Tínhamos uma fita. Daquelas que enrolam no cabeçote e só a tampa da caneta é capaz de trazê-la de volta a bobina. Paralamas no lado A e B. Ouvíamos sem o encarte, mas repetíamos o que entendíamos e imaginávamos o resto. Incansáveis, sob a benção da amendoeira na Residência das Flores. Só a bonança do décimo terceiro salário vestido de papai noel me trouxe um aparelho de CD e uns trocados: agora eu poderia cantar todas as canções e ouvir sem gastar ou engasgar. Mas para minha surpresa não haviam letras no encarte pobrezinho. Só fotos coloridas, meia dúzia de novas composições e a ficha técnica. Sem alternativa, me limitