mais gordo, outro mais barbudo e um som limpo, agradável, feliz. Acabei a noite andando sozinho pelas ruas do meu bairro com saudosismo e observando as coisas ainda com olhar de turista. Fui ao bar que sempre vou, encontrei aos amigos que sempre encontro e cantei as músicas que sempre canto e aos poucos venho compreendendo o quanto importante eu posso ser para as pessoas, cantando, sorrindo ou apenas tomando um chopp e falando besteira. Foram dois meses andando sozinho e agora todo lugar que vou encontro um mundarel de pessoas queridas cheias de saudade. Por falar em mudanças, ainda não consegui me livrar do vício de andar com a máquina fotográfica no bolso e a carteirinha de moedas de todos os dias assim como não me interesso em nada em ligar meu celular e ver televisão.
No domingo reencontrei as pessoas da banda e, junto com minha família, vivemos uma tarde em comunhão onde Marcelo, guitarrista da banda, abriu seu terraço e São Pedro nos presenteou com uma tarde linda que deixava a relva em volta mais verdinha. Fui convidado a ser padrinho de casamento dele o que selou a minha volta e minhas dúvidas quanto ao meu retorno. Agora, sentado neste computador, vivo um misto dos três tempos, onde o saudosismo, a saudade dos lugares e pessoas, a preocupação com o meu futuro e a minha reabilitação no presente me confundem. Tenho um sono permanente dentro deste pijama que vesti durante o dia todo, sem saber exatamente o que fazer. Sinto saudade dos mapas onde eu marcava a caneta o que queria fazer e minha felicidade estava a poucos quilômetros de mim. Quero encontrar pessoas mas não quero explicar nada, quero trabalhar mas me sinto cansado, quero cortar o cabelo mas gosto dele assim, quero começar logo a escrever alguma coisa nesta página em branco que se tornou minha vida daqui pra frente.
Vi meu pai me saudar com um sorriso igual ao do meu avô e junto com ele o agente de viagem que me adiantou as burocracias. Sofri com o calor e com a falta de iluminação das ruas e conforme ia me aproximando de campo grande o coração pulava como se estivesse indo visitar uma cidade nova em qualquer lugar da Europa. Família, beijos, presentes em 15 minutos e logo descobri que a banda estava tocando perto de casa. Em um pulo estava lá. Entrei sem ninguém ver e tive que segurar a onda da emoção com a gritaria das pessoas. Ninguém sabia que eu chegaria naquele momento e para todo lugar que eu olhava eu via sorrisos tão bonitos e cheios de saudade que era impossível pensar em problemas. A banda estava lá, com um mais gordo, outro mais barbudo e um som limpo, agradável, feliz. Acabei a noite andando sozinho pelas ruas do meu bairro com saudosismo e observando as coisas ainda com olhar de turista. Fui ao bar que sempre vou, encontrei aos amigos que sempre encontro e cantei as músicas que sempre canto e aos poucos venho compreendendo o quanto importante eu posso ser para as pessoas, cantando, sorrindo ou apenas tomando um chopp e falando besteira. Foram dois meses andando sozinho e agora todo lugar que vou encontro um mundarel de pessoas queridas cheias de saudade. Por falar em mudanças, ainda não consegui me livrar do vício de andar com a máquina fotográfica no bolso e a carteirinha de moedas de todos os dias assim como não me interesso em nada em ligar meu celular e ver televisão.
No domingo reencontrei as pessoas da banda e, junto com minha família, vivemos uma tarde em comunhão onde Marcelo, guitarrista da banda, abriu seu terraço e São Pedro nos presenteou com uma tarde linda que deixava a relva em volta mais verdinha. Fui convidado a ser padrinho de casamento dele o que selou a minha volta e minhas dúvidas quanto ao meu retorno. Agora, sentado neste computador, vivo um misto dos três tempos, onde o saudosismo, a saudade dos lugares e pessoas, a preocupação com o meu futuro e a minha reabilitação no presente me confundem. Tenho um sono permanente dentro deste pijama que vesti durante o dia todo, sem saber exatamente o que fazer. Sinto saudade dos mapas onde eu marcava a caneta o que queria fazer e minha felicidade estava a poucos quilômetros de mim. Quero encontrar pessoas mas não quero explicar nada, quero trabalhar mas me sinto cansado, quero cortar o cabelo mas gosto dele assim, quero começar logo a escrever alguma coisa nesta página em branco que se tornou minha vida daqui pra frente.
domingo, 19 de abril de 2009
PARQUE DE DIVERSÕES
Suiça, Bruxelas, Amsterdam e Paris. O a roda gigante deu um giro rápido na segunda parcela da viagem. Tantas experiências, tanta gente interessante, que o blog ficou ultrapassado, sumiu na poeira. Fumei um baseado, encontrei amigos, fiz outros, peguei carona, cantei, dormi na mesa de sinuca, perdi vôo, acabou o dinheiro, vi neve, vi a torre eiffel, vi gente doida, mas também me perdi, me arrependi e me diverti. Foram 15 dias frenéticos e agora to aqui, cheio de dor de cotovelo, preparando a alma lentamente pra partir.
