O Zé Carioca, piriquito do Marcelo não entendeu nada. Olhei pra ele, dei bom-dia, horas depois voltei e dei boa tarde. Com os pés ainda ardendo em bolha e o quarto quentinho, silencioso e escuro foi impossível ter disposição para enfrentar a ventania e o tempo mal humorado que estava lá fora. Perdi o encontro com uma grande e nova amiga mas como uma boa carioca ela vai relevar. Pago um chopp depois moça…Mas exagerei e levantei pelas 16h. Bateu uma cobrança de estar dormindo e perdendo um dia de europa e lá fui eu correndo, querendo ganhar o mundo, sem desperdiçar uma gota. Ia para Sintra mas como estava com o cartão de transportes que valia somente para lisboa resolvi subir o monte e chegar ao castelo de são jorge, que desde a minha chegada, me olhava de rabo de olho lá de cima. De fato uma vista fantástica, ideal para namorar, beijar na boca, mas como estavamos só eu e minha mochila, segui adiante, explorando seus labirintos de paredões e torres. Mais um lindo lugar nesta terra que estou aprendendo a gostar cada dia mais.
Na saída dois casais brasileiros fazendo pose de turista me pediram para tirar umas fotos. “É brasileiro?Carioca?Torce pro mengão?Então senta aí…”Cardiologistas que vieram pra um congresso e estavam aproveitando um tempo vago. Foi bom para pegar dicas precisosas sobre Paris e Roma ealém do incentivo a apertar um baseado em amsterdam. “Bicho, come também um bolo que eles fazem lá. Mais vai devagar que o efeito é lento e prolongado”. Papo bom demais que levou o sol embora e trouxe uma noite gelada. Como me sobrava gás desci até a a esplanada da figueira, vi uns livros usados, experimentei o mal humor típicos dos lusitanos e resolvi voltar ao bairro alto, onde deveria ter aquela hora algum movimento. Antes, fui surpreendido por uma esquina muito cheia com pessoas bebendo na rua, igual ao Rio. Tomavam uma cachacinha, como uma catuaba, feita pelo próprio dono do bar. Uma só já deu o grau e subi de carreira por trás do elevador de santa justa, que prometi nunca mais pagar por ele. Chegando no largo de Camões tentei encontrar o Fernando Pessoa, ou melhor, a estátuta dele que tantos falam. Ela esta na frente do café brasileira. Rodei muito, fui e voltei e a porra do café nem dava sinal. Rodei tanto que entrei no bairro alto e comecei a ver uns bares onde possivelmente mais tarde vai rolar um pancadão. Tava com muita vontade de mijar mas muitos hábitos brasileiros aqui não colam e fazer isso na rua é um deles. Então dei de cara com um botecão onde estava escrito FADO VADIO. Na hora me lembrei dos cães vadios, um grupo de vagabundos adolescentes que eu era componentes. Grandes caras, se estivessem aqui talvez fôssemos presos por baderna ou algo assim. Lá dentro uma brasileira, da minha idade servia os velhos beberrões. O bar era estilo boteco mesmo, mas no meio de tanta coisa chique tinha seu charme. Mijei, bebi umas duas cervejas e desci a ladeira para ir embora. Já estava contente com o rendimento do meu dia mas adivinhe quem fez psiu pra mim?O próprio Fernandinho…nunca li nada dele porque todo pseudointelectual o cita como Deus. Isso me afasta. Deve ser por isso que ele nem sorriu pra foto. Foda-se também. Eu vou pra casa e ele vai passar a noite ali sentado. Amanhã vou para Sintra…ou para o oceanário?Não existe destino melhor que a liberdade de escolhe-lo.
São Marcos, Portugal.
sexta-feira, 6 de março de 2009
quinta-feira, 5 de março de 2009
MILAGRE DE SÃO JERÔNIMO
Agorinha mesmo passou na passarela um brasileiro tremendo de frio, andando de meias pela rua com os sapatos e um saco gigante nas mãos. Era eu. O filho da puta do tênis que custou 200 pratas arrebentou todo o meu pé e foi uma delícia andar com 8 graus na rua somente com as meias compradas no china. Cruzei com uma família de pretos (aqui tem muitos vindos da África), no momento que pequena fazia uma dança daquelas esquisitas na rua mas ninguém via porque ninguém chamava mais atenção que o manco aqui.
