quinta-feira, 26 de julho de 2007

ADOTE UM CARRO VELHO

Quem dirige sabe: todo carro tem alma. Mesmo que seja alma penada. Quando passo na frente do Ceará Automóveis eles me olham com faróis baixos, mendigando atenção. Estão abandonados, fadados ao esquecimento. Porém a esperança se renova: Se as pessoas estão sendo capazes de usar calça legging e ouvir ursinho blau-blau novamente, quem sabe andar de Fiat 147 volte a ser onda?

Para os que estão engajados neste movimento de ressocialização das banheiras e caixote com roda ou que simplesmente são simpatizantes, aperte o cinto – ou, se o encaixe estiver com defeito, deixe ele por cima do corpo, só pra polícia não encrencar.


TERMINOLOGIA - Antes de qualquer coisa esteja por dentro da linguagem. Carros com Injeção eletrônica e direção hidráulica são heresias por aqui. Peça um fusca joaninha ou fafá de Belém ou até um gol chaleira ou batedeira. As peças também acompanham o modelo, por isso prepare-se para encomendar uma cebolinha, um brinco de crioulo ou focinho de porco na loja.

DESIGN E TECNOLOGIA – Uma preocupação a menos: quase todos são quadrados, portanto concentre-se nas cores. Estereótipos como brasília amarela e fuscão preto não estão com nada. Prefira tons ousados como azul-cor-de-geladeira e abóbora-siri-cozido.

INVESTIMENTO – Carro velho é fácil de negociar. Na loja, o décimo terceiro cobre, porém a melhor barganha é comprar de um amigo podendo pagar as parcelas com bicicleta de corrida sem pneu, impressora com defeito e gaiola de passarinho sem o bicho dentro.

ACESSÓRIOS – Qualquer peça você encontra, menos as originais. Portanto a ordem é soltar a imaginação. Numa emergência substitua tanque por garrafa pet, cabo de aço por verganhão, gasolina por conhaque. Faça uma pesquisa rápida de mercado e também adapte acessórios extras, agregando valores ao veículo. Aos poucos você vai perceber que criou modelos exclusivos como CheVectra, MonzAstra e FusKa. Status garantido.

CONFORTO – Não tem muito, porém compensa na hora da pegação. Primeiro: fica fácil pular para o carona alegando que o banco não reclina mais, sendo muitas vezes uma verdade. Segundo: Qualquer dano no estofado, no retrovisor ou amasso do caput é barato consertar. Terceiro: o desembaçador está sempre quebrado e a privacidade garantida.

SAÚDE – De três em três meses ele pára de funcionar te fazendo caminhar obrigatoriamente ou esbandalha peças inimagináveis, te colocando em posições constrangedoras, bem parecido com pilates. Por último, charanga que se preze sempre pega no tranco, o que te deixa sarado de empurrar, principalmente se estiver na frente da boate ou na hora do rush.

O último foi um Escort 89 vermelho-cereja que piscou pra mim. Já vem com motor refeito e muitas ausências de série, como maçaneta, bateria e esguicho d’água. Já foram quatro até hoje, afinal como diria meu pai, carro-velho só te dá uma alegria maior que a hora de comprar: a hora de vender.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

SENTIMENTO COLETIVO

*Minha primeira crônica, escrita exatamente há 5 anos atrás.


