segunda-feira, 18 de abril de 2011
FAST FORWARD FRIDAY
“Uruguaiana né?”. Cem passos até o metrô. Um minuto atrasado. Quantos segundos demoram cada porta ao abrir e fechar? Abre e fecha. Abre e fecha. 8x. 11h17h. Todo dia o mesmo horário. “Bom dia gente”. Coca-cola light de ontem?Bebi e ninguém viu. Ela chegou. Não olhei. Notícias do flamengo. De Realengo. Anoto comprar calça nova na lista que começou segunda. Roupas para o show. Expectativa que dá fome. Ninguém tem biscoito. Word/meus arquivos/repertório. Quanto ta uma hering?Escrevo errado. Google acha. Ela pergunta se vi o email. Hoje tem reunião no cliente. Mais fome. Mais ansiedade. Mais Flamengo. Mais Realengo. Volto na lista e anoto fone de ouvido. Lembro do IPVA. Lembro da nota fiscal do show. Começo a fazer conta do mês e não termino. Melhor achar que tem mais. Falta corrigir todos os layouts. 14H o táxi vem. Mais ansiedade. Mais fome. Não dá para almoçar. Olho a campanha e imagino ganhar a conta. Imagino mais dinheiro. Lembro da lista. Lembro da banda e dos shows. Melhor fazer o repertório. Corrijo rápido. O táxi chegou. Ela está discutindo e vai querer atenção. Quis. Não olhei mas falei. Brinquei. Não vai dar para comprar a calça e vou tocar com a velha. Lembro do lenço novo que comprei. Volto na lista para riscá-lo mas não tinha incluído. Quero riscar alguma coisa. Entro no site da Hering. Alguém me chama no Facebook. Outro alguém. Um terceiro alguém sem foto me ofende. Não tenho tempo para gracinha. Já estão todos prontos. Abro o repertório. Ela pede para corrigir tudo de novo. Outra discussão acontece. A promoção tem um balão. Não acharam um balão?Como assim?Vou verificar. Volto. Abro o repertório. “Você viu o email”Não tinha visto. Estamos atrasados. CTRL C + CTRL V. 7 cópias das mesmas músicas. Deixo por conta do improviso. Levo a mala pra ela. A outra me pede para ir no meio. Não sou cavalheiro e vou no canto. Acordo com riso e com meu ronco. Chegamos na reunião dentro do shopping. Lembro da lista. Toca o telefone. Cadê o baterista?Olá, sou redator da agência. Celular no silencioso. Mando mensagem. Ela começa a falar e ler. Tenho medo de ter erro na apresentação. Falo alguma coisa para descontrair. Bebo água. A mensagem volta com o paradeiro do músico. Outro liga. Número desconhecido também. 17h. Gostam do balão. Lembro da discussão. Bebo água. O diretor parece não gostar. Tudo morno. Começo a imaginar como seriam fora do ambiente de trabalho. Lembro do público que vai me assistir. Quero riscar algo da lista. Será que ali vende brinco?Bebo mais água. To cansado mas não posso. Quero tomar um energético e alguém propõe cerveja. Não vejo loja de calça nem de brinco. Ta escuro. Alguém pergunta da reunião. Tento falar duas vezes mas não querem ouvir porque também querem falar. Bebo cerveja. Elogio o balão. Chega outra cerveja. Falamos todos nos celulares. Ela paga minha cerveja. Tento lembrar o número do ônibus. Ando apressado. Lembro da lista e do fone de ouvido. Lembro que vou tocar em outro lugar. Quero pensar só na banda mas ainda me vem as idéias do balão. O dinheiro na conta. Tem uma sobra e paro para comer. Não sei montar essa merda de sanduíche. Saio da fila. Compro energético mais adiante e fico no ponto. Muita gente e não posso me distrair. O baterista não chegou?Vão falar mal dele. Procuro relaxar no escuro com ar condicionado. Agenda: a,b,c.. lembro do brinco e das fotos com roupas iguais. Lembro da minha barriga com a camisa branca. Pego o repertório na mochila e tento pensar nos improvisos. Durmo. Acordo com a lata caindo no chão. Durmo, acordo e não conheço o lugar. O ônibus pegou outro caminho. Ligo e ninguém atende. Não vou conseguir chegar na passagem de som. Quero colocar o assunto na lista mas tenho que fazer outra lista de obrigações. Mas duas vai ser demais. “Posso descer ali no sinal?”Corre, corre, banho morno, calça velha, lenço novo na mochila. Cadê o baterista? Tem trânsito. “Alô, to quase chegando”. Passo direto no quebra molas. Lembro do velocímetro e da divida com o mecânico. Mais coisa na lista. E o repertório??Ligo para casa. Separa e alguém busca. Tenho que me identificar como vocalista. Ganho um sorriso simpático. Diminuo o passo. Agora sou o cantor. Agora sou o cantor. Falo com ela. Não aquela, agora outra diretora, outra cliente. Sorrio. Olho o espaço. Tem gente esperando mas é pouca. Duas moças lindas. Penso na primeira vez no que vou fazer depois do show. O baterista aparece. Ajudo a carregar tudo. Me mostra a camisa nova e fico com inveja. Chega gente. Me escondo no camarim e me arrumo cedo demais. To ansioso pela segunda vez no dia. Melhor beber de novo. Vou passar o volume de voz atrás do telão. O baterista foi para casa e fico sozinho. Lembro do balão e mando mensagem para saber se ganhamos alguma coisa. Lembro do repertório e ligo para o baterista. Mais gente chegando. Melhor beber mais. Volto ao camarim. Amarro o lenço. Tiro da cabeça porque acho que estou parecendo o Cazuza. Tento lembrar outro jeito de amarrar. Vi o vídeo do youtube. Não consigo. Lembro do email que não li. Chega o guitarrista e o baixista. Falam da passagem de som. Chega o percussionista e fala alguma piada que já conheço. Rio com todos. Não consigo amarrar o lenço. Melhor fazer do meu jeito. “A diretora quer falar com você”. Não a primeira, a segunda. Quer Roberto Carlos. Libera a comida. Lembro que não almocei e não me cabe agora fazer. Vou beber. Ela não quer no palco. Devolvo o sorriso. Chega o baterista de camisa nova. Chegam os convidados. Melhor começar agora?Nem olho pra frente. Apresso. Apresso. Quero sair dali. Olho para a moça. Tem outras moças. O que vou fazer depois daqui?Contagem regressiva. Tlec, tlec, tlec...
segunda-feira, 28 de março de 2011
PAUSE E PARABÉNS
Acordei sem poder acordar. Mas isso pra mim é normal. Tem gente que fica de preguiça na cama e atrasa uns minutinhos no trabalho. Eu também. A diferença é que não escolho o dia que isso vai acontecer. É o meu corpo que determina meus domingos. Tenho catalepsia projetiva, conhecida por paralisia do sono. Nada diferente do que ter o dedo do pé para fora da sandália ou um bico do peito diferente do outro. Cedo ou tarde, a gente se acostuma.
É mais ou menos assim: você acorda e parece que ainda está dormindo. Nada mexe, no máximo, a bolinha preta do olho. Quando pequena minha avó dizia que eu estava deixando de ser uma boneca para virar menina. Já meu irmão mais novo dizia que eu tinha um encosto. Seja como for não me incomodaria tanto de travar se hoje não fosse meu aniversário.
Geralmente tenho estes piripaques depois de um dia cansativo. Mas ontem não saí da rotina. O momento mais emocionante foi ter suturado a língua do gato. Sei da importância que ela tem para os seus banhos, por isso fiquei feliz. Convenhamos: ser veterinária em uma clínica é uma realização pessoal nada agitada. O primeiro a me desejar parabéns foi o Cocoroca, meu cachorro. Chegou com andar de xerife, pernas arcadas e focinho amassado. Ouvi seus passos tilintando no piso. Depois de esperar um afago, em vão, tentou pular na cama, presumindo que eu o ajudaria a subir. Seria um dia perfeito, acordar com seu ronco de batráquio fazendo festinha. Mas quis o destino que eu virasse uma samambaia no dia que completo 26 anos.
Durmo olhando a parede. Nas suas imperfeições sempre vejo formar as mesmas figuras. O Don Quixote, onde sujei com o pé. O carro de corrida, na parte áspera. A silhueta de mulher, na rachadura recoberta pela tinta. Estava olhando para elas quando minha amiga, que divide apartamento comigo, apareceu na ponta dos pés. Como todo mundo, achou que eu estivesse dormindo. Entrou com um cartão na mão, que puder ver que era vermelho. O pendurou no mural e ali ficou, olhando, lendo, revisitando detalhes de fotografias que os olhos insistem em esquecer, só para nos devolver o prazer de sentir uma coceirinha na alma. Isso deveria ter um nome mais bonito que nostalgia. Observá-la assim, neste breve momento de encantamento foi meu melhor presente. Sei que naquele instante o mundo para ela também parou. A parte que o cartão disparou seu jingle eletrônico cantando “parabéns pra você” e ela saiu em disparada, deixa pra lá.
Diz o médico que, para sair deste estado em pause, preciso me concentrar na respiração. Tiro pensamentos da cabeça e foco no ar passeando, oxigenando e saindo, com pressão de calibrador de pneu. Começo a inspirar mas logo lembro da comida descongelando fora da geladeira. Lembro dos amigos que se mobilizaram para ajudar nos preparativos. E lembro de alguém que não poderia lembrar. Alguém que faz meu coração disparar, mesmo teimando em não querer.
Putz. Para as favas a respiração.
Meu celular apitou 18 vezes de meia noite para cá. A cada apito, uma mensagem de texto. Como ociosidade é algo obrigatório agora, calculei a média de amigos que lembraram de mim por hora: 2.57. Não é muito se levar em consideração os parentes e o recado da operadora cobrando faturas esquecidas. Mas não me importo, gosto tanto deles. Em breve estarão misturados, fazendo drinques, arriscando piadas e reiterando os votos de amizade eterna. Do telefone da pizzaria, que entrega depois de meia noite, aos sábados sem grana que amanhecemos jogando baralho, são eles que estão por trás de tudo.