O pé começou a doer eram 12h, quando eu havia acabado de desistir de andar adiante na rua da liberdade. Cheguei aos pés do Marquês de Pombal, grande cara que reconstruir Lisboa, e senti uma fisgada no calcanhar. Mas a vista de Lisboa era tão linda que deixei pra lá. Descendo preferir tomar um metro para fazer valer o investimento de 10 euros que tinha feito em um cartão e não havia usado. Nada. Nada de novo. Putz. O portuga me passou a perna. Fui direto para a praça do comércio e me deparei com uma obra em volta de tudo. Putz de novo. Fiquei muito surpreso em ver que o César Maia veio parar aqui. Não me restou alternativa. Depois de comer uns sanduíches feito em casa que tive que dividir com as gaivotas barulhentas na beira do Tejo, peguei um comboio (ônibus) para Belém até agora, o lugar que mais me impressionou.
Tenho fascínio pelo descobrimento do Brasil e não pude conter a emoção ao ver o monumento em homenagem ao descobrimento. Sempre que via nos livros imaginava algo do tamanho natural, sem-gracinha até. Mas foi ver o tamanho do pé do jesuíta ao meu lado para ser tomado por um calafrio instantâneo. Estavam lá todos os personagens que habitavam minha imaginação nas aulas de história do Rosário, onde ainda contavam que os portugueses descobriram o Brasil por engano. Lindo mesmo. Pedi para um japa bater minha foto depois da dica preciosa da minha amiga chilena (“eles são ótimos com máquinas e sempre contam até três antes de bater”) e fiquei ali, parado feito um pau Brasil, contemplando com os olhos vibrantes aquele marco na minha viagem, depois do calo, claro.
Atravessei o jardim, fiz umas fotos sozinho com o timer da máquina porque nenhum adolescente português se ofereceu a fazer e me arrastei para o museu da marinha onde teriam réplicas das naus. Senti falta dos playmobils que eu tinha pois eram tão pequenas que poderiam estar na piscina da minha casa. Frustrado entrei no mosteiro dos Jerônimos pedindo para o santo, que é meio sinistro, ligado a xangô na macumbra, pra dar um jeito na dor que me tiraria do circuito tão cedo. E ele fez. Primeiro pela absoluta beleza que encontrei. Um pátio central, todo e completamente branco, com um pequeno chafariz e gramado no centro. Tive a sensação que iria encontrar um unicórnio a qualquer momento de tão mágico. Era impossível não sentir paz naquele lugar, tanto que me sentei sozinho para observar cada detalhe do que chamam de ponto alto do período Manuelito. Mas o segundo motivo foi ainda melhor. Na saída, agradecendo ao São Jê pela força ouço algo tão familiar que olhei pra trás por impulso. Uma carioca!Legítima, da gema, da Gávea. Ia para o marco do descobrimento. Prometi levar desde que me fizesse companhia até a torre de belém. Fechadão, belezinha, maneiro, e tome gíria.
Isabele é dona de um par de bilhas verdes, um senso de humor maravilhoso e cheia daquela ginga da galerinha do baixo. Dei sorte porque a gaja faz artes e tem muitas idéias para fotos. Falamos do mochilão, o dela terminando pra variar, do Rio, de Lisboa e foto vai e foto vem, já estávamos na torre de Belém, empuleirados no beiral fotografando o início do pôr do sol. Uma hora depois, no comboio, indo de volta a Lisboa, onde eu a apresentaria o resto que ela não viu, justo nesta hora, no meio de tanta gente diferente, com pretos falando seus dialetos e portugueses falando com dentes presos, lembrei de Supertramp e sua aventura no Alaska. “A felicidade só existe quando é compartilhada” escreveu ele antes de morrer. Ela ali de costas, intertida, hora ou outra virava-se pra mim, sacananeando pela grande distância percorrida, com tantos prédios de azulejos passando correndo, me bateu o coração, não por ela claro, mas pela vontade de estar com alguém que se ama.