Cheio daquela multidão suarenta, ameaçadora da tranqüilidade alheia que sarra e é sarrada, o coletivo rebola, treme, bagunça nossa relação com a condução do dia-a-dia. Mais que meio de transporte, ele é palco, é praça, é pedacinho da vida para muita gente. Não existe opinião pública que exclua a de dentro dos ônibus. Naquela de mentirinha, formada por quem diariamente lê jornal, destrincha o caderno de economia e discute sobre o plano de governo dos candidatos a presidência, não existe espaço para erro, ninguém acrescenta nada, no máximo, diverge opinião. Ao contrário do vox populi, mais conhecido como opinião de geral. “Anda geral dizendo”, assim começa todo caô. No entanto a gente acaba acreditando, ora por falta de saber mesmo; ora por ceder a insistência. Pouco importa que seja uma fórmula da bomba atômica, DNA, estratégias, geral sabe de tudo. Alguém diz que viu, que tem parente que estava lá, outro jura pela felicidade dos filhos, cada um tentando convencer de sua maneira. Os mais assustadores são os loroteiros de morro, reféns das inversões de valores, que falam dos bandidos como as tietes de seus ídolos. “Tinha que vê Elias, ali na banguela, trepado com uma bereta, escoltado por Boquinha e Leitão”. É sinistro amigo. O amor também pega carona nessa caravela contemporânea e as metades andam juntas, apertadinhas. Principalmente quando a garganta coça e o dinheiro da passagem paga a gelada. Passar os dois agarrados no mesmo espaço da roleta, também é uma forma de amar. E se ama muito, duas, três pessoas... a fidelidade está entre o indicador parando ônibus e a cigarra laranja soando a despedida. Se pula a roleta, ou melhor a cerca, inclusive nos frescões executivos de vidro fumê. Nele se ama no colo, de lado, com a cortina fechada e até se ama sozinho, espiando e imaginando pelas janelas da Zona Sul. No ônibus muitos amam calado, se olham por entre os reflexos dos vidros, desafiando maridos ou esperam pacientemente no último segundo da partida, o agradecimento de rabo de olho. São perseguições de mãos, sorrisos e carinhos gratuitos, declarações de amor quase desapercebidas. Assim foi o trocador que observava a menina todo dia, e quando ninguém viu, chamou o ambulante para oferecer anonimamente a balinha do coração a ela. A moça iludida procurou seu sonho, olhou para trás e passou a vista direto do galã, que nem se importou, valeu ser o admirador sem rosto. Desdigo quase tudo que disse ao comentar de viagens longas na condução. Os relacionamentos são monogâmicos, se constitui outra família. Na sexta sempre tem pagode, a celebração ao fim de semana, o motorista pára certo no botequim que a rapaziada gosta de calibrar, também fazem tática, guardando o lugar para os amigos. São personagens que falam alto, xingam, liberam toda opressão sofrida durante o dia. O pessoal da limpeza, a menina do sacolão, o segurança, estão todos reunidos espantando a descrença por dias melhores. Parecem crianças cortando a rotina numa excursão barulhenta . E chamar de família não é exagerar, já tive presente em aniversários de trocador, fiscal e passageiro, com direito a bola, salgado, bolo e parabéns. Tudo negociado na vaquinha, sorte de quem faz aniversário no começo do mês quando dá para arrancar mais dinheiro da galera. Um coro para quem se despede reforça a aliança coletiva e diz nas entrelinhas “amanhã tem mais” e apesar de querer paz para admirar a escuridão das ruas e descriminar a turba, dá uma inveja quando desço sozinho na Estrada do Monteiro e nem ouço, pelo menos, tchau.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

EU ESCREVO PRA VOCÊ. VOCÊ ESCREVE PRA MIM

Eu e Liu Brito topamos o desafio de inverter os papéis. Cada um devia escrever sobre a presença do sexo oposto dentro de sí. Eu encarei a meia-calça, ela calçou a botina. O resultado você vê agora...