Acabei dando um improvável suspiro, o que me anima a possibilidade de voltar ao normal dentro de algumas horas. Já sinto o pé formigando. Enquanto isso tento bloquear a saudade.Talvez só as figuras inventadas na parede saibam como sinto falta da minha mãe e sua maneira peculiar de me acordar fazendo voltinhas em meu cabelo. Sinto também falta dos gritos de domador de urso do meu pai. Mas se não controlo nem o meu tempo, é muita presunção da minha parte querer controlar o destino. Agora que tenho 26 anos vou olhar para os 30 de rabo de olho tentando não dar ouvido às suas obrigações. Sou veterinária, sou amiga, dona de um cachorro e do meu próprio nariz. Talvez não seja uma boneca e com certeza não tenho um encosto, mas passei a ver com outros olhos essa esquisitice de viver sonhando acordada.
Para C.C.
É mais ou menos assim: você acorda e parece que ainda está dormindo. Nada mexe, no máximo, a bolinha preta do olho. Quando pequena minha avó dizia que eu estava deixando de ser uma boneca para virar menina. Já meu irmão mais novo dizia que eu tinha um encosto. Seja como for não me incomodaria tanto de travar se hoje não fosse meu aniversário.
Geralmente tenho estes piripaques depois de um dia cansativo. Mas ontem não saí da rotina. O momento mais emocionante foi ter suturado a língua do gato. Sei da importância que ela tem para os seus banhos, por isso fiquei feliz. Convenhamos: ser veterinária em uma clínica é uma realização pessoal nada agitada. O primeiro a me desejar parabéns foi o Cocoroca, meu cachorro. Chegou com andar de xerife, pernas arcadas e focinho amassado. Ouvi seus passos tilintando no piso. Depois de esperar um afago, em vão, tentou pular na cama, presumindo que eu o ajudaria a subir. Seria um dia perfeito, acordar com seu ronco de batráquio fazendo festinha. Mas quis o destino que eu virasse uma samambaia no dia que completo 26 anos.
Durmo olhando a parede. Nas suas imperfeições sempre vejo formar as mesmas figuras. O Don Quixote, onde sujei com o pé. O carro de corrida, na parte áspera. A silhueta de mulher, na rachadura recoberta pela tinta. Estava olhando para elas quando minha amiga, que divide apartamento comigo, apareceu na ponta dos pés. Como todo mundo, achou que eu estivesse dormindo. Entrou com um cartão na mão, que puder ver que era vermelho. O pendurou no mural e ali ficou, olhando, lendo, revisitando detalhes de fotografias que os olhos insistem em esquecer, só para nos devolver o prazer de sentir uma coceirinha na alma. Isso deveria ter um nome mais bonito que nostalgia. Observá-la assim, neste breve momento de encantamento foi meu melhor presente. Sei que naquele instante o mundo para ela também parou. A parte que o cartão disparou seu jingle eletrônico cantando “parabéns pra você” e ela saiu em disparada, deixa pra lá.
Diz o médico que, para sair deste estado em pause, preciso me concentrar na respiração. Tiro pensamentos da cabeça e foco no ar passeando, oxigenando e saindo, com pressão de calibrador de pneu. Começo a inspirar mas logo lembro da comida descongelando fora da geladeira. Lembro dos amigos que se mobilizaram para ajudar nos preparativos. E lembro de alguém que não poderia lembrar. Alguém que faz meu coração disparar, mesmo teimando em não querer.
Putz. Para as favas a respiração.
Meu celular apitou 18 vezes de meia noite para cá. A cada apito, uma mensagem de texto. Como ociosidade é algo obrigatório agora, calculei a média de amigos que lembraram de mim por hora: 2.57. Não é muito se levar em consideração os parentes e o recado da operadora cobrando faturas esquecidas. Mas não me importo, gosto tanto deles. Em breve estarão misturados, fazendo drinques, arriscando piadas e reiterando os votos de amizade eterna. Do telefone da pizzaria, que entrega depois de meia noite, aos sábados sem grana que amanhecemos jogando baralho, são eles que estão por trás de tudo.
Acabei dando um improvável suspiro, o que me anima a possibilidade de voltar ao normal dentro de algumas horas. Já sinto o pé formigando. Enquanto isso tento bloquear a saudade.Talvez só as figuras inventadas na parede saibam como sinto falta da minha mãe e sua maneira peculiar de me acordar fazendo voltinhas em meu cabelo. Sinto também falta dos gritos de domador de urso do meu pai. Mas se não controlo nem o meu tempo, é muita presunção da minha parte querer controlar o destino. Agora que tenho 26 anos vou olhar para os 30 de rabo de olho tentando não dar ouvido às suas obrigações. Sou veterinária, sou amiga, dona de um cachorro e do meu próprio nariz. Talvez não seja uma boneca e com certeza não tenho um encosto, mas passei a ver com outros olhos essa esquisitice de viver sonhando acordada.
Para C.C.
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
DIAS DE JANEIRO
É caxias esse janeiro. Quando os meses do calendário se reuniram para organizar a fila, foi ele o primeiro a chegar e o primeiro a levar a bandeira do ano recém nascido. Bem feito. Mal sabia que junto da bandeira vinha uma mala sem alça chamada realização. Dezembro fica com os sonhos. Janeiro os transforma em meta. Vigília, disciplina e providência passam a cozinhar em banho-maria para, um dia, se transformarem em atitude. Janeiro pega fogo, não pelo sol de maçarico lá de fora mas pelas ebulições, aqui dentro. Assisto passivo o pocket show da vida alheia de tudo que não vai acontecer para o resto do ano: 30 dias sem por álcool na boca, 30 dias viajando, 30 dias de namoro.