Fomos coroados com um céu absurdamente azul e muita gargalhada com a confusão da língua em momentos de informação(Você pagou este título no payshop?"O que?PetSohp?Não, nem tenho bicho de estimação"). Amanhã na frente do Mc Donald encontro Isabela novamente para ir ao Castelo de São Jorge, feliz pela amizade instantânea e pelos novos tênis que comprarei. Ah, sim, foi só ela ir embora para eu perceber que além dos calos também haviam duas grandes bolas na sola devido ao tanto tempo andando na ponta dos pés. Quando a família de pretos me viu chegar, cheio de sacos de compras com o tênis na mão, deveriam ter percebido que apesar de estar com meias no chão eu também estava com a cabeça nas nuvens.
São Marcos, Portugal
O pé começou a doer eram 12h, quando eu havia acabado de desistir de andar adiante na rua da liberdade. Cheguei aos pés do Marquês de Pombal, grande cara que reconstruir Lisboa, e senti uma fisgada no calcanhar. Mas a vista de Lisboa era tão linda que deixei pra lá. Descendo preferir tomar um metro para fazer valer o investimento de 10 euros que tinha feito em um cartão e não havia usado. Nada. Nada de novo. Putz. O portuga me passou a perna. Fui direto para a praça do comércio e me deparei com uma obra em volta de tudo. Putz de novo. Fiquei muito surpreso em ver que o César Maia veio parar aqui. Não me restou alternativa. Depois de comer uns sanduíches feito em casa que tive que dividir com as gaivotas barulhentas na beira do Tejo, peguei um comboio (ônibus) para Belém até agora, o lugar que mais me impressionou.
Tenho fascínio pelo descobrimento do Brasil e não pude conter a emoção ao ver o monumento em homenagem ao descobrimento. Sempre que via nos livros imaginava algo do tamanho natural, sem-gracinha até. Mas foi ver o tamanho do pé do jesuíta ao meu lado para ser tomado por um calafrio instantâneo. Estavam lá todos os personagens que habitavam minha imaginação nas aulas de história do Rosário, onde ainda contavam que os portugueses descobriram o Brasil por engano. Lindo mesmo. Pedi para um japa bater minha foto depois da dica preciosa da minha amiga chilena (“eles são ótimos com máquinas e sempre contam até três antes de bater”) e fiquei ali, parado feito um pau Brasil, contemplando com os olhos vibrantes aquele marco na minha viagem, depois do calo, claro.
Atravessei o jardim, fiz umas fotos sozinho com o timer da máquina porque nenhum adolescente português se ofereceu a fazer e me arrastei para o museu da marinha onde teriam réplicas das naus. Senti falta dos playmobils que eu tinha pois eram tão pequenas que poderiam estar na piscina da minha casa. Frustrado entrei no mosteiro dos Jerônimos pedindo para o santo, que é meio sinistro, ligado a xangô na macumbra, pra dar um jeito na dor que me tiraria do circuito tão cedo. E ele fez. Primeiro pela absoluta beleza que encontrei. Um pátio central, todo e completamente branco, com um pequeno chafariz e gramado no centro. Tive a sensação que iria encontrar um unicórnio a qualquer momento de tão mágico. Era impossível não sentir paz naquele lugar, tanto que me sentei sozinho para observar cada detalhe do que chamam de ponto alto do período Manuelito. Mas o segundo motivo foi ainda melhor. Na saída, agradecendo ao São Jê pela força ouço algo tão familiar que olhei pra trás por impulso. Uma carioca!Legítima, da gema, da Gávea. Ia para o marco do descobrimento. Prometi levar desde que me fizesse companhia até a torre de belém. Fechadão, belezinha, maneiro, e tome gíria.
Isabele é dona de um par de bilhas verdes, um senso de humor maravilhoso e cheia daquela ginga da galerinha do baixo. Dei sorte porque a gaja faz artes e tem muitas idéias para fotos. Falamos do mochilão, o dela terminando pra variar, do Rio, de Lisboa e foto vai e foto vem, já estávamos na torre de Belém, empuleirados no beiral fotografando o início do pôr do sol. Uma hora depois, no comboio, indo de volta a Lisboa, onde eu a apresentaria o resto que ela não viu, justo nesta hora, no meio de tanta gente diferente, com pretos falando seus dialetos e portugueses falando com dentes presos, lembrei de Supertramp e sua aventura no Alaska. “A felicidade só existe quando é compartilhada” escreveu ele antes de morrer. Ela ali de costas, intertida, hora ou outra virava-se pra mim, sacananeando pela grande distância percorrida, com tantos prédios de azulejos passando correndo, me bateu o coração, não por ela claro, mas pela vontade de estar com alguém que se ama.