SEJIS HOMI! Por Liu Brito

Invadindo um blog de menino para tentar escrever alguma coisa que não choque o público do meu querido e talentoso amigo Aru.
Foi assim que resolvi escrever sobre as vezes que paro diante do espelho e digo:
-Nossa, tô parecendo um homem...
Não me entendam mal, na aparência e no gestual sou tão feminina que até pareço uma bicha. Estou falando mesmo de comportamento.
Meu cabeleireiro diz que sou mais homem que ele, o que não é muito difícil, mas ele justifica dizendo que sou bem humorada demais pra ser mulher. Ora bolas, as mulheres não são mal humoradas, levam esta fama por causa da maldita TPM. Experimente ter uma maré de hormônios, que muda de acordo com a lua e depois falamos sobre humor regular.
Bem, mas verdade seja dita, às vezes sou muito homem mesmo e por isso não tolero homem mulherzinha, esses que fazem charminho pra ligar, só ligam na terça, porque se ligar no Domingo vai parecer que está apaixonado, me poupem.
Outro exemplo de Homem mulherzinha é aquele tipo que liga no meio da noite pra ex-namorada porque bateu saudade e inventa uma desculpa esfarrapada qualquer, ah, seja homem meu filho.
Sou muito homem pra ligar pra quem eu quiser e fazer um convite. Azar dos que dizem não. Afinal, homem que é homem não tem medo de porta na cara.
As mulheres conquistaram o sagrado direito de dizer o que querem e como querem, coisa que os homens já fazem há milênios, então antes que eu me esqueça, as mulheres gostam sim de sexo oral, desde que bem feito, ok? Pra fazer de qualquer jeito, melhor não.
E por falar em ser homem, de uma vez por todas, acabou aquela história de mulher achar que todos os homens podem ser o potencial homem da sua vida. Hoje em dia, as mulheres já conseguem colocar os homens em suas devidas gavetinhas. Cada um na sua. Tem gaveta para amigo, gaveta para potenciais, gaveta de ex e principalmente, gaveta para equilibrador hormonal, isso mesmo, porque toda mulher precisa de um.
Antes que eu me esqueça, mulher quer ser respeitada, em todos os aspectos, então por favor, cuidem bem das suas cuecas e pensem muito antes de puxar uma mulher pelo braço sem tê-la levado pra jantar, depois até pode e pelo amor de Deus, mudem a ordem da entrevista, qual seu nome, o que você faz e onde você mora, já basta no senso.
Então fica certo assim, me dá seu telefone e se eu quiser ligo logo no Domingo, se eu não ligar, esquece. Minha cor predileta? Verde. Livro? Vários, inclusive o pequeno príncipe (o Aru também leu). Bicho nojento? Cobra, tolero as baratas. Time? Vitória. Não tenho diário e adoro ser solteira, ser casada e namorada também, tudo depende de com quem.
E aí? Vai encarar?

mais textos da autora no blog www.todaprosa.blogspot.com

MENTIRAS DE SALTO ALTO por Aruanã Bento

Por dentro de um grande homem existe uma grande mulher.
É ela quem cochicha no meu ouvido os compromissos marcados duas semanas antes, o presente certo e as palavras secretas que só podem ser ditas quando as mãos se tocam pela primeira vez. Moramos no mesmo corpo mas não é sempre que a vejo. A última vez foi na despedida de um amigo que acabei chorando no saguão do aeroporto. É minha porção mulher quem brinca com o cachorro, me livra invariavelmente do mau-humor, e consegue, nas formas das nuvens ou na espuma do shampoo, descobrir desenhos, imaginar coisas.

No dia-a-dia de redator publicitário que preciso tirar a gancho minha criatividade, a porção feminina me salva e busca em sua habilidade de pensar mil coisas e assimilar mil palavras, associações fantásticas, que se transformam em títulos impossíveis de não ler. Foi com ela que também descobri como o azeite valoriza a comida, como o vinho seco pode ter tanta complexidade em aromas e texturas, como identificar as pessoas através de seu signo e, principalmente, como o sexo oral se torna um grande coringa se estiver situado entre a paciência de um monge e a obediência de um cão-sem-dono.

Olhando assim fica difícil de imaginar, mas até a porção mulher é capaz de mentir.

“Você gostou da minha unha?Ah, que fofo!Tenho tatuagem sim, adoro. Nossa temos muito em comum. Podemos marcar, adoro jantar no japonês. Cara, você é muito especial, me amarrei na sua...como amigo”.

Desde que me entendo por gente procurei fazer coisas que realmente tocassem as mulheres, que estivesse dentro dos seus sonhos mais distantes. Acreditei que elas gostassem de homens com senso de humor, com conteúdo e sensibilidade para percebê-las como nenhum outro. Tolice. Assim como todas as outras, minha porção mulher passou a vida me mostrando o cara que ela pretendia gostar e não quem ela realmente gostava.

