Nunca me acostumo com o freeson que antecede uma apresentação. Todos olhando, esperando, me causa um enorme incômodo. Este sentimento é substituído pelo cansaço ao final. Me sinto carente, indefeso, esquisito, como se todos os sentimentos tivessem escorrido pelo palco durante as quase três horas de show. Desta vez não seria diferente se ela não tivesse aparecido assim, no susto. Estava de lado, conversando com alguém, me vigiando com o canto do olho, pronta para fingir o ritual assustado do encontro, provocando a revoada de borboletas no meu estômago. Fumava e repetia um de seus gestos típicos ao tragar, franzindo as sobrancelhas, antes de rir e comentar algo que não entendi. Nessa hora meu coração telegrafou seu memorando para a razão: é ela rapaz. Vai fundo.
O amor traz muitas incertezas penduradas em seu pára-choque mas a paixão não. Ela atropela, se joga no peito alheio, como um labrador faz ao ver o dono chegar. Me aproximei tentando montar ironias e piadinhas a fim de provocá-la mas todas as mulheres possuem o dom de anteceder os segundos. A dois passos atrás, ela mirou seus olhos brilhantes e respirei aliviado, como o piloto ao ver sua pista de aterrissagem. A mulher da minha vida estava de volta. Nossa conversa, inteligível para os demais, resumira-se na repetição de piadinhas que construímos, momices particulares que nos acompanhariam por álbuns de fotografias, cartões de natal e roda de amigos, contadas e recontadas incansavelmente. Gosto tanto do nosso contraste de cor, da nossa maneira de roçar os braços e nos observei em absoluto silêncio, apertando seu corpo pequeno contra o meu, remontando algo ancestral, comparado somente com a saudade que o continente africano deve sentir das Américas quando ainda existiam juntos. Fui interrompido pelo cutucão no ombro de outro alguém a minhas costas. Só então pude reparar e reconhecer. Tirando meia dúzia de rugas, uns pêlos assanhados de barba pra fazer e a barriga, pela primeira vez saliente, poderia afirmar que era o mesmo amigo, o grande amigo que conheci enquanto saques e cortadas no colégio eram a nossa maior ambição de vida. Trocaria todas as festas surpresas de aniversário e dias de sol por aquele momento, tão cheio de perguntas e respostas interessantes. Como as crianças que puxam seus brinquedos para a sala querendo dividi-los com as visitas, fiquei inquieto, indo de um para o outro, emendando conversas, costurando interesses, chamando gente, apresentando outros, até sentir a mão dela me tranqüilizando, passeando pela minha nuca e entrando com seus dedos entre os pêlos, desbravando esta pequena área com a autonomia de um nativo que caminha nas pedras. Não me lembro o momento que trocamos a agitação do bar pelo colchão macio e quente mas pelo ressonar de gente não estávamos sozinhos. Viajamos para algum lugar no meu passado que não demorei a reconhecer no escuro. A maré chiava devagar e a meia parada do ônibus na porta, se preparando para ultrapassar o quebra-molas eram a trilha sonora: paramos na casa de praia da família Vidal, onde vivi boas coisas em família. O cheiro doce, o piso áspero, os janelões abertos, sem medo do medo. Destranquei a porta, a outra, olhei os estandartes de carnaval pendurados que, não faz muito tempo, eram mais altos que eu. Sentia que por baixo da poeira, momentos de felicidade se escondiam, prontos para nos pregar uma peça e recomeçar seu falatório. Na extremidade da casa um pequeno mirante, onde se via a Rio-Santos e toda a Baía de Mangaratiba. Me sentei onde meu bisavô repousou ereto pela última vez antes de morrer e, assim como as colchas de retalho mofadas que estendíamos para pegar um sol, minha vida estava completa, com seus quadradrinhos tão diferentes e bem costurados. Chorei por não ter palavras de gratidão.
No caminhar discreto do ponteiro de segundos, acordei e observei o relógio da Central do Brasil, apontando uma hora de atraso. Eu deveria estar trabalhando se não fosse o engarrafamento. Nas mãos um livro sobre pessoas que se foram, sobre amores impossíveis, lembranças e perdas necessárias estava sendo apertado com toda força do mundo. No peito, saudade, culpa e impotência. Não confessarei pra ninguém o quanto queria ter tudo isso de volta.
sexta-feira, 20 de junho de 2008
terça-feira, 10 de junho de 2008
INVERNO PARTICULAR
Acordei com as veias endurecidas feito galhos secos e um sangue grosso de geléia de morango. O coração bate acelerado e sobrecarrega as baterias lembrando meu antigo Chevette tentando vencer as ladeiras do pontal do Atalaia. Ele não chegou lá, como eu. O dia dos namorados vem anunciado na rádio, no job de um cliente, na promoção do shopping, no convite para minha banda tocar. Não faço do dia 12 de junho um velório onde ficarei em volta de tudo que já morreu, relembrando as histórias felizes. Necas. Esta seria uma data oca que passaria batida se não tivesse ninguém morando nela, se eu não tivesse enfiado com colheradas de aviãozinho, goela abaixo da minha razão, uma mulher que ama outra pessoa, não a mim. Passar esta noite cantando para casais apaixonados, que repetirão comigo suas juras, tomando minha voz emprestada para dizer no tom certo o quanto estão apaixonados, se torna até assustadoramente encantador.