Janeiro tem inveja das tardes frias de julho, da desimportância de novembro e do humor negro de agosto. Talvez se nessa reunião tivessem comparecido também as estações do ano, as resoluções seriam diferentes. Tudo em seu reino é frívolo e artificial como o bronzeado de domingo. Não se faz amigos, não se encontram amores, tudo que se vê é fruto de miragem causada pela radiação do décimo terceiro salário e a chegada eminente do carnaval. Janeiro não tem árvore, não tem raiz, só pó.
É cheio de marra esse janeiro. Bate no peito para falar de suas posses, afinal, o Rio é só dele. E seguindo o pensamento vale refletir: São Paulo seria das águas de março?Existe uma magnética doida nesta lógica de estado e calendário pois o Rio e o Janeiro alimentam o tesão um pelo outro e chamam o verão para completar a suruba, cujos os filhos, somos nós, cariocas que temos a certeza de morar no melhor lugar do mundo mesmo sem conhecer o outro lado da rua.
Antes que soe contraditório, embora pareça ser, isento as praias em sua concepção natural. Nada tem a ver a ignorância surda das ondas e a benevolência das areias. A praia é o portal onde, regando com champagne, enterramos nosso pedidos, moedinhas e lentilhas, para, uma semana depois, deitarmos semi nus sobre eles. Na mesma areia entregamos nossa alma e oferecemos nosso corpo. O sagrado e o profano junto e misturado.
Quero que janeiro passe em galope e não deixe uma brisa sequer para balançar meu móbile apanhador dos sonhos. Deste mês, que tem o mesmo destino dos aeroportos e a mesma tristeza das estações de metrô, não ficará uma lembrança no porta-retrato, um bilhete colado na geladeira. Não porque os momentos de sol, sal e suor não foram importantes e sim porque todos os anos eles se repetem, repetem, repetem. Janeiros são sempre iguais.
Janeiro tem inveja das tardes frias de julho, da desimportância de novembro e do humor negro de agosto. Talvez se nessa reunião tivessem comparecido também as estações do ano, as resoluções seriam diferentes. Tudo em seu reino é frívolo e artificial como o bronzeado de domingo. Não se faz amigos, não se encontram amores, tudo que se vê é fruto de miragem causada pela radiação do décimo terceiro salário e a chegada eminente do carnaval. Janeiro não tem árvore, não tem raiz, só pó.
É cheio de marra esse janeiro. Bate no peito para falar de suas posses, afinal, o Rio é só dele. E seguindo o pensamento vale refletir: São Paulo seria das águas de março?Existe uma magnética doida nesta lógica de estado e calendário pois o Rio e o Janeiro alimentam o tesão um pelo outro e chamam o verão para completar a suruba, cujos os filhos, somos nós, cariocas que temos a certeza de morar no melhor lugar do mundo mesmo sem conhecer o outro lado da rua.
Antes que soe contraditório, embora pareça ser, isento as praias em sua concepção natural. Nada tem a ver a ignorância surda das ondas e a benevolência das areias. A praia é o portal onde, regando com champagne, enterramos nosso pedidos, moedinhas e lentilhas, para, uma semana depois, deitarmos semi nus sobre eles. Na mesma areia entregamos nossa alma e oferecemos nosso corpo. O sagrado e o profano junto e misturado.
Quero que janeiro passe em galope e não deixe uma brisa sequer para balançar meu móbile apanhador dos sonhos. Deste mês, que tem o mesmo destino dos aeroportos e a mesma tristeza das estações de metrô, não ficará uma lembrança no porta-retrato, um bilhete colado na geladeira. Não porque os momentos de sol, sal e suor não foram importantes e sim porque todos os anos eles se repetem, repetem, repetem. Janeiros são sempre iguais.
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
O QUE VAI E O QUE FICA
O QUE VAI FICAR EM 2010
10 - O retrocesso como motorista arranhando meu carro de todo jeito.
09 - Um sol marcado na minha pele em forma de tatuagem com tristes quelóides.
08 - A resposta negativa que a boliviana deu ao me ouvir dizer que estava de malas prontas para revê-la.
07 - Tudo que eu tive que repetir para a minha avó que já não processa informação tão rapído.
06 - Minha total desorganização financeira que me custou seis meses contando moedas.
05 - O abandono total de aventuras mais distantes mediante ao comodismo da fama barata.
04 - Um projeto de romance que terminou em lágrimas mais amargas que o normal.
03 - Dois ou três seres sem luz que trairam e ofenderam a minha amizade.
02 - Perceber que minha mãe não tem o mínimo talento para assumir este posto.
01 - O destino que fez minha filha nascer, mudou de idéia e quase a levou de volta.
O QUE VOU LEVAR DE 2010
10 - O privilégio de ter o melhor pub do bairro ao lado de casa e fazer parte do seu sucesso.