Fomos coroados com um céu absurdamente azul e muita gargalhada com a confusão da língua em momentos de informação(Você pagou este título no payshop?"O que?PetSohp?Não, nem tenho bicho de estimação"). Amanhã na frente do Mc Donald encontro Isabela novamente para ir ao Castelo de São Jorge, feliz pela amizade instantânea e pelos novos tênis que comprarei. Ah, sim, foi só ela ir embora para eu perceber que além dos calos também haviam duas grandes bolas na sola devido ao tanto tempo andando na ponta dos pés. Quando a família de pretos me viu chegar, cheio de sacos de compras com o tênis na mão, deveriam ter percebido que apesar de estar com meias no chão eu também estava com a cabeça nas nuvens.
São Marcos, Portugal
quarta-feira, 4 de março de 2009
PEQUENO E DELICIOSO
- Dorme porque tá um temporal lá fora.
Nem foi preciso o Marcelo me falar de novo. Desde uma semana antes de viajar não dormia sossegado, hoje sim. Logo ao acordar me apaixonei pela primeira vez. O fiambre daqui é inesquecível. No Brasil se chama presunto mas nem dá pra comparar uma coisa e outra.
Arrumadinho, cheirozinho, máquina na mão, dinheiro no bolso e escondido, mochila nas costas. Pronto para embarcar pela primeira vez sozinho mesmo em Lisboa. Nem foi preciso andar muito pra me embananar. Carreguei o cartão do metro achando que era do comboio (trem), não conseguia comprar nada na maquininha inteligente e ainda tentaram me assaltar…é isso mesmo. Pior , foi um portuga. Cercou de um lado, pergunta de outro, mas carioca que sou dei um tapinha nas costas dele e disse simplesmente: valeu irmão!
Fui direto para o Baixo Chiado em direção de um praça linda que tem ali. De longe, o Tejo emoldurava a cidade. Fiquei emocionado com aquilo tudo. No alto, o castelo também me observava. Me lembrei do abrigo nazareno e da caixa d´água em campo grande que sempre estiveram cercando minha casa. Deu vontade de rir sozinho. Fui andando meio sem rumo e logo vi em todo lugar os azulejos portugueses, a arquitetura que tanto temos referencia no Brasil, um mescla de novo e velho, letreiros digitais sob casarões milenares. Segui rumo ao rio imaginando ser aquele o caminho principal mas bastou andar 100 metros para tudo mudar de direção. Um elevador colossal, no meio de prédios, todo de ferro, lindo mesmo, estava com suas portas abertas e sua imponência me chamando. Caro pra dedéu, 3 euros, mas tudo que ele me reservou valeu muito mais que isso.
Depois de muitas tentativas frustradas de tirar uma foto que enquadrasse o castelo de são jorge e a praça de rossio e eu, fui ajudado por um casal de gringos e assim começaram as trocas de máquina naquela torre de babel do elevador. No meio destes tantos uma pequena me pediu para fotografar e em seguida emendamos um papo que terminou quase agora. Fomos percorrendo ruelas do Chiado e da baixa pombalina, entre escombros da igreja e praça de Luis de Camões conversando aliviadamente. Tinhamos os mesmos objetivos sendo que ela indo pra casa e eu chegando na europa. Impressionante como os latino americanos se identificam pelo cheiro. Mesmo com ela hablando seu espanhol legítimo e eu sem arriscar uma palavra que aprendi no cursinho nos demos bem, apesar de não encontrarmos mais o elevador. Já estava satisfeito de ter conhecido Karin, a chilena, mas a Santa Providência move as peças sob esta cidade tão abençoada por santos, e logo em seguida nos encontramos com natália, sob o portal da cidade. A espanhola que falava mais rápido e não entendia bulufas do que eu dizia, mas riamos tanto juntos que me senti em um seriado americano cheio de claquetes rizonhas e sem graça. Paramos no chatô do Chapitô, lá na encosta do castelo, tomando uma breja local e provando uns tapas de bacalhau. Karin ia embora às 21h e fizemos sua despedida sob as luzes da cidade, mirando a ponte vasco da gama ao fundo. Natalia é de Salamanca e me ofereceu prontamente um pouso em sua casa. Prometi aparecer por lá. Assim, cheia de surpresas minha viagem vai ganhando aos poucos novas direções, cada vez mais interessantes. Acompanhei a chilena até seu ponto e nos despedimos como velhos amigos. Nesta hora a baixa já se silenciava, com ventos limpando suas ruas e levando consigo um dia pequeno e tão delicioso quanto fiambre português.