Um isqueiro que ela perdeu, um espelho de corpo inteiro, uma viagem, uma tatuagem. Precisaria de décadas para dar tudo que sonhei um dia. Mas ela não quer nada, vive dizendo com total desprezo. Não quer vínculo, responsabilidade, não quer estabelecer uma relação. Talvez para um dia me deixar dormindo e com um bilhete escrito no espelho se despedir pra sempre sem dor na consciência, sem levar lembrança consigo. Engulo este pirulito de areia e com um sorriso amarelo uso minha expressão gasta de amante barato fingindo não ligar. Caso contrário ela distancia, silencia, finge partir. Afinal para discutir relação, se enrolar na coberta, cuidar de verdade, ela já tem companhia. Resta-me apenas oferecer a boemia, o papo leve, os risos, a sacanagem. Definitivamente não tenho vocação pra isso. Quero alguém que me ame até nas luas mais minguantes.
Ouço os amigos, o colega do trabalho e a moça da padaria. Todos são unânimes no pessimismo. Mesmo assim assumo o risco desta corrida com os cadarços desamarrados, sabendo que em algum momento cairei. E não falta gente torcendo para que isso aconteça, seja pela dor de cotovelo ou pelo oportunismo de me ver fragilizado. Hoje eu entendo o Forrest Gump e sua eterna vontade de correr, sem saber se está em busca de algo ou fugindo dele.
Já se passaram três meses desde aquele dia que os strobles e slide-flash chacoalharam dentro de mim e não perco tempo em avaliar se vale a pena ou não, simplesmente porque a vida acontece com seu fluxo irregular, mas me culpo ao permitir a infiltração deste amor pelas paredes, me culpo pela prepotência de achar que posso manter tudo sob controle, me culpo pela ingenuidade de criança encantada com o picadeiro acreditando nos palhaços que choram e nos trapezistas que voam. Talvez este dia dos namorados torne-se um marco, o reinício do meu inverno particular, onde depois de noventa dias de sol quente e flores na janela, a saudade caia estragada do pé, o horizonte desapareça em nuvens e a esperança hiberne por mais dois longos anos.
Um isqueiro que ela perdeu, um espelho de corpo inteiro, uma viagem, uma tatuagem. Precisaria de décadas para dar tudo que sonhei um dia. Mas ela não quer nada, vive dizendo com total desprezo. Não quer vínculo, responsabilidade, não quer estabelecer uma relação. Talvez para um dia me deixar dormindo e com um bilhete escrito no espelho se despedir pra sempre sem dor na consciência, sem levar lembrança consigo. Engulo este pirulito de areia e com um sorriso amarelo uso minha expressão gasta de amante barato fingindo não ligar. Caso contrário ela distancia, silencia, finge partir. Afinal para discutir relação, se enrolar na coberta, cuidar de verdade, ela já tem companhia. Resta-me apenas oferecer a boemia, o papo leve, os risos, a sacanagem. Definitivamente não tenho vocação pra isso. Quero alguém que me ame até nas luas mais minguantes.
Ouço os amigos, o colega do trabalho e a moça da padaria. Todos são unânimes no pessimismo. Mesmo assim assumo o risco desta corrida com os cadarços desamarrados, sabendo que em algum momento cairei. E não falta gente torcendo para que isso aconteça, seja pela dor de cotovelo ou pelo oportunismo de me ver fragilizado. Hoje eu entendo o Forrest Gump e sua eterna vontade de correr, sem saber se está em busca de algo ou fugindo dele.
Já se passaram três meses desde aquele dia que os strobles e slide-flash chacoalharam dentro de mim e não perco tempo em avaliar se vale a pena ou não, simplesmente porque a vida acontece com seu fluxo irregular, mas me culpo ao permitir a infiltração deste amor pelas paredes, me culpo pela prepotência de achar que posso manter tudo sob controle, me culpo pela ingenuidade de criança encantada com o picadeiro acreditando nos palhaços que choram e nos trapezistas que voam. Talvez este dia dos namorados torne-se um marco, o reinício do meu inverno particular, onde depois de noventa dias de sol quente e flores na janela, a saudade caia estragada do pé, o horizonte desapareça em nuvens e a esperança hiberne por mais dois longos anos.
quinta-feira, 5 de junho de 2008
ENCRUZILHADAS
Por Talita Balaroti
"Tu é pra mim o inesperado. E o inesperado nega a razão, nega a experiência, nega a inteligência. E os erros inesperados são as evoluções provocadas por uma alma imoral. Uma alma que busca libertação, que trai expectativas e transgride as morais do corpo".
Se não fosse a certeza de que aqueles dias no Rio, escureceriam a sua pele, renovariam seu humor e apertariam sua conta bancária, não teria ido.
Uma desculpa esfarrapada no trabalho, duas ligações a longa distância. Eram três da tarde e já estava andando vendo o arpoador. Tava inteira. E só se sentia inteira quando questionava, quando tinha dúvidas. Lembrou: é sempre na minha sutileza que deixo a dúvida se instalar. Parou novamente, recordou de quando discutiu isso com um amigo que já fora seu amante: a dúvida se instalar ou a certeza pregar?