Por isso, decidi faz tempo não dar ouvido a minha voz feminina interior e, aos poucos, silenciou-se. Hoje não me procura mais.

Sozinho, invado noites atrás de diversão e as vejo batendo cabeça, ou como diria Liu Brito, na vitrine. Todas seguem a mesma tática pelas mesmas finalidades e seguem trocando blefes por beijos. O primeiro e mais duro golpe que aprendi foi que, para conquistar uma mulher é preciso, antes de tudo, ignorá-la. Depois de milênios presa dentro das cavernas, as moças conquistaram seu direito de caçar mas ainda não sabem usá-lo: são fantoches nas mãos masculinas calejadas na arte da conquista. Andam, passam, esbarram, olham, insinuam, como cardumes que disputam quem será comido primeiro pelos tubarões.

Sem minha porção mulher me olho no espelho e me sinto um nômade que usa, gasta uma terra e depois a abandona, mas tenho a convicção que não poderei mais reencontrá-la sozinho. Preciso da cumplicidade de alguém, que saiba dar colo e ganhar colo, que aceite convite e também os faça, que me traga elogios e críticas novas, que me surpreenda com girassóis em um dia de chuva. Alguém que saiba rir de si mesmo e não se importe em anoitecer na Lapa e amanhecer no Arpoador. Alguém que não dance apenas para os outros, que tenha ambições profissionais, pessoais, sexuais e, principalmente, que goste de si próprio. Quem sabe assim uma dia eu acorde e volte a ouvir no meu ouvido novamente uma voz sussurrando: “Acorde mocinho. Você precisa estar bem bonito para reencontrar o amor da sua vida”.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

DEVANEIOS ENTRE PORRES E PALAVRAS

Troquei o computador pelo papel de mesa. Isso é grave. Mas, desde criança, amanheço com a noite, escureço com o dia e só o zumzumzum dos bares é que me põe pra dormir. O garçom daqui nem repara mais. Passa por mim e, com os olhos compridos, tenta decifrar esta letra engalfinhada que fui talhando com muita preguiça e desprezo. Tenho uma teoria definitiva sobre isso: quem escreve muito tem letra feia. A intimidade com suas próprias palavras é tanta que bastam três ou quatro riscos, com ponto ou acento para estar formada uma frase. Deus que me livre dos grafologistas. Terão mais pra dizer sobre mim que um pai-de-santo.

Um dia, o dono do boteco sentou na minha mesa. Pediu um slogan, uma chamada ou "sei lá qual é a porra deste nome", me disse. Antes que terminasse de contar a história do novo empreendimento, rasguei um pedacinho da folha e, com toda vaidade e soberba de um publicitário, dei escrito um posicionamento pra ele. Falei: “Você vai ficar rico com isso. Pague pelo menos minha conta”. Ele gostou, sorriu e me serviu uma dose do conhaque que carrega debaixo do braço. Me senti Pablo Picasso nas românticas noites de Montmartre. Aliás, a noite é o contraste ideal para quem quer se destacar dos mortais. Aqui mesmo, em pé, de costas para mim, conversando com uns outros dois, está André Serrote, escritor quase famoso, de gestos e riso contido. Do seu lado, Benac, o mais baixinho, músico virtuoso que se relaciona com seu violão como um amante: sozinho, no escuro. Por último, Doca, poeta gaiteiro e apaixonado, que recita em voz alta e rasga suas obras, dando um ar de expectativa e ineditismo ao seu personagem. Não os telefono e nem mesmo sei se são estes seus nomes verdadeiros, mas sempre os encontro. Gente nobre como essa se reúne assim, no meio da semana, nesta varanda de chão de ardósia, com telhas coloniais e toldos remendados, pendurando contas e trazendo luz com sua áurea. Depois de insistirem para eu os acompanhar em uma seresta na rodoviária, saíram em bando como andorinhas. Para eles, sou um anjo caído, pois vendo minhas fagulhas criativas para a máquina capitalista do mercado. Nem ligo, mas escondo debaixo da cadeira uma inveja imensa da maneira particular que olham para a vida.