São Marcos, Portugal
Nem foi preciso o Marcelo me falar de novo. Desde uma semana antes de viajar não dormia sossegado, hoje sim. Logo ao acordar me apaixonei pela primeira vez. O fiambre daqui é inesquecível. No Brasil se chama presunto mas nem dá pra comparar uma coisa e outra.
Arrumadinho, cheirozinho, máquina na mão, dinheiro no bolso e escondido, mochila nas costas. Pronto para embarcar pela primeira vez sozinho mesmo em Lisboa. Nem foi preciso andar muito pra me embananar. Carreguei o cartão do metro achando que era do comboio (trem), não conseguia comprar nada na maquininha inteligente e ainda tentaram me assaltar…é isso mesmo. Pior , foi um portuga. Cercou de um lado, pergunta de outro, mas carioca que sou dei um tapinha nas costas dele e disse simplesmente: valeu irmão!
Fui direto para o Baixo Chiado em direção de um praça linda que tem ali. De longe, o Tejo emoldurava a cidade. Fiquei emocionado com aquilo tudo. No alto, o castelo também me observava. Me lembrei do abrigo nazareno e da caixa d´água em campo grande que sempre estiveram cercando minha casa. Deu vontade de rir sozinho. Fui andando meio sem rumo e logo vi em todo lugar os azulejos portugueses, a arquitetura que tanto temos referencia no Brasil, um mescla de novo e velho, letreiros digitais sob casarões milenares. Segui rumo ao rio imaginando ser aquele o caminho principal mas bastou andar 100 metros para tudo mudar de direção. Um elevador colossal, no meio de prédios, todo de ferro, lindo mesmo, estava com suas portas abertas e sua imponência me chamando. Caro pra dedéu, 3 euros, mas tudo que ele me reservou valeu muito mais que isso.
Depois de muitas tentativas frustradas de tirar uma foto que enquadrasse o castelo de são jorge e a praça de rossio e eu, fui ajudado por um casal de gringos e assim começaram as trocas de máquina naquela torre de babel do elevador. No meio destes tantos uma pequena me pediu para fotografar e em seguida emendamos um papo que terminou quase agora. Fomos percorrendo ruelas do Chiado e da baixa pombalina, entre escombros da igreja e praça de Luis de Camões conversando aliviadamente. Tinhamos os mesmos objetivos sendo que ela indo pra casa e eu chegando na europa. Impressionante como os latino americanos se identificam pelo cheiro. Mesmo com ela hablando seu espanhol legítimo e eu sem arriscar uma palavra que aprendi no cursinho nos demos bem, apesar de não encontrarmos mais o elevador. Já estava satisfeito de ter conhecido Karin, a chilena, mas a Santa Providência move as peças sob esta cidade tão abençoada por santos, e logo em seguida nos encontramos com natália, sob o portal da cidade. A espanhola que falava mais rápido e não entendia bulufas do que eu dizia, mas riamos tanto juntos que me senti em um seriado americano cheio de claquetes rizonhas e sem graça. Paramos no chatô do Chapitô, lá na encosta do castelo, tomando uma breja local e provando uns tapas de bacalhau. Karin ia embora às 21h e fizemos sua despedida sob as luzes da cidade, mirando a ponte vasco da gama ao fundo. Natalia é de Salamanca e me ofereceu prontamente um pouso em sua casa. Prometi aparecer por lá. Assim, cheia de surpresas minha viagem vai ganhando aos poucos novas direções, cada vez mais interessantes. Acompanhei a chilena até seu ponto e nos despedimos como velhos amigos. Nesta hora a baixa já se silenciava, com ventos limpando suas ruas e levando consigo um dia pequeno e tão delicioso quanto fiambre português.