Sabia que naquela noite acabaria na Lapa. Melhor lugar não há, diria D2. Democráticos.
Estava ainda com o biquíni de praia por baixo da roupa curta, afinal, nada melhor para esquecer a melancolia dos dias frios da capital do sul.
Suava em bicas, e dançava, e dançava. Um Moreno lindo tirou seu ar, mais do que toda a dança daquela noite. Pesou: tudo começa com a admiração que desperta o desejo, ou seria o desejo que gera a admiração? Já carregava naquele primeiro olhar: cobiça, ciúmes, inveja, admiração e desejo. Porque para ela, esses tornados nunca caminharam separados.
Suaram juntos. Tomaram café da manhã e falaram de trabalho, e ela levou pro sul a cor preta e vermelha desse Filho de Exú. E se infestou de sua astúcia, sua vaidade, sua indecência. Orixá do movimento teve o poder de fazer o acerto virar erro, e o erro virar acerto. E foi assim que ele a libertou.
"Tu é pra mim o inesperado. E o inesperado nega a razão, nega a experiência, nega a inteligência. E os erros inesperados são as evoluções provocadas por uma alma imoral. Uma alma que busca libertação, que trai expectativas e transgride as morais do corpo".
Se não fosse a certeza de que aqueles dias no Rio, escureceriam a sua pele, renovariam seu humor e apertariam sua conta bancária, não teria ido.
Uma desculpa esfarrapada no trabalho, duas ligações a longa distância. Eram três da tarde e já estava andando vendo o arpoador. Tava inteira. E só se sentia inteira quando questionava, quando tinha dúvidas. Lembrou: é sempre na minha sutileza que deixo a dúvida se instalar. Parou novamente, recordou de quando discutiu isso com um amigo que já fora seu amante: a dúvida se instalar ou a certeza pregar?
Sabia que naquela noite acabaria na Lapa. Melhor lugar não há, diria D2. Democráticos.
Estava ainda com o biquíni de praia por baixo da roupa curta, afinal, nada melhor para esquecer a melancolia dos dias frios da capital do sul.
Suava em bicas, e dançava, e dançava. Um Moreno lindo tirou seu ar, mais do que toda a dança daquela noite. Pesou: tudo começa com a admiração que desperta o desejo, ou seria o desejo que gera a admiração? Já carregava naquele primeiro olhar: cobiça, ciúmes, inveja, admiração e desejo. Porque para ela, esses tornados nunca caminharam separados.
Suaram juntos. Tomaram café da manhã e falaram de trabalho, e ela levou pro sul a cor preta e vermelha desse Filho de Exú. E se infestou de sua astúcia, sua vaidade, sua indecência. Orixá do movimento teve o poder de fazer o acerto virar erro, e o erro virar acerto. E foi assim que ele a libertou.
quarta-feira, 21 de maio de 2008
CORAÇÃO EM PAUSE
O amor é como poeira. Vai invadindo pela fechadura, pelo vão debaixo da porta, quando ninguém vê. Aos poucos, começa a tomar conta do ar, a sufocar. Mas hoje foi dia de faxina e o sentimento mais exaltado do mundo foi varrido para o quintal. Deixe ele lá. Assim como a conta de celular e o cartão de crédito, estou convencido que não posso usá-lo impunemente. Mas ela pede, provoca, estende a mão, sorri. Não resisto e toma de amor, toma, toma, toma. Ainda bem que o SERASA não anda por estas bandas do coração.
Não me ensinaram a amar e tenho dúvidas sinceras se alguém a minha volta amou de verdade. Nos meus álbuns de fotografia estão sorrisos alegres, olhares de esperança, abraços de alívio. Amor, necas. O que aprendi foi por extinto, no pulo do gato, e minha mentalidade emocional sinto que tem apenas oito anos. Não há outra explicação senão a inocência para me entregar de mãos beijadas a pessoas que nunca se propuseram a cuidar de mim. Criança idiota, agora fica aqui dentro me pedindo colo e atenção.
Vivo hoje uma excitação vista em filme de ficção. Tenho a capacidade de ressuscitar meus dinossauros mas morro de medo deles acabarem comigo. Sem eles não há lágrima, noites solitárias ou declarações cheias de babadinho. Só hedonismo. Foram dois anos satisfazendo apetites sexuais e exigências do ego. Na noite, homem decente é peça rara. Homem solteiro então, vale ouro. Conheci gente boa, gente fina, gentileza, gente só, que somem e aparecem. No final das contas, as companhias na boemia estão vivendo momentos passageiros de suas vidas e pegam carona em você até a próxima estação. Numa semana estão solteiras e disponíveis. Na outra, casadas e condescendentes. Resumindo: fiz da exceção da vida a regra destes meus dias.
Graças a Deus ela apareceu e trouxe de volta a beleza das coisas simples. É uma mulher com muitos valores e poucos pudores. Perfeita pra mim. Tem a malandragem da rua e a nobreza no mesmo ser e confunde meus faróis que nunca conseguem acompanhá-la. Sou antes de tudo seu admirador, seja pela fome que já passou ou pelas manias que até soam como certo mimo a si mesma. Me impressiona como ela conhece meus segredos e me desarma impiedosamente, como fazemos com os laços, por isso guardo sempre no bolso a meia-culpa, que utilizo sem dó.