Tinha abandonado estes meus manuscritos por uns minutos para atender um olhar interessado. Com a testosterona descontrolada quase o perco: a pequena derrubou seu Martini, batizando tudo que pôde. Depois de me secar, fui obrigado a molhar o dedo em uma poçinha e oferecer à ela. Era um teste que se aprende com a vida. Se ela chupa, quer sexo. Se ela morde e sorri, quer apenas companhia. Ela se afastou, me deixando com o indicador no ar, apontando para o vento, enquanto seguia rebolativa rumo ao banheiro. Faz parte. Aprendi a deixar meu coração em ponto-morto e passei a curtir os blefes. Telefones que nunca se atendem, promessas que nunca se cumprem e beijos que nunca chegam na boca fazem parte do repertório, assim como o jogo inverso, onde as mais recatadas das moças, com suas saias no meio do joelho e blusas sem decote, perdem o juízo, cheias de tesão por uma ou duas músicas cantadas olho-no-olho.

Retomo a escrita começando uma brincadeira solitária. Recolho com a orelha em pé as frases soltas dos outros freqüentadores e tento montar algo interessante com isso. Todo padre deveria atender seus fiéis aqui, pois nunca vi lugar para inspirar tantas mentiras e confissões. Ouço falar de semelhanças, de almas gêmeas e viajo sem querer para as lembranças de antigos relacionamentos. Elas moram entre o bem e o mal, entre a certeza e o risco, o prazer e a dor, como dormir no vento sem camisa. Escrevo seus nomes, um a um, e tento estabelecer um padrão, o possível perfil da minha próxima cúmplice. Chego a apenas uma conclusão: tá na hora de ir embora.

As portas do bar se arriam com a lua mingüante e ainda tenho a difícil missão de chegar em casa. Mas não antes de lembrar a última filosofia barata: criança pequena e homem bêbado, Deus protege.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

SENTIMENTOS NO PORTA-RETRATO

Essa semana teve 26 anos. Todo o meu passado resolveu romper pela janela adentro como os ventos sudoestes vindos da Pedra de Guaratiba. Revi vídeos, álbuns de fotografias e recontei momentos, que a cada dia ganham mais eco, ficam mais distantes.

Foi nessa semana que o cara casou. Um daqueles amigos que já reservaram uma alça no meu caixão, juntou suas escovas de dente com a namorada eterna. Metido numa roupa cinza, cheia de detalhes engraçados, nos recebeu como um mordomo na escadaria. Ao meu lado, todos aqueles garotos, que jogavam vídeo-game e RPG, que sonhavam transar com as professoras e fotografar para o outro ver, estavam fantasiados em um meio-fraque, sem menor intimidade com a roupa nem com a cerimônia.

Nos ajeitamos uns aos outros, apertando um nó de gravata aqui, recolocando um lenço ali, revivendo o amor paterno que sempre tivemos no grupo, desde a primeira barba que fiz, passando pelo dia de tirar a carteira ou fazer a mudança para a quitinete: sempre estivemos juntos.

A expectativa de uma alegria extrema, de um chororô absoluto, foi substituída pelo desânimo e pelo medo, afinal, o casamento do cara era a bifurcação, mais um grande teste de resistência. A cada ano que passa galopamos em sentidos distintos: um virou músico, o outro pretende morar no exterior, tem aquele que tá solteiro e rico, o outro casado e pobre, o outro com filho, e mais o último que não sei. Nos entrincheiramos de frente para a igreja, disfarçando o inevitável, com futilidades do dia-a-dia.

Em nossa marcha dos pingüins, unidos a um tanto de madrinhas compenetradas e muito mais tensas que nós, nos enfileiramos olhando fixamente para o altar e, sem saber se agradecia pelo momento ou se confessava meu sentimento de posse com o amigo, preferi o silêncio. Um, dois, pára, um dois, pára. Assim caminhamos lentamente, sob o olhar ansioso dos convidados. Convenhamos que ninguém vai a cerimônia para ver os padrinhos. Acostumados ao papel principal, era estranho ser um enfeite, um adereço de algo muito maior, traduzido pelas lágrimas discretas do noivo, quando ela entrou.