São Marcos, Portugal
terça-feira, 3 de março de 2009
CAINDO A FICHA
Vi a Europa pela primeira vez pela greta da janela do chinês ao lado, toda iluminada. Queria ter visto a África mas ele fechou nessa hora. A viagem foi boba, com um gringo de botas de esquiar do meu lado e o desenho da sininho na telinha. Já na fila de imigração foi diferente: a brasileirada toda junta. Muita puta, antes de mais nada. Com tatuagem no pescoço, Dolce & Gabanna na calcinha, tinha de tudo. Pra elas nada, pra mim uma porrada de perguntas. Cada vez que um oficial passava, era questionado. Finalmente achei minha mochila com a bandeirinha do Brasil e também achei o Marcelo, meu amigo brasuca-portuga, no portão de desembarque.
A saída do aeroporto é como São Paulo, com direito a COBAL e tudo. Fomos direto para São Marcos onde este gajo mora e não via nada demais em lugar nenhum. Sangue frio pra conhecer tudo, inclusive a hospitalidade amável do meu amigo. Mais uma volta de reconhecimento pelo bairro onde trabalha e tudo era tão familiar que parecia um passeio pelo Jabour.
Então posso voltar e te dizer tudo de novo: Vi a Europa pela primeira vez na Boca do Diabo, em cascais. Um enorme buraco no meio das rochas, milenares, onde o mar bate cansado sabendo que ali não tem vez. Vi gaivota, vi turista, vi um mar azul escuro absolutamente imponente. E tudo isso ficará na memória pra sempre. Aliás só nela porque as pilhas compradas aqui nem rolaram com a minha câmera. Nenhuma foto. Seguindo para o lugar onde A Europa é mais brasileira, pois o Cabo da Roca é a ponta do nariz do velho continente embicado pra nossas terras. Nada de foto. Porra, nem uma a máquina deixava. Já eram horas sem dormir e tudo incomodava, principalmente minha cueca que, por estarem todas na mala, era frouxa e descia e subia dentro das calças. Só fui esquece-la depois da primeira cerveja no pub onde um gordo brasileiro meio chato comandava o videokê. Ali conheci mais gente que está tentando a vida como pode, vi a união desta galera, um misto de cadeia com BBB, e vi todos reclamando da crise, numa constante intermitente. Eu era o turista, meio sem sal no meio de tantos como eu que acabou cantando “exagerado” sem sucesso, recebendo palmas burocráticas. Deu saudade da minha banda, dos meus amigos e do colo quente. Mas amanhã novas expectativas: irei a lisboa, já troquei as pilhas e encontrarei muitos turistas mochileiros como eu. Ah, também abandonei a cueca em algum lugar e aderi a umas ceroulas quentinhas. Só assim o saco fica quente e não cheio.
Bairro São Marcos, Portugal.
A saída do aeroporto é como São Paulo, com direito a COBAL e tudo. Fomos direto para São Marcos onde este gajo mora e não via nada demais em lugar nenhum. Sangue frio pra conhecer tudo, inclusive a hospitalidade amável do meu amigo. Mais uma volta de reconhecimento pelo bairro onde trabalha e tudo era tão familiar que parecia um passeio pelo Jabour.
Então posso voltar e te dizer tudo de novo: Vi a Europa pela primeira vez na Boca do Diabo, em cascais. Um enorme buraco no meio das rochas, milenares, onde o mar bate cansado sabendo que ali não tem vez. Vi gaivota, vi turista, vi um mar azul escuro absolutamente imponente. E tudo isso ficará na memória pra sempre. Aliás só nela porque as pilhas compradas aqui nem rolaram com a minha câmera. Nenhuma foto. Seguindo para o lugar onde A Europa é mais brasileira, pois o Cabo da Roca é a ponta do nariz do velho continente embicado pra nossas terras. Nada de foto. Porra, nem uma a máquina deixava. Já eram horas sem dormir e tudo incomodava, principalmente minha cueca que, por estarem todas na mala, era frouxa e descia e subia dentro das calças. Só fui esquece-la depois da primeira cerveja no pub onde um gordo brasileiro meio chato comandava o videokê. Ali conheci mais gente que está tentando a vida como pode, vi a união desta galera, um misto de cadeia com BBB, e vi todos reclamando da crise, numa constante intermitente. Eu era o turista, meio sem sal no meio de tantos como eu que acabou cantando “exagerado” sem sucesso, recebendo palmas burocráticas. Deu saudade da minha banda, dos meus amigos e do colo quente. Mas amanhã novas expectativas: irei a lisboa, já troquei as pilhas e encontrarei muitos turistas mochileiros como eu. Ah, também abandonei a cueca em algum lugar e aderi a umas ceroulas quentinhas. Só assim o saco fica quente e não cheio.