Mas ela não é minha, digo sempre para mim como um mantra tibetano. Quando não convencido, abro sua foto acompanhada, no pc, e retalho minhas esperanças mais uma vez. Hoje me sinto apaixonado pela grama do vizinho onde, a cada ausência sua, pulo a cerca e vou brincar. Nosso relacionamento é intenso, verdadeiro, mas vive sob a vigilância do calendário, como uma menstruação. Poderia até te dizer que, como bom amante, acredito um dia assumir este cargo de confiança mas a descrença no amor também puxa meu outro braço rumo ao individualismo e a proteção de mim mesmo. Ainda não sei se sou o alpinista com fôlego infinito ou o cachorro que corre atrás do próprio rabo, na dúvida, dei um pause no meu coração e entreguei o controle remoto pra ela. Se vai acelerá-lo ou ejetá-lo, só ela poderá dizer.
Não me ensinaram a amar e tenho dúvidas sinceras se alguém a minha volta amou de verdade. Nos meus álbuns de fotografia estão sorrisos alegres, olhares de esperança, abraços de alívio. Amor, necas. O que aprendi foi por extinto, no pulo do gato, e minha mentalidade emocional sinto que tem apenas oito anos. Não há outra explicação senão a inocência para me entregar de mãos beijadas a pessoas que nunca se propuseram a cuidar de mim. Criança idiota, agora fica aqui dentro me pedindo colo e atenção.
Vivo hoje uma excitação vista em filme de ficção. Tenho a capacidade de ressuscitar meus dinossauros mas morro de medo deles acabarem comigo. Sem eles não há lágrima, noites solitárias ou declarações cheias de babadinho. Só hedonismo. Foram dois anos satisfazendo apetites sexuais e exigências do ego. Na noite, homem decente é peça rara. Homem solteiro então, vale ouro. Conheci gente boa, gente fina, gentileza, gente só, que somem e aparecem. No final das contas, as companhias na boemia estão vivendo momentos passageiros de suas vidas e pegam carona em você até a próxima estação. Numa semana estão solteiras e disponíveis. Na outra, casadas e condescendentes. Resumindo: fiz da exceção da vida a regra destes meus dias.
Graças a Deus ela apareceu e trouxe de volta a beleza das coisas simples. É uma mulher com muitos valores e poucos pudores. Perfeita pra mim. Tem a malandragem da rua e a nobreza no mesmo ser e confunde meus faróis que nunca conseguem acompanhá-la. Sou antes de tudo seu admirador, seja pela fome que já passou ou pelas manias que até soam como certo mimo a si mesma. Me impressiona como ela conhece meus segredos e me desarma impiedosamente, como fazemos com os laços, por isso guardo sempre no bolso a meia-culpa, que utilizo sem dó.
Mas ela não é minha, digo sempre para mim como um mantra tibetano. Quando não convencido, abro sua foto acompanhada, no pc, e retalho minhas esperanças mais uma vez. Hoje me sinto apaixonado pela grama do vizinho onde, a cada ausência sua, pulo a cerca e vou brincar. Nosso relacionamento é intenso, verdadeiro, mas vive sob a vigilância do calendário, como uma menstruação. Poderia até te dizer que, como bom amante, acredito um dia assumir este cargo de confiança mas a descrença no amor também puxa meu outro braço rumo ao individualismo e a proteção de mim mesmo. Ainda não sei se sou o alpinista com fôlego infinito ou o cachorro que corre atrás do próprio rabo, na dúvida, dei um pause no meu coração e entreguei o controle remoto pra ela. Se vai acelerá-lo ou ejetá-lo, só ela poderá dizer.
quinta-feira, 3 de abril de 2008
CONSIDERAÇÕES PARA UM SOLITÁRIO
De vez em quando, ao descer uma rua movimentada, fixe os olhos na multidão. No meio de casais apressados, grupos de amigos barulhentos e famílias felizes, sempre existe um solitário. Ele é o único que vai olhar pra você, mesmo que seja com um olhar despretensioso ou desconfiado. Não que te considere especial mas porque talvez não tenha mais nada a fazer. Porém não o considere uma vítima, pois, tirando Vinícius de Morais, é possível qualquer um ser feliz ou, pelo menos, se virar sozinho.
NO CINEMA – Nada de entrar depois do trailer. Um solitário de verdade chega com a luz acesa. Como não tem ninguém para conversar é interessante ocupar o tempo e o silêncio com o barulho no balde de pipoca. Coma sempre as do fundo primeiro e remexa bem, alegando para si mesmo que está salgando o lanche uniformemente. O segredo é fazer tudo aquilo que não faria se estivesse acompanhado. Se escangalhe de rir, coloque o pé para o alto ou durma quando estiver muito chato. Na saída, controle o ímpeto de comentar o filme e deboche, com risos abafados e balançar de cabeça, dos comentários absurdos.