Depois da gravidez, não existe um estado de graça maior de uma mulher. Toda de branco, vestido tomara que caia, rosas vermelhas e uma longa cauda, a noiva radiante silenciou o mundo, distribuindo um sorriso de dentes trincados para todos. Qualquer indiferença ou estresse pré-casamento havia sido deixado fora da igreja: ela estava linda, como nunca.

Terminadas as juras de amor eterno, troca de aliança e pai-nosso, procurei os olhos de cada um dos meus e encontrei, por trás da alegria e votos sinceros de felicidade, o nó na garganta, a tensão perante o novo, igualável a dos soldados que entram em um campo de batalha sem saber o que existe por trás da moita. Já era, o cara casou e um enorme ponto de interrogação roubou seu lugar. O que acontecerá agora?Será o fim de choppinhos de terça-feira e viagem de ônibus juntos?Acabarão os assaltos ao bolo de domingo que minha avó faz?Até que ponto seremos bem-vindos em sua nova casa?

Desentalamos com cerveja, em uma festa de arromba oferecida pelos pombinhos longe dali. Aos poucos, foram saindo coletes, penteados, camisas pra fora da calça e os rancores ciumentos. Seja lá qual for a resolução, não tenho dúvidas que estaremos do lado, pois, durante toda a vida, esta amizade foi o barro de criação para qualquer momento, somos parte de um todo, referência um para o outro. Nos despedimos cedo, cada um rumo a sua próxima aventura, mas não antes de roubar o porta-retrato que adornava o hall de entrada. Talvez para lembrarmos eternamente deste momento ou talvez para não esquecermos que um dia fomos simplesmente crianças.

Parabéns Isaac.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

A VIRGEM E O GATO

O Charanga sempre foi um lugar de vadios. Toda gente sem muito escrúpulo zanza por ali. Boteco pestilento, onde as ratazanas espantam os cachorros e o azulejo acumula gordura no rejunte, já foi teto de golpes militares seguido de desaparecimentos misteriosos, e hoje sobrevive do patrocínio dos bicheiros que montam seu ponto de distribuição ali.

Nesta noite, o calor impetuoso de janeiro espantou todos os moradores de casa, lotando o Charanga de maltrapilhos em busca de alguma alegria. Entre músicas de videokê e o tilintar dos caça-níqueis, a mesa barulhenta de uns tantos moços chamava atenção. Pelos gestos, falavam de mulher, pelos palavrões, eram amigos de infância. Nem precisava esticar o pescoço quem quisesse se interar do assunto, porém, do nada, fez-se silêncio. Ninguém cantou, ninguém jogou, ninguém bebeu um gole. O Charanga inteiro reverenciou mudo a entrada da Virgem. Em gestos simples, olhando para baixo, ela entrou, comprou uma coca-cola com moedinhas e partiu, rapidamente. Deixou em seu rastro um perfume fresco, que parecia exalado das flores de seu vestido de pano azul. O estouro da boiada foi inevitável e todos, sem exceção, falavam dela. Filha de fazendeiro, moça prometida de barão assassinado, freira deposta, a cada visita dela a especulação aumentava.

Da mesma mesa barulhenta alguém falou em aposta, a língua oficial dos vagabundos, e casados uns tantos montinhos de 10 pratas, levava o bolão quem deitasse com a pequena. Regras: não valia força bruta nem arma, tinha que ter lábia.

A malandragem se coçou para conquistar a moça. Só de rosas, diziam as vizinhas desocupadas, enchiam dois caminhões, assim como bombons, fabricados nos lugares mais diferentes do mundo. Chegavam também vinhos, cestas de café da manhã, bichos de pelúcia, perfumes importados e até um disco do Julio Iglesias. Tudo amontoado na calçada; a virgem fazia questão de mostrar indiferença a tantos gracejos.