09 - O pegeout com seu ar condicionado e a trava que faz ele piscar de longe.
08 - Picos nevados, lagos, cidades sagradas, e as mil e uma aventuras nos 3 novos países visitados.
07 - Peso de rapazinho e exame de sangue completo demonstrando que ando comendo menos e melhor.
06 - Shows memoráveis, casas cheias, agenda lotada, lágrimas, assédio, fotos e a Truque subindo a ladeira com velocidade.
05 - As lágrimas que escorreram escondidas com a superação dos 77km de caminhada no Peru em condições precárias
04 - Os momentos de absoluta intimidade e carinhos nos poucos mas sinceros romances que vivi.
03 - Novos amigos de raça, amigos nobres, amigos intensos, doidos, gente que veio pra ficar.
02 - A convicção ao escolher o padrinho da minha filha que acabou me dando uma nova família.
01 - O momento que minha filha nasceu, me olhou nos olhos e tudo fez sentido.
10 - O retrocesso como motorista arranhando meu carro de todo jeito.
09 - Um sol marcado na minha pele em forma de tatuagem com tristes quelóides.
08 - A resposta negativa que a boliviana deu ao me ouvir dizer que estava de malas prontas para revê-la.
07 - Tudo que eu tive que repetir para a minha avó que já não processa informação tão rapído.
06 - Minha total desorganização financeira que me custou seis meses contando moedas.
05 - O abandono total de aventuras mais distantes mediante ao comodismo da fama barata.
04 - Um projeto de romance que terminou em lágrimas mais amargas que o normal.
03 - Dois ou três seres sem luz que trairam e ofenderam a minha amizade.
02 - Perceber que minha mãe não tem o mínimo talento para assumir este posto.
01 - O destino que fez minha filha nascer, mudou de idéia e quase a levou de volta.
O QUE VOU LEVAR DE 2010
10 - O privilégio de ter o melhor pub do bairro ao lado de casa e fazer parte do seu sucesso.
09 - O pegeout com seu ar condicionado e a trava que faz ele piscar de longe.
08 - Picos nevados, lagos, cidades sagradas, e as mil e uma aventuras nos 3 novos países visitados.
07 - Peso de rapazinho e exame de sangue completo demonstrando que ando comendo menos e melhor.
06 - Shows memoráveis, casas cheias, agenda lotada, lágrimas, assédio, fotos e a Truque subindo a ladeira com velocidade.
05 - As lágrimas que escorreram escondidas com a superação dos 77km de caminhada no Peru em condições precárias
04 - Os momentos de absoluta intimidade e carinhos nos poucos mas sinceros romances que vivi.
03 - Novos amigos de raça, amigos nobres, amigos intensos, doidos, gente que veio pra ficar.
02 - A convicção ao escolher o padrinho da minha filha que acabou me dando uma nova família.
01 - O momento que minha filha nasceu, me olhou nos olhos e tudo fez sentido.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
O MEU, O MAR
Aguardo o rosto dela como observo as nuvens. É preciso ter paciência para reconhecer seus rascunhos. Sei que se revelará com sutileza e determinação, a mesma que espero do seu olhar. Vasculho o céu talhado em branco e azul, enquanto, gradativos, o sal e o sol mudam minha cor, o corpo perde a gravidade e meu ouvido se deixa levar pelos mil sinos das profundezas do oceano. Se não fosse pessoa, hoje eu poderia ser o mar.
Gosto da superioridade de sua mão branca gigante que bate em meu peito, insinuando aprovação, a cada vez que tento invadir seus domínios. Gosto das armadilhas de caça que nos pegam pelo pé e nos arrastam para o fundo. Gosto do seu infinito tridimensional. Se mergulho, deserto de areia e corais. Se flutuo, vôo horas sem pisar no chão.
No mar deposito a minha fé, que não tem sexo, nem altar. Um quarto vazio onde jogo todos os desenganos nascidos como ondas para depois viajar até outro continente, onde se chocam, se arranham, se arrebentam e voltam mansos lambendo meus pés em compreensíveis marolas sentimentais.
Ele guarda meu grito de criança, saltando destemido da pedra mais alta. Guarda as conchas que não encontramos para fazer porta-retrato. Guarda as remadas que demos no dia que a tempestade nos trouxe a canoa. Guarda os mesmos peixes que minha mãe desenha até hoje quando encontra uma caneta e um papel em branco.
Minha devoção quase secreta só naufraga quando confundida com pegadas na areia, pôr do sol e amores de verão. Não me importam as praias, os coqueiros, o luar, os sonhos eróticos e as milhões de aquarelas que ornamentam salas de estar e pára-choques de caminhão. Quero um mergulho de alma inteira e corpo inteiro, nada mais.
Até o final do dia o céu permaneceu bordado em nuvens, como um centro de mesa, e nenhum rosto apareceu. Tudo bem. Que o vento leve pra longe um grande amor, mas me deixe o mar.
Gosto da superioridade de sua mão branca gigante que bate em meu peito, insinuando aprovação, a cada vez que tento invadir seus domínios. Gosto das armadilhas de caça que nos pegam pelo pé e nos arrastam para o fundo. Gosto do seu infinito tridimensional. Se mergulho, deserto de areia e corais. Se flutuo, vôo horas sem pisar no chão.