NA BOATE – Cuidado, pois ali se trabalha sem retaguarda. Chegou na gatinha e ela te esnobou? Você não tem o ombro amigo para praguejar e tem que ficar parado no mesmo lugar com cara de pastel. O bote é preciso. Finja que não está nem aí para ninguém. Segure uma cerveja mesmo que esteja vazia. Dance moderadamente, senão pode dar pinta de que não gosta da fruta. O segredo para escapar da tentação é curtir o som de olhos fechados. Te dá um ar meio esnobe, como se estivesse ouvindo algo que ninguém está, e permite que te admirem mais calmamente. Se pintou o clima, negue-se a dizer que está sem ninguém. Não é que você vai dar uma de Pedro traíra não, mas é uma decisão estratégica. Mulheres nunca saem sozinhas e portanto suas amigas vão gostar se souberem que você tem um grupo de amigos disponíveis prestes a chegar.
CELULAR – Este é mais que um amigo. Ele é o portal para transformar as situações. Treine diálogos longos para falar sozinho, sobre assuntos variados que possam te aproximar ou afastar de uma situação. Importante é mostrar veracidade respeitando os tempos de chamada e resposta do amigo imaginário. Caso contrário parecerá que está contracenando com Tarcísio Meira. Um cuidado importante: quando estiver fingindo com o aparelho no ouvido mantenha-o desligado. Imagine se toca na hora...
NO ESTÁDIO – O mais fácil de todos. Não vão faltar tapinhas das costas e comentários. Se estiver com a camisa do time, melhor ainda. Mesmo assim, o importante para se enturmar e ganhar confiança é esperar os minutos de silêncio e ofender alguém. Qualquer um. Xingue mesmo. É certo que conquistará risadas. Depois cante todas as músicas e no final diga em alto e bom som que vai beber todas no bar da esquina para comemorar.
MOTEL – Teste final para quem tem coragem de andar sozinho. Preocupado em não sofrer retaliações encare um dos personagens: 1)bêbado feliz 2) empresário cansado 3) Amante ansioso. Lá dentro, ligue a TV com o canal pornô bem alto, deixe a porta entreaberta e fique apenas de toalha. Se pintar uma solidão, fique esperando o elevador no andar até alguém aparecer. Encare-o como se estivesse em uma fila do banco e só interrompa a conversa para dizer que vai voltar ao quarto porque sua mulher está impossível hoje.
Como pôde ver, mesmo sendo trabalhoso, é perfeitamente possível se divertir sozinho. Um sintoma típico de sua mudança é quando, encarando-se no espelho, nas muitas madrugadas silenciosas, você revê seus atos e tenta simular aquilo que os outros pensaram de você. É neste momento que a lágrima desce e você chora. De rir.
NO CINEMA – Nada de entrar depois do trailer. Um solitário de verdade chega com a luz acesa. Como não tem ninguém para conversar é interessante ocupar o tempo e o silêncio com o barulho no balde de pipoca. Coma sempre as do fundo primeiro e remexa bem, alegando para si mesmo que está salgando o lanche uniformemente. O segredo é fazer tudo aquilo que não faria se estivesse acompanhado. Se escangalhe de rir, coloque o pé para o alto ou durma quando estiver muito chato. Na saída, controle o ímpeto de comentar o filme e deboche, com risos abafados e balançar de cabeça, dos comentários absurdos.
NA BOATE – Cuidado, pois ali se trabalha sem retaguarda. Chegou na gatinha e ela te esnobou? Você não tem o ombro amigo para praguejar e tem que ficar parado no mesmo lugar com cara de pastel. O bote é preciso. Finja que não está nem aí para ninguém. Segure uma cerveja mesmo que esteja vazia. Dance moderadamente, senão pode dar pinta de que não gosta da fruta. O segredo para escapar da tentação é curtir o som de olhos fechados. Te dá um ar meio esnobe, como se estivesse ouvindo algo que ninguém está, e permite que te admirem mais calmamente. Se pintou o clima, negue-se a dizer que está sem ninguém. Não é que você vai dar uma de Pedro traíra não, mas é uma decisão estratégica. Mulheres nunca saem sozinhas e portanto suas amigas vão gostar se souberem que você tem um grupo de amigos disponíveis prestes a chegar.
CELULAR – Este é mais que um amigo. Ele é o portal para transformar as situações. Treine diálogos longos para falar sozinho, sobre assuntos variados que possam te aproximar ou afastar de uma situação. Importante é mostrar veracidade respeitando os tempos de chamada e resposta do amigo imaginário. Caso contrário parecerá que está contracenando com Tarcísio Meira. Um cuidado importante: quando estiver fingindo com o aparelho no ouvido mantenha-o desligado. Imagine se toca na hora...
NO ESTÁDIO – O mais fácil de todos. Não vão faltar tapinhas das costas e comentários. Se estiver com a camisa do time, melhor ainda. Mesmo assim, o importante para se enturmar e ganhar confiança é esperar os minutos de silêncio e ofender alguém. Qualquer um. Xingue mesmo. É certo que conquistará risadas. Depois cante todas as músicas e no final diga em alto e bom som que vai beber todas no bar da esquina para comemorar.