Depois de perder mais uma milhar apostando no número da placa que sonhou, Gato leu o cartaz feito a mão, sob a banca do jogo do bicho, sobre a aposta da tal virgem. Essa era mole. Seu apelido, não por acaso, se dava por sua manha com as mulheres e sua falta de escrúpulo com os homens. Vivia enroscado na esposa dos outros e diziam que, uma vez escapou de fuzilamento com mais de 30 tiros.

O Charanga foi um dos pioneiros dos empreendimentos 24 horas e se orgulhava em arriar suas portas uma vez por ano, apenas na procissão de santo Antônio. Dois meses depois, quando o andor apontou no final da rua, trazendo a imagem centenária do santo homem, meia porta foi arriada e todos os pecadores foram para o lado de fora, mostrar seu respeito. Um tal de se benzer da direita pra esquerda, beijar medalhinha de São Jorge, rezar pai-nosso, demonstrava a devoção, ainda que breve, dos freqüentadores do boteco.
Logo a multidão tomou conta das calçadas e as folhas das árvores frutíferas, que tradicionalmente cobrem o chão, foram tapete para uma cena inesperada: Gato, suando em bicas, carregava junto com outros fiéis a imagem do padroeiro em seus ombros magros, sob o olhar apaixonado da Virgem.

- herege, filho de uma puta! Gritou alguém no meio do bar, pouco se importando com as beatas e crianças vestidas de anjo para pagar promessa.

Gato agiu rápido. Era voluntário na igreja, começou a fazer bico no supermercado, carregando compras e espalhou entre os fiéis que nunca havia tido uma relação sexual sequer com alguém. As semelhanças inevitáveis aproximaram os dois pombinhos e justamente no dia do festejo, assumiam publicamente a relação que, por enquanto, se resumia em beijos estalinhos e mãos dadas na praça. O malandro ralou durante toda noite, vendendo de pescaria a maçã do amor, soltou rojão e rezou muito, dos joelhos ficarem doloridos de tanto sobe e levanta das missas. Na despedida foi surpreendido pela Virgem, que o convidou a tomar um banho e comer algo em sua casa.

A sala, mal iluminada, com apenas duas almofadas vermelhas destoando da estante em alvenaria e as paredes azuis, parecia sufocar Gato, tamanha era a expectativa. Lembrou das tantas meninas que iniciou e, no seu íntimo, se sentia mesmo um benfeitor. De repente, um murmuro. Era um choro, a virgem estava em lágrimas. Falou descompassada de janela aberta, do recolhimento das ofertas para a festa e do roubo a sua bolsa. Não conseguia completar uma frase sem antes soluçar como criança, ao mesmo tempo que pedia desculpas, aninhando-se nos braços do moço, e lamentando não tornar aquela noite a mais especial de sua vida. Gato calou, não sabia o que fazer. A ordem das coisas parecia confusa em sua cabeça, dois fios importantes, dinheiro e mulher, haviam entrado em curto. Precisava agir rápido, acalmar ela, ganhar a aposta. Não sabia o quanto gostava da Virgem, não conseguia calcular riscos. Saiu desembestado até o bicheiro que já recolhia sua banca e pediu grana. Insistiu. Jurou. Deixou cordão de ouro penhorado e a promessa que voltaria pra buscar.

A moça não disfarçou a alegria quando viu o montante de notas enroladinhas no elástico. Pegou de uma vez, contou tudinho com a habilidade de trocador de ônibus, e, assim que terminou, olhou para Gato de uma maneira estranha. A três passos de distância, abriu sua blusa listradinha de botão em um lance, como a rapidez de dançarina de tango, revelando o sutiã meia taça e um colo pintado de sardas. Virou de costas com vigor, desceu o zíper da saia cinza que, antes medindo no joelho, foi escorregando até chegar aos pés. O capeta tinha tomado conta do corpo dela que, depois do strip, prendeu o novo bichinho de estimação entre as pernas e só o deixou sair depois de encaixarem seus sexos. Um breve suspiro e as palavras mágicas soaram em seu ouvido “Conseguiu o que você queria.”. Sentiu a virgindade dela indo embora, cedendo espaço devagar, entre gemidos e apertões. Em meio a palavrões e impropérios, Gato foi submetido as mais ridículas das posições, sendo usado como um brinquedo na mão de uma criança mimada e ansiosa.