No mar deposito a minha fé, que não tem sexo, nem altar. Um quarto vazio onde jogo todos os desenganos nascidos como ondas para depois viajar até outro continente, onde se chocam, se arranham, se arrebentam e voltam mansos lambendo meus pés em compreensíveis marolas sentimentais.
Ele guarda meu grito de criança, saltando destemido da pedra mais alta. Guarda as conchas que não encontramos para fazer porta-retrato. Guarda as remadas que demos no dia que a tempestade nos trouxe a canoa. Guarda os mesmos peixes que minha mãe desenha até hoje quando encontra uma caneta e um papel em branco.
Minha devoção quase secreta só naufraga quando confundida com pegadas na areia, pôr do sol e amores de verão. Não me importam as praias, os coqueiros, o luar, os sonhos eróticos e as milhões de aquarelas que ornamentam salas de estar e pára-choques de caminhão. Quero um mergulho de alma inteira e corpo inteiro, nada mais.
Até o final do dia o céu permaneceu bordado em nuvens, como um centro de mesa, e nenhum rosto apareceu. Tudo bem. Que o vento leve pra longe um grande amor, mas me deixe o mar.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
OS HERÓIS DO MEU ENCARTE
Tínhamos uma fita. Daquelas que enrolam no cabeçote e só a tampa da caneta é capaz de trazê-la de volta a bobina. Paralamas no lado A e B. Ouvíamos sem o encarte, mas repetíamos o que entendíamos e imaginávamos o resto. Incansáveis, sob a benção da amendoeira na Residência das Flores. Só a bonança do décimo terceiro salário vestido de papai noel me trouxe um aparelho de CD e uns trocados: agora eu poderia cantar todas as canções e ouvir sem gastar ou engasgar. Mas para minha surpresa não haviam letras no encarte pobrezinho. Só fotos coloridas, meia dúzia de novas composições e a ficha técnica. Sem alternativa, me limitei a decorar o que tinha e me abestava em discutir a ficha técnica, como se todos os músicos morassem, e de certa forma moravam, na minha casa.
Tantos verões se passaram e eu agora, de mão estendida e coração atrapalhado, olhava para sua careca branca, seu sorriso juvenil de Buda, sentado na cadeira de rodas não prostrado, mas sim flutuante, de alma elevada. Suas músicas, que tomam minha juventude emprestada para chegar com energia aos ouvidos de tantos outros, finalmente estão personificadas em um rosto, um sorriso, um timbre de voz e meia dúzia de perguntas cordiais e inesquecíveis que eram só para mim. Herbert Vianna apareceu assim, na esquina da empolgação com a minha satisfação pessoal de saber flutuar neste ambiente que vai além de croquetes e bebida de graça. João, seu tecladista me segurou com seus dedos de madeira nobre e me guiou feito escavadeira pelo caminho. Aqueles olhos escondidos no meio de sua barba nublada, preta, branca e cinza, tão pequenos feito leds, enxergam em mim algo que não sei o que é porém sou eternamente grato. Temos sintonia, nas viagens, no palco e no gosto pelo bar que escolhemos beber. Entramos no camarim ao lado onde eu, no intimo imaginava ganhar algum tipo de advertência, ou ser apresentado para algum técnico de som morador da região. Mas não. O compositor de tantas canções que arrebata os sentimentos estava ali, pronto para me conhecer. A diferença sutil deste encontro ou dos demais que o destino poderia me reservar por entre as ruas do Leblon ou em qualquer outra onde todo mundo se sente mais carioca, está nas vias que me guiaram até ali. Foi todo o esforço feito pela música pura, toda a batalha pela canção mais certa, pelo detalhe percebido, além de toda a honestidade oferecida a cada show. Foi tudo isso que me levou a conhecer Herbert Vianna. Contei a ele sobre o primeiro CD que comprei, da minha banda de final de semana, do meu gosto por ver um palco cheio de gente. Pude deseja-lo bom show, pude ouvi-lo dizer que deveria me divertir e como nos encontros mais apaixonados me fugiram todos os argumentos e questões interessantes.Não era uma oportunidade de trabalho. Era fã e ídolo. Aquele homem que a tragédia tentou partir ao meio, possui em torno de sua órbita anéis tão poderosos que desestabilizam até os mais insensíveis cidadãos, incluindo seguranças e empresários.
Nos minutos seguintes chegaram todos os outros do meu encarte. Mais velhinhos, alguns mais carecas, com sua prole e mil assessores, amigos e puxa sacos. Eu sentia uma intimidade solitária por cada um deles e tive que me conter para não puxar assunto sobre seus hobbies e manias. No bololô da empolgação alguns da minha banda furaram o bloqueio e se juntaram a mim. Percebi que não havia regredido quinze anos da minha vida sozinho. Os marmanjos que portam armas de fogo no ofício, arquearam suas sobrancelhas ao ver tantos ícones juntos. Puxaram máquinas, celulares, jogaram sorriso, encolheram os ombros e assistiram ao início de mais um show triunfal de trás pra frente, vendo a intimidade daqueles ídolos de sua época. Lá foram eles, entrando no palco um a um, cada qual com sua crença, com seu herói.