MOTEL – Teste final para quem tem coragem de andar sozinho. Preocupado em não sofrer retaliações encare um dos personagens: 1)bêbado feliz 2) empresário cansado 3) Amante ansioso. Lá dentro, ligue a TV com o canal pornô bem alto, deixe a porta entreaberta e fique apenas de toalha. Se pintar uma solidão, fique esperando o elevador no andar até alguém aparecer. Encare-o como se estivesse em uma fila do banco e só interrompa a conversa para dizer que vai voltar ao quarto porque sua mulher está impossível hoje.
Como pôde ver, mesmo sendo trabalhoso, é perfeitamente possível se divertir sozinho. Um sintoma típico de sua mudança é quando, encarando-se no espelho, nas muitas madrugadas silenciosas, você revê seus atos e tenta simular aquilo que os outros pensaram de você. É neste momento que a lágrima desce e você chora. De rir.
quinta-feira, 20 de março de 2008
DONT RAVE MONEY
Como todo filme de terror o início é cativante. Eu e um mineiro contra quinhentos gaúchos barulhentos. A disputa?O título de melhor vídeo publicitário no Festival de Gramado. Perdemos, fique sabendo. Na saída, uma filipeta “festa de encerramento?Foda-se, estamos dentro”.
Depois do sobe e desce de táxi, racha para pagar a entrada, lá estávamos. Era minha primeira vez numa RAVE e não sabia ao certo como me comportar. Despistei o amigo na primeira curva e fui me aventurar. Eu tinha namorada, era supervisor da agência, uma postura a zelar. Ficar ao lado do aluno era queimar o filme, já bastava ter perdido um prêmio que estava no maior clima de já ganhou.
Logo na entrada fui entendendo o mapa do local: Lado esquerdo, dedicado ao som ao vivo, do lado direito, som mecânico e embaixo, o mais cheio, o underground. Tudo igual. A música que chacoalhava a galera era a mesma. Um bate estaca de compasso repetido no qual o DJ usava o mesmo recurso que eu nas festas juvenis. Ora baixava, ora escancarava o volume. Deixa estar. Fora da habitual pegação sulista, encostei-me no balcão como um quarentão recém-separado, preparado para rodar as pedrinhas de gelo com o dedo. Daí que tudo começa. No paga daqui, paga de lá, não sobrou nada na carteira e o lugar, pra variar, não aceitava cartão.
Foi pensar em sentir sede e a saliva logo sumiu e, não demorou muito, a língua começou a crescer na boca, como a de um camelo. Implorei, pedi, juntei as mãos, mas não rolou. A moça do caixa estava inflexível, com aquele complexo de pequena autoridade irritante, me pediu licença e continuou seu trabalho. Primeira alternativa: O aluno. Ele era quietinho, franzino, gente boa, não negaria emprestar um qualquer pro amigo.
A incursão na multidão talvez tenha sido a melhor parte desta história. Eu, e um mar de loiras, sacudindo, dando e tomando beliscão na bunda. Pensar que eu poderia estar encaixado numa futura miss Brasil me deixou eufórico. Com tesão, vá lá. Aperta de um lado, afrouxa do outro e nada do meu camarada aparecer. A segunda tentativa seria usar a carioquice que Deus deu, mas logo vi que não dava. Com o pancadão comendo solto, eu poderia ser persa, judeu, iraniano, que ninguém conseguiria ouvir minha voz. Do nada, alguém pega na minha mão e um sorriso lindo – e úmido – apareceu na multidão. Acho que na RAVE é assim, na pescaria. Fui seguindo, muito mais de olho no seu copo de chopp que nos dotes físicos. Era na descida do underground e a fumaça já anunciava: aqui é chapa quente.
“Essa é fulana, essa é ciclana”, nem perguntaram meu nome, e nem me deram bola. Até hoje acho que a moça me confundiu com alguém, afinal fiquei ali, sem lá nem cá, ignorado solenemente por umas meninas que dançavam alucinadas. Nunca vi animação assim. Filmei o ambiente e nenhuma bebida, agora, somente copos vazios. Do pouco que compreendi naquele festa do inferno foi “Quer uma bala?” Aceitei de imediato. Já que eu não podia dar uns beijos, pelo menos algo para estimular a salivação. Do nada, fui tomado por uma onda esquisita, como se eu tivesse engolido todos os agudos e graves do ambiente. O coração socava meu sangue para os quatro cantos do corpo, dava para ouvir, e fui ficando emocionado com a minha própria existência de ser. No primeiro esbarrão senti todo os meus pêlos do braço ouriçados e o bico do meu peito ficou duro. Cruz-credo. Queria ir embora mas senti tanto medo que comecei a chorar e rir num destempero de sal e doce. Não sei qual foi a hora que comecei a dançar mas talvez tenha sido a melhor saída. Batia o pé no chão feito índio e passava a mão pela cara e a cabeça, suado e despenteado. Minha alegria durou até o celular tocar:
- Alô?Amor?Sou eu sua namorada...
- E o prêmio?Você ta na farra. Dá pra me explicar?