Em Lugano, encontrei Roberta e Massud, seu marido. Vi o Lago lindo, comi pratos tipicos, recarreguei as baterias, vi a neve e pisei nela, vi um bambi na rua também. Aprendi sobre o islã com o Massud, que é iraniano e aprendi como mudar de vida, com a Roberta. Foram alguns dias de paz convivendo e repartindo a intimidade com pessoas queridas. Sobrevivi ao frio na boa.
Em Brussle, conheci brasileiros, que me apresentaram a mais brasileiros, que viraram colegas de hostel e depois amigos de verdade. Vi um moinho pela primeira vez, vi córregos como veneza e tomei uma caneca de um litro de Stella Artoir. Fomos pra Bruxelas, dividimos apartamento, roubaram o GPS do carro, fomos a balada, conheci gente pra caramba que inclusive, nos acompanharam pra uma festinha mais reservada. Bruxelas ficou pra trás e seus pontos turísticos sem graça.
Amstersdam estava lotada e linda. Feriado, novos amigos, baseado, bicicleta por todo lado, putas na vitrine e um hotel de quase 100 euros ao dia. O dinheiro se foi e sobrou a mesa de sinuca pra dormir por 15 pilas. Dois Spaces Cakes e dormi feito anjo. Vi um japonës de bigode e o chão parecia batata ruffles. Efeitos da fumaça na cachola.
Paris foi acordar aos pés da torre eiffel. Foi encontrar com gente doida, que dá beijo triplo no metrô mas também conhecer gente amorosa, que dá beijinho e cheirinho a cada esquina. Paris é clássica e linda assim como seu povo. Deixei lá um pouquinho da minha música, tocando no mesmo bairro onde Picasso e Modigliani deixaram sua marca. Ficou uma saudade grande que só não era maior que a expectativa de encontrar com Gustavo em Dublin.
E agora to aqui, vivendo em comunhão com Juliana, Gus e mais um casal que divide apartamente com eles, no qual tornaram-se também amigos de verdade. Adoro estar com eles e sinto uma vontade enorme de ficar. Sinto também que a roda gigante rodou no Brasil. Gente namorando, a banda mandando ver, a família, os amigos, tudo funcionando sem mim. Acho que isso é dor de cotovelo porque a viagem tá no fim e tenho medo de saber o que deixei de ganhar e mais ainda o que perdi. Mas esta é a vida, um parque de diversão cheio de emoções.
Em Lugano, encontrei Roberta e Massud, seu marido. Vi o Lago lindo, comi pratos tipicos, recarreguei as baterias, vi a neve e pisei nela, vi um bambi na rua também. Aprendi sobre o islã com o Massud, que é iraniano e aprendi como mudar de vida, com a Roberta. Foram alguns dias de paz convivendo e repartindo a intimidade com pessoas queridas. Sobrevivi ao frio na boa.
Em Brussle, conheci brasileiros, que me apresentaram a mais brasileiros, que viraram colegas de hostel e depois amigos de verdade. Vi um moinho pela primeira vez, vi córregos como veneza e tomei uma caneca de um litro de Stella Artoir. Fomos pra Bruxelas, dividimos apartamento, roubaram o GPS do carro, fomos a balada, conheci gente pra caramba que inclusive, nos acompanharam pra uma festinha mais reservada. Bruxelas ficou pra trás e seus pontos turísticos sem graça.
Amstersdam estava lotada e linda. Feriado, novos amigos, baseado, bicicleta por todo lado, putas na vitrine e um hotel de quase 100 euros ao dia. O dinheiro se foi e sobrou a mesa de sinuca pra dormir por 15 pilas. Dois Spaces Cakes e dormi feito anjo. Vi um japonës de bigode e o chão parecia batata ruffles. Efeitos da fumaça na cachola.
Paris foi acordar aos pés da torre eiffel. Foi encontrar com gente doida, que dá beijo triplo no metrô mas também conhecer gente amorosa, que dá beijinho e cheirinho a cada esquina. Paris é clássica e linda assim como seu povo. Deixei lá um pouquinho da minha música, tocando no mesmo bairro onde Picasso e Modigliani deixaram sua marca. Ficou uma saudade grande que só não era maior que a expectativa de encontrar com Gustavo em Dublin.
E agora to aqui, vivendo em comunhão com Juliana, Gus e mais um casal que divide apartamente com eles, no qual tornaram-se também amigos de verdade. Adoro estar com eles e sinto uma vontade enorme de ficar. Sinto também que a roda gigante rodou no Brasil. Gente namorando, a banda mandando ver, a família, os amigos, tudo funcionando sem mim. Acho que isso é dor de cotovelo porque a viagem tá no fim e tenho medo de saber o que deixei de ganhar e mais ainda o que perdi. Mas esta é a vida, um parque de diversão cheio de emoções.
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