Fiquei ali no back stage, sem ninguém, agora sob a benção da Universidade Rural e seus prédios centenários. O contra-regra observava da rampa que dá acesso ao palco e certamente subjugou aquele cara despenteado e sanguessuga de famosos, que aproveitava seus últimos segundos de fama na área vip. Mal sabia ele que aquele era só um garoto, rebobinando sua felicidade, mais uma vez.
Tantos verões se passaram e eu agora, de mão estendida e coração atrapalhado, olhava para sua careca branca, seu sorriso juvenil de Buda, sentado na cadeira de rodas não prostrado, mas sim flutuante, de alma elevada. Suas músicas, que tomam minha juventude emprestada para chegar com energia aos ouvidos de tantos outros, finalmente estão personificadas em um rosto, um sorriso, um timbre de voz e meia dúzia de perguntas cordiais e inesquecíveis que eram só para mim. Herbert Vianna apareceu assim, na esquina da empolgação com a minha satisfação pessoal de saber flutuar neste ambiente que vai além de croquetes e bebida de graça. João, seu tecladista me segurou com seus dedos de madeira nobre e me guiou feito escavadeira pelo caminho. Aqueles olhos escondidos no meio de sua barba nublada, preta, branca e cinza, tão pequenos feito leds, enxergam em mim algo que não sei o que é porém sou eternamente grato. Temos sintonia, nas viagens, no palco e no gosto pelo bar que escolhemos beber. Entramos no camarim ao lado onde eu, no intimo imaginava ganhar algum tipo de advertência, ou ser apresentado para algum técnico de som morador da região. Mas não. O compositor de tantas canções que arrebata os sentimentos estava ali, pronto para me conhecer. A diferença sutil deste encontro ou dos demais que o destino poderia me reservar por entre as ruas do Leblon ou em qualquer outra onde todo mundo se sente mais carioca, está nas vias que me guiaram até ali. Foi todo o esforço feito pela música pura, toda a batalha pela canção mais certa, pelo detalhe percebido, além de toda a honestidade oferecida a cada show. Foi tudo isso que me levou a conhecer Herbert Vianna. Contei a ele sobre o primeiro CD que comprei, da minha banda de final de semana, do meu gosto por ver um palco cheio de gente. Pude deseja-lo bom show, pude ouvi-lo dizer que deveria me divertir e como nos encontros mais apaixonados me fugiram todos os argumentos e questões interessantes.Não era uma oportunidade de trabalho. Era fã e ídolo. Aquele homem que a tragédia tentou partir ao meio, possui em torno de sua órbita anéis tão poderosos que desestabilizam até os mais insensíveis cidadãos, incluindo seguranças e empresários.
Nos minutos seguintes chegaram todos os outros do meu encarte. Mais velhinhos, alguns mais carecas, com sua prole e mil assessores, amigos e puxa sacos. Eu sentia uma intimidade solitária por cada um deles e tive que me conter para não puxar assunto sobre seus hobbies e manias. No bololô da empolgação alguns da minha banda furaram o bloqueio e se juntaram a mim. Percebi que não havia regredido quinze anos da minha vida sozinho. Os marmanjos que portam armas de fogo no ofício, arquearam suas sobrancelhas ao ver tantos ícones juntos. Puxaram máquinas, celulares, jogaram sorriso, encolheram os ombros e assistiram ao início de mais um show triunfal de trás pra frente, vendo a intimidade daqueles ídolos de sua época. Lá foram eles, entrando no palco um a um, cada qual com sua crença, com seu herói.
Fiquei ali no back stage, sem ninguém, agora sob a benção da Universidade Rural e seus prédios centenários. O contra-regra observava da rampa que dá acesso ao palco e certamente subjugou aquele cara despenteado e sanguessuga de famosos, que aproveitava seus últimos segundos de fama na área vip. Mal sabia ele que aquele era só um garoto, rebobinando sua felicidade, mais uma vez.
terça-feira, 14 de setembro de 2010
METABOLIZANDO O AMOR
Atrás de suas lentes cor de mel existia uma verdade quando dizia me amar. Eu sempre acreditei que esta era sua intenção. Meu silêncio a fazia desviar o olhar, na momentânea falta de reciprocidade. Mal sabe ela que a amei, desde o primeiro sexo, desde o primeiro riso de bêbado. Nunca a disse porque minhas palavras em sua sopa de letrinhas se embaralhavam e acabavam por ganhar outro significado. Aliás, foram quatro meses onde nossas freqüências se atropelavam e as discussões ganhavam conotação de duas rádios piratas disputando o mesmo canal.
Assim como a morte de uma fada apaga uma estrela do céu, acredito que Deus castigue quem negue uma paixão. O meu calvário foi me interessar por situações impossíveis onde nem o estudo do genoma daria jeito. Comecei a ter gosto estranho pelo adverso, a admirar o paladar do pecado, me viciei nos venenos mais salgados e, numa das manhãs, me vi incapaz de viver com o coração em paz. Pelo sistema de câmeras da consciência dá pra notar o quanto crio meus próprios monstros e medos. A menina das lentes de mel surgiu assim.