Não tinha percebido mas a minha mandíbula havia também travado com essa bala do capeta e nem conseguia falar nada. Quase babando, tentei escrever uma mensagem mas as teclas haviam triplicado e se mexiam conforme a música. Fui me escorando e descendo o corpo, lentamente, escorregando até o chão. Sentei, encolhi as penas, e percebi uns dois ou três malucos agarrados na caixa de som, tentando entrar pela corneta, pelo alto falante, completamente estranho, lembravam cupins na lâmpada em noite de verão. Com medo de ficar como eles, segui as paredes e depois de girar naquele buraco acabei encontrando o ar puro pela saída de emergência. Era demais pra mim. Descobri uma secura na boca como nunca havia visto e me peguei correndo a caminho de casa, de boca aberta, disposto a vencer quilômetros sozinho, a pé. Putz, começou a chover. Bom, agora o que não falta é água.
Depois do sobe e desce de táxi, racha para pagar a entrada, lá estávamos. Era minha primeira vez numa RAVE e não sabia ao certo como me comportar. Despistei o amigo na primeira curva e fui me aventurar. Eu tinha namorada, era supervisor da agência, uma postura a zelar. Ficar ao lado do aluno era queimar o filme, já bastava ter perdido um prêmio que estava no maior clima de já ganhou.
Logo na entrada fui entendendo o mapa do local: Lado esquerdo, dedicado ao som ao vivo, do lado direito, som mecânico e embaixo, o mais cheio, o underground. Tudo igual. A música que chacoalhava a galera era a mesma. Um bate estaca de compasso repetido no qual o DJ usava o mesmo recurso que eu nas festas juvenis. Ora baixava, ora escancarava o volume. Deixa estar. Fora da habitual pegação sulista, encostei-me no balcão como um quarentão recém-separado, preparado para rodar as pedrinhas de gelo com o dedo. Daí que tudo começa. No paga daqui, paga de lá, não sobrou nada na carteira e o lugar, pra variar, não aceitava cartão.
Foi pensar em sentir sede e a saliva logo sumiu e, não demorou muito, a língua começou a crescer na boca, como a de um camelo. Implorei, pedi, juntei as mãos, mas não rolou. A moça do caixa estava inflexível, com aquele complexo de pequena autoridade irritante, me pediu licença e continuou seu trabalho. Primeira alternativa: O aluno. Ele era quietinho, franzino, gente boa, não negaria emprestar um qualquer pro amigo.
A incursão na multidão talvez tenha sido a melhor parte desta história. Eu, e um mar de loiras, sacudindo, dando e tomando beliscão na bunda. Pensar que eu poderia estar encaixado numa futura miss Brasil me deixou eufórico. Com tesão, vá lá. Aperta de um lado, afrouxa do outro e nada do meu camarada aparecer. A segunda tentativa seria usar a carioquice que Deus deu, mas logo vi que não dava. Com o pancadão comendo solto, eu poderia ser persa, judeu, iraniano, que ninguém conseguiria ouvir minha voz. Do nada, alguém pega na minha mão e um sorriso lindo – e úmido – apareceu na multidão. Acho que na RAVE é assim, na pescaria. Fui seguindo, muito mais de olho no seu copo de chopp que nos dotes físicos. Era na descida do underground e a fumaça já anunciava: aqui é chapa quente.
“Essa é fulana, essa é ciclana”, nem perguntaram meu nome, e nem me deram bola. Até hoje acho que a moça me confundiu com alguém, afinal fiquei ali, sem lá nem cá, ignorado solenemente por umas meninas que dançavam alucinadas. Nunca vi animação assim. Filmei o ambiente e nenhuma bebida, agora, somente copos vazios. Do pouco que compreendi naquele festa do inferno foi “Quer uma bala?” Aceitei de imediato. Já que eu não podia dar uns beijos, pelo menos algo para estimular a salivação. Do nada, fui tomado por uma onda esquisita, como se eu tivesse engolido todos os agudos e graves do ambiente. O coração socava meu sangue para os quatro cantos do corpo, dava para ouvir, e fui ficando emocionado com a minha própria existência de ser. No primeiro esbarrão senti todo os meus pêlos do braço ouriçados e o bico do meu peito ficou duro. Cruz-credo. Queria ir embora mas senti tanto medo que comecei a chorar e rir num destempero de sal e doce. Não sei qual foi a hora que comecei a dançar mas talvez tenha sido a melhor saída. Batia o pé no chão feito índio e passava a mão pela cara e a cabeça, suado e despenteado. Minha alegria durou até o celular tocar:
- Alô?Amor?Sou eu sua namorada...
- E o prêmio?Você ta na farra. Dá pra me explicar?
Não tinha percebido mas a minha mandíbula havia também travado com essa bala do capeta e nem conseguia falar nada. Quase babando, tentei escrever uma mensagem mas as teclas haviam triplicado e se mexiam conforme a música. Fui me escorando e descendo o corpo, lentamente, escorregando até o chão. Sentei, encolhi as penas, e percebi uns dois ou três malucos agarrados na caixa de som, tentando entrar pela corneta, pelo alto falante, completamente estranho, lembravam cupins na lâmpada em noite de verão. Com medo de ficar como eles, segui as paredes e depois de girar naquele buraco acabei encontrando o ar puro pela saída de emergência. Era demais pra mim. Descobri uma secura na boca como nunca havia visto e me peguei correndo a caminho de casa, de boca aberta, disposto a vencer quilômetros sozinho, a pé. Putz, começou a chover. Bom, agora o que não falta é água.