Bairro São Marcos, Portugal.
domingo, 1 de março de 2009
CERTEZAS E SUAS ASAS
O preço alto de realizar um sonho é ter que deixar outros sonhos para trás. Aqui na garagem um carro velho me olha, cheio de poeira, querendo fugir feito cão sem dono. No coração, onde acontecia um baile de máscaras, só escuridão e saudades. O quarto, entulhado, cabe tudo que eu quero e só falta espaço pra mim mesmo. Restando 15h para embarcar a incerteza veio puxar meu pé esta noite. Mas agora já era.
Meia grossa, barbeador, presentinhos, camisa do mengão. Tudo socado no mochilão disforme que testo de hora em hora para saber se ultrapassei o limite de quilos exigido no aeroporto. Sei que o mais pesado disso tudo são meus medos, alguns tão íntimos que estão indo guardados no meio das cuecas, amassadinhos. Medo de ficar deprimido, de ser imaturo, de ser rejeitado, de não entender porra nenhuma que aquele grupo de romenos ta tentando me dizer. Um suburbano, criado por vó, cheio de manias e dengos, acaba de abrir mão da popularidade, das noites quentes, dos amassos nas ruas, da cerveja estupidamente gelada, para se aventurar no continente que manda de volta tantos outros suburbanos criados por vó, seja no controle da alfândega ou no destrato feito a povos pobres e ex-colonizados como nós. Ao mesmo tempo, a capacidade que cada lugar daquele tem de nos encantar faz de mim um apaixonado, um desbravador inconseqüente, capaz de se emocionar com os aquedutos de Segóvia, mesmo que eles me lembrem a Lapa.
Acham que eu não vou voltar e me divirto com isso. Fizemos tantas despedidas que nem no meu enterro terão mais palavras dóceis. Ganhei presente, festinha, homenagem ao microfone, declarações contidas de amor. Não mereço nada disso, afinal ninguém sabe que no fundo do peito gostaria de congelar tudo ou fazer que chova 60 dias para que ninguém viva sem mim. Quero estar aqui a cada folha solta desta amendoeira que me observa pela janela. Meu monstro de estimação e o de tanta gente não admite que o tempo passe, a fila ande, enquanto não se está presente. E aquela paquera?E a música nova pra cantar no estúdio?E o título que ficou faltando para o Dia internacional da mulher?É difícil virar de costas, mesmo que por pouco tempo, para tudo que compõe quem sou eu. O jeito está sendo levar um pouquinho disso tudo comigo dando graças a Deus que no coração não tem limite de peso para despachar.
A partir desta terça cada amanhecer será cercado de lugares milenares, línguas esquisitas, manias inéditas, paladares surpreendentes. Experiências tão profundas e ao mesmo tempo tão particulares que ninguém no mundo será capaz de decifrar com tanta precisão. Talvez exista somente uma coisa mais importante que ir ao Parque Guel, fumar um baseado em Amsterdam, andar de bicicleta por Monmatre, ganhar uns euros trabalhando, ou tocar violão no pôr-do-sol do Tejo. Se um dia, brincando aos meus pés, meu filho questionar o quanto foi querido, direi a ele tudo que fiz por aí, e o provarei que nada no mundo é tão bonito e importante que sua existência na minha vida.
Esta é, sem dúvidas, uma viagem para eu encontrar certezas.
*Usarei, na medida do possível, este blog como diário de viagem, registrando minha passagem e as observações sobre os lugares.