Onde hoje é só terra arrasada plantei com as mãos algumas mudas de esperança. Trouxe para dentro da roda uma personagem de outra cor e outra forma, que causou inveja e espanto. A minha menina tinha um poder intocável e seu farol alto cegava toda as outras belezas. Nem nos momentos de fúria deixei de admirar sua natureza perfeita. Mas logo o tecido adiposo da vaidade se instalou em nossa relação, deixamos espaço para a voz alheia e tudo começou a terminar.
Lamento não ter amado com o coração e sim com o fígado. Explico: amar com o coração é jogar tudo numa enorme sala e deixar a panela de pressão gritar pelo seu peito, sentir a temperatura mudar e o sangue cozinhar. Amar com o fígado é metabolizar, filtrar e condensar os sedimentos numa tentativa de descobrir o que é vitamina e o que é excremento. Éramos tão diferentes, tão poderosos e tão amados pelos nossos que seria impossível equalizar os batimentos nessa entrega juvenil. Percebi que éramos amantes e amigos de verdade somente quando estávamos sozinhos, quando os instintos trocavam nossas palavras por afeto e o silêncio do quarto descia seus lençóis sobre nós. Sinto uma saudade chuvosa quando lembro dela tão à vontade, sem público, sem dizer nada, vestida para dormir ou comprar pão. Esta era a minha menina das lentes de mel.
Nosso projeto de amor perdeu seus nutrientes pela minha implicância, pela sua vaidade e pela vida que escolhemos levar. Talvez ela necessite de um jardineiro para, todos os dias, regar seus jardins. Talvez eu precise de alguém que pense somente em aproveitar a viagem do meu lado. A dois dias suas mãos fugiram das minhas deixando marcas de ciúmes e acusações levianas. Não tive mais forças para segurá-la perto de mim e agora me abano no vento como uma bandeira sem navio, sem mastro e sem propósito. Espero que a minha filha, com sua fragilidade cativante, me ensine a ser novamente subserviente aos caprichos femininos e um dia eu compreenda porque, todas as vezes que a menina das lentes de mel entrava no meu carro, me servindo do seu melhor sorriso, perguntava o porque da cara de bobo. Talvez o amor tenha que ser sempre acompanhado de elogios fartos ou talvez, por ver somente sua própria imagem refletida nas minhas retinas, ela nunca tenha lido aquilo que meus olhos queriam dizer.
Assim como a morte de uma fada apaga uma estrela do céu, acredito que Deus castigue quem negue uma paixão. O meu calvário foi me interessar por situações impossíveis onde nem o estudo do genoma daria jeito. Comecei a ter gosto estranho pelo adverso, a admirar o paladar do pecado, me viciei nos venenos mais salgados e, numa das manhãs, me vi incapaz de viver com o coração em paz. Pelo sistema de câmeras da consciência dá pra notar o quanto crio meus próprios monstros e medos. A menina das lentes de mel surgiu assim.
Onde hoje é só terra arrasada plantei com as mãos algumas mudas de esperança. Trouxe para dentro da roda uma personagem de outra cor e outra forma, que causou inveja e espanto. A minha menina tinha um poder intocável e seu farol alto cegava toda as outras belezas. Nem nos momentos de fúria deixei de admirar sua natureza perfeita. Mas logo o tecido adiposo da vaidade se instalou em nossa relação, deixamos espaço para a voz alheia e tudo começou a terminar.
Lamento não ter amado com o coração e sim com o fígado. Explico: amar com o coração é jogar tudo numa enorme sala e deixar a panela de pressão gritar pelo seu peito, sentir a temperatura mudar e o sangue cozinhar. Amar com o fígado é metabolizar, filtrar e condensar os sedimentos numa tentativa de descobrir o que é vitamina e o que é excremento. Éramos tão diferentes, tão poderosos e tão amados pelos nossos que seria impossível equalizar os batimentos nessa entrega juvenil. Percebi que éramos amantes e amigos de verdade somente quando estávamos sozinhos, quando os instintos trocavam nossas palavras por afeto e o silêncio do quarto descia seus lençóis sobre nós. Sinto uma saudade chuvosa quando lembro dela tão à vontade, sem público, sem dizer nada, vestida para dormir ou comprar pão. Esta era a minha menina das lentes de mel.
Nosso projeto de amor perdeu seus nutrientes pela minha implicância, pela sua vaidade e pela vida que escolhemos levar. Talvez ela necessite de um jardineiro para, todos os dias, regar seus jardins. Talvez eu precise de alguém que pense somente em aproveitar a viagem do meu lado. A dois dias suas mãos fugiram das minhas deixando marcas de ciúmes e acusações levianas. Não tive mais forças para segurá-la perto de mim e agora me abano no vento como uma bandeira sem navio, sem mastro e sem propósito. Espero que a minha filha, com sua fragilidade cativante, me ensine a ser novamente subserviente aos caprichos femininos e um dia eu compreenda porque, todas as vezes que a menina das lentes de mel entrava no meu carro, me servindo do seu melhor sorriso, perguntava o porque da cara de bobo. Talvez o amor tenha que ser sempre acompanhado de elogios fartos ou talvez, por ver somente sua própria imagem refletida nas minhas retinas, ela nunca tenha lido aquilo que meus olhos queriam dizer.
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