sexta-feira, 14 de março de 2008
PARAÍSO DE MIM
Tenho dias de rocha. Geralmente estes são motivados por notícias boas, expectativas ou conclusões pessoais. Mas também tenho dias de areia. Nestes me fragmento em mil e me dissolvo em ausências, discordâncias e saudades. Nos dias de rocha, sou pedregulho rolando ribanceira abaixo, não tenho dúvida nem medo. Aproveito a paisagem que passa na janela, sou o durante, não o antes, muito menos o depois. Nos dias de areia, não tenho rumo próprio, dependo do vento que me orienta e torço para encontrar a quina, o cantinho, onde a sujeira se acumula e o momento dá um tempo para eu ser feliz. Posso dizer que sublimes são os encontros onde alguém une seus dedos mágicos e, fazendo um punhado de mim, me faz sentir gigante. “Afinal basta cair um grãozinho no olho, que já era.” diz ela, se divertindo. Porém não há dúvida da decepção que rege os encontros destruidores de castelos, com suas ondas de egoísmo e insensibilidade, arrastando canais e trincheiras de alga e conchinhas do mar. Não julgue. Taque a primeira pedra quem nunca foi areia, grãozinho qualquer que amanhece encolhido no cantinho do dedão, torcendo para não ser espanado. Varra a primeira areia quem nunca foi rocha, dando cabeçada no vazio, vendo a lágrima cair sem se mexer. Grande ou pequeno, volúvel ou inflexível, estes são os paradoxos do paraíso de mim.
Nesta praia que me tornei sobram espaços para ver o pôr do sol e os cocos saltam
desanimados no chão. No entanto, com a soberba dos grandes resorts, insisto em limitar seu acesso, insistindo na segurança de ter dias completamente iguais. Às vezes, quando o frio bate, cato com um rastejar de lagarto as últimas pegadas que deixam sua identidade displicentemente, sem imaginar o quanto tatuadas elas ficaram na minha memória.
Elas são esquecidas apenas quando os vaga-lumes invadem minhas terras. Sou apaixonado por eles. Lindos, matreiros e egocêntricos, que ofuscam as estrelas e me acordam de uma letargia infinita. São como as fadas que tocam minha esperança com suas mãos leves e me fazem acreditar em coisas mágicas, inimagináveis. Espero aqui sentado, o dia que me crescerão asas e aprenderei com eles o quanto de amor próprio é necessário para se fazer acender por completo. Por enquanto aproveito sua breve presença, fazendo troça do meu amor, fazendo me segui-los por horas até o momento que cansam e desaparecem na escuridão.
Um dia, esta porção de terra, perdida no meio de tanto mar, já foi agarrada a outra porção, que por sua vez se agarrava a tantas outras que me davam um título de cidade ou país. Hoje bate um medo quando vejo as luzes da cidade no horizonte, se afastando de vento em popa e sempre me pergunto se não são mais felizes aqueles que se deixam habitar por qualquer trocado, colando cartazes de propaganda na porta do coração, acabando por criar uma superlotação sentimental. Acho que não. Afinal, ninguém paga pelo silêncio das manhãs sem culpa, da liberdade de ir, vir e ser. Quando esta nau em forma de ilha se encontrar com sua alma gêmea não pegará emprestado suas belezas naturais e sim as multiplicará, afinal, amor próprio é olhar para dentro de si e admirar sua própria paisagem.
Nesta praia que me tornei sobram espaços para ver o pôr do sol e os cocos saltam
desanimados no chão. No entanto, com a soberba dos grandes resorts, insisto em limitar seu acesso, insistindo na segurança de ter dias completamente iguais. Às vezes, quando o frio bate, cato com um rastejar de lagarto as últimas pegadas que deixam sua identidade displicentemente, sem imaginar o quanto tatuadas elas ficaram na minha memória.
Elas são esquecidas apenas quando os vaga-lumes invadem minhas terras. Sou apaixonado por eles. Lindos, matreiros e egocêntricos, que ofuscam as estrelas e me acordam de uma letargia infinita. São como as fadas que tocam minha esperança com suas mãos leves e me fazem acreditar em coisas mágicas, inimagináveis. Espero aqui sentado, o dia que me crescerão asas e aprenderei com eles o quanto de amor próprio é necessário para se fazer acender por completo. Por enquanto aproveito sua breve presença, fazendo troça do meu amor, fazendo me segui-los por horas até o momento que cansam e desaparecem na escuridão.
Um dia, esta porção de terra, perdida no meio de tanto mar, já foi agarrada a outra porção, que por sua vez se agarrava a tantas outras que me davam um título de cidade ou país. Hoje bate um medo quando vejo as luzes da cidade no horizonte, se afastando de vento em popa e sempre me pergunto se não são mais felizes aqueles que se deixam habitar por qualquer trocado, colando cartazes de propaganda na porta do coração, acabando por criar uma superlotação sentimental. Acho que não. Afinal, ninguém paga pelo silêncio das manhãs sem culpa, da liberdade de ir, vir e ser. Quando esta nau em forma de ilha se encontrar com sua alma gêmea não pegará emprestado suas belezas naturais e sim as multiplicará, afinal, amor próprio é olhar para dentro de si e admirar sua própria paisagem.
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