quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

TURBULÊNCIAS DA ALMA

Foi entre números de vôo, poltrona na janela e escala em São Paulo que decidi escrever minha história de viagem respeitando minhas lembranças, ajudada pelas fotos que tirei. Queria ter vivido tudo de maneira organizada mas o destino não tem trilhos nem estação.

Este foi o último dia em Buenos Aires. A chuva que batia no telhado de zinco do salão comum no albergue dos amigos Cariocas e a manta, onde traseiros dos quatro cantos do mundo já sentaram, me aquecia, me abraçava cúmplice da cidade que parecia criar um clima propício a esquecer a rotina que me esperava no Brasil. De fato, a noite de despedida e estes momentos aninhado no terraço do hostel custaram caro para o bolso de mochileiro controlado. “Tiene que pagar 30 pesos. Quedou-se acá nesta noche.” O dono do lugar, autoritário, econômico e pavio curto, tinha pensamento de proprietário de pensão, controlava o uso da internet, o horário de entrar e sair e me parece que nunca colocou meia dúzia de cuecas e um tênis na mala e foi conhecer o mundo. É argentino, portenho e vai morrer assim. Os 20 pesos, que nem é tanto assim para os bolsos tupiniquins na verdade me custaram tempo pois na primeira segunda feira do ano de qualquer lugar do mundo o caos está formado. Bancos sem funcionar, táxis lotados, engarrafamentos e as horas correndo. O sorvete de doce de leite ficou pra lá, os alfajores da família vieram, o passeio do rio tigre e a esticada em Uruguai também não aconteceram, a camisa da afilhada deu tempo de comprar. Tenho que confessar que detesto comprar presente. Fico com os pedidos vagando na minha lembrança e a corrente interminável de pidões me atrapalham os passos. Acho uma viagem algo tão pessoal que nunca fui capaz de pedir nada mas também não ignoro. Corri atrás de tudo que pude e por isso mesmo perdi o vôo. Caos no aeroporto, brasileiros fazendo escândalo, marcando sua presença e o check in terminando 40 minutos antes me dobraram ao meio. Precisava sair dali. Precisava voltar ao trabalho. Mas também queria voltar. Não queria deixar a minha hippie sozinha. Queria tomar sorvete de doce de leite. Queria qualquer coisa que não fosse ficar no meio do caminho que se chama aeroporto. Em protesto solitário joguei minhas coisas em um canto como retirante, me deitei e dormi feito vagabundo, abandonado, esperando a repreensão de alguma policial de preferência sexual distinta. Só acordei com frio e mosquito meia hora depois.

Sem álcool no sangue recuperei a lucidez e tracei meus planos para o dia seguinte. Os últimos 50 dólares que acalantariam a monotonia da volta no free shop se foram pagando uma pensão indicada pelo próprio balcão de recepção. A dona, de alegria intrépida e imensa doçura nas palavras e nas coisas, transformou o final da noite em uma confortável e refrescante noite.. Me buscou, me acordou, me levou e, mesmo sendo uma prestação mecânica que ela repete todos os dias, me cativou a ponto de querer ficar mais naquele fim de mundo ao lado do aeroporto. Tomei um banho demorado, gravei uma mensagem pra minha ex loira mas decidi não mostrar, busquei um filme pornô na tv a cabo e acabei adormecendo ao acompanhar a cobertura do funeral de um cantor famoso argentino.

Voltei cheio de turbulência na alma, preocupado, cansado, triste, confuso, com os pensamentos precisando de amaciante e secadora, de serem separados por cor, tamanho, novos e velhos, pensamentos para guardar em um armário novo de 2010 ainda tão cheio de espaço.

Ás 14h estava sentado na mesa do escritório, pronto para mais um dia de trabalho. Atrás de mim muita história, lembranças e uma mochila cheia de bandeirinhas que ainda não me largou.

Um comentário:

Anônimo disse...

Quando acordams de um sonho muitas são as vezes que queremos voltar,porque são atrvés de pequenos gestos que sempre daremos valor as minunciosas coisas da vida,por mais que a viagem seje "turbulenta".