Meia grossa, barbeador, presentinhos, camisa do mengão. Tudo socado no mochilão disforme que testo de hora em hora para saber se ultrapassei o limite de quilos exigido no aeroporto. Sei que o mais pesado disso tudo são meus medos, alguns tão íntimos que estão indo guardados no meio das cuecas, amassadinhos. Medo de ficar deprimido, de ser imaturo, de ser rejeitado, de não entender porra nenhuma que aquele grupo de romenos ta tentando me dizer. Um suburbano, criado por vó, cheio de manias e dengos, acaba de abrir mão da popularidade, das noites quentes, dos amassos nas ruas, da cerveja estupidamente gelada, para se aventurar no continente que manda de volta tantos outros suburbanos criados por vó, seja no controle da alfândega ou no destrato feito a povos pobres e ex-colonizados como nós. Ao mesmo tempo, a capacidade que cada lugar daquele tem de nos encantar faz de mim um apaixonado, um desbravador inconseqüente, capaz de se emocionar com os aquedutos de Segóvia, mesmo que eles me lembrem a Lapa.
Acham que eu não vou voltar e me divirto com isso. Fizemos tantas despedidas que nem no meu enterro terão mais palavras dóceis. Ganhei presente, festinha, homenagem ao microfone, declarações contidas de amor. Não mereço nada disso, afinal ninguém sabe que no fundo do peito gostaria de congelar tudo ou fazer que chova 60 dias para que ninguém viva sem mim. Quero estar aqui a cada folha solta desta amendoeira que me observa pela janela. Meu monstro de estimação e o de tanta gente não admite que o tempo passe, a fila ande, enquanto não se está presente. E aquela paquera?E a música nova pra cantar no estúdio?E o título que ficou faltando para o Dia internacional da mulher?É difícil virar de costas, mesmo que por pouco tempo, para tudo que compõe quem sou eu. O jeito está sendo levar um pouquinho disso tudo comigo dando graças a Deus que no coração não tem limite de peso para despachar.
A partir desta terça cada amanhecer será cercado de lugares milenares, línguas esquisitas, manias inéditas, paladares surpreendentes. Experiências tão profundas e ao mesmo tempo tão particulares que ninguém no mundo será capaz de decifrar com tanta precisão. Talvez exista somente uma coisa mais importante que ir ao Parque Guel, fumar um baseado em Amsterdam, andar de bicicleta por Monmatre, ganhar uns euros trabalhando, ou tocar violão no pôr-do-sol do Tejo. Se um dia, brincando aos meus pés, meu filho questionar o quanto foi querido, direi a ele tudo que fiz por aí, e o provarei que nada no mundo é tão bonito e importante que sua existência na minha vida.
Esta é, sem dúvidas, uma viagem para eu encontrar certezas.
*Usarei, na medida do possível, este blog como diário de viagem, registrando minha passagem e as observações sobre os lugares.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
CASA
Lembra você
vestígios de nós dois
respingam pelo chão
centelhas e estilhaços
farelos de pão
Sem fome pra jantar
receitas pra dormir
a vida nega o todo
cadê você aqui?
Lembra você
rotinas que aprendi
retratos que tirei
a luz da sala acesa
pra receber ninguém
Espero que se vá
sem pressa de partir
o mundo é perigoso
me tranque ao sair.
vestígios de nós dois
respingam pelo chão
centelhas e estilhaços
farelos de pão
Sem fome pra jantar
receitas pra dormir
a vida nega o todo
cadê você aqui?
Lembra você
rotinas que aprendi
retratos que tirei
a luz da sala acesa
pra receber ninguém
Espero que se vá
sem pressa de partir
o mundo é perigoso
me tranque ao sair.
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
CÃO CORAÇÃO
Todo coração tem dentro um cão
Cérbero das vias coronárias
Guardião das semanas solitárias
Couro de besta, uivo de leão.
Dentes repousados sobre a presa
Sangue temperando sua certeza
Raiva transbordando a cada não.
Todo coração é mesmo um cão.
Bravo, destemido e corajoso.
Fraco, covarde e melindroso
faminto de qualquer motivação.
Leal, para quem o alimenta.
Fatal, para quem o atormenta
Igual para quem não tem paixão.
Todo coração. Todo coração. Todo coração é cão.
Cérbero das vias coronárias
Guardião das semanas solitárias
Couro de besta, uivo de leão.
Dentes repousados sobre a presa
Sangue temperando sua certeza
Raiva transbordando a cada não.
Todo coração é mesmo um cão.
Bravo, destemido e corajoso.
Fraco, covarde e melindroso
faminto de qualquer motivação.
Leal, para quem o alimenta.
Fatal, para quem o atormenta
Igual para quem não tem paixão.
Todo coração. Todo coração. Todo coração é cão.
Assinar:
Postagens (Atom)