Dormiram agarradinhos mas não acordaram do mesmo jeito. A luz do sol pelas frestas revelou o que o coração e os olhos de Gato teimavam em não enxergar no escuro: uma casa vazia, com móveis abandonados. Não morava ninguém ali, em muitos e muitos anos. A Virgem havia deixado seu cativeiro ainda na mesma noite, depois de ver seu amado pregado na esteira improvisada. Na estrada, pedindo carona aos caminhoneiros, sua cabeça maquinava a próxima cidade, a próxima vítima. Assim como Gato ela também se sentia uma benfeitora, dando aos homens o prazer do desvirginar. No íntimo teria preferido ser puta, mas o destino – e seu hímen complacente – não lhe davam qualquer alternativa.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

AMOR FURTA-COR

Ela viu o passarinho azul. Ele achou que já estava na fita. Fazia tempo que trabalhavam lado-a-lado, mas nunca tinham se visto. Pouco conversaram e logo surgiu o entendimento, harmonia de personalidades, mas ela precisou alugar um filme para se aproximarem. Seguiu alugando todo tipo, aliás menos os clássicos em preto e branco e a intimidade veio dando seus retoques, pintando o clima. Almoçaram juntos, dividiram o mesmo prato e logo o mesmo beijo. Estava escurecendo e a loja de tintas e a locadora permaneciam abertas com o casal papeando no degrau da porta.
- Aquele beijo vai ter replay?
- Você está me deixando vermelha. Nem te conheço direito...
- E o quê você quer saber? - Sei lá. Você já namorou?
- Passa essa parte. Passa...
- Eu namorei, mas o cara me traiu.
- Já vi esse filme.
- Namorava a vizinha há um tempão
- Pois é. Dormindo com o inimigo.
- Foi um borrão na minha vida... Vamos mudar de assunto. Você tem cachorro?
- Bradock e Van Damme . E você?
- Tenho uma gata, a Pink.
- Que time você torce?
- Fluminense. Sou tricolor.
- Agora que a gente se conhece, vamos para algum lugar ?
- Sei lá. Meu destino é que traça o caminho.
- Então princesa. Ejeta isso da memória.
- É. Tá na hora de pintar algo novo na minha vida...

Dali foram misturar seus tons, avaliar profundidades no sombreado mais próximo. Pelos ouvidos dela, palavras ralas chegaram ao coração banhadas no fixador e nem precisa dizer que se apaixonou. Ela queria mais que amizades coloridas, precisava de relacionamentos marcantes. Seu amor não conhecia a escala Pantone e suas variações capazes de pintar mil pavões e borboletas, tinha ficado apenas nas primárias. Sequer prestou atenção no outro, sua natureza de dois cabeçotes, com 120 minutos de duração e a vocação de fingir viver um roteiro original. A semana seguiu com interferências na imagem do moço: mandou flores brancas, preferiu ver filme de sacanagem com os amigos do que visitar a exposição de Mondrian, e o pior, não saiu da loja para admirar o arco-íris. Mas longe de separar, ela aprendia com ele, ouvia sua cultura de National Geographic e mergulhava em suas histórias habitadas pelo fantástico e o surpreendente. Sabia feitiços, astronomia, mitologias, culinária, segredo de cofres, piadas, biografias, estratégias militares, declarações de amor. Sabia conquistar as mulheres pelo melhor ângulo. Justo no dia que completaram uma semana, ele não apareceu na porta da loja o dia inteiro, no outro idem, só deu o ar da graça três dias depois com desculpas daltônicas alegando que tudo foi um grande mal entendido. O amor desbotou-se por completo, descascou as camadas e a menina chorou lágrimas sem cor pensando nos erros da sua intensidade. No mesmo dia ele já estava rondando o salão de beleza que abriu ao lado, pois chegou cabeleireira nova, que corta o papo-furado pela raiz e faz barba, cabelo e bigode por muito menos.

05/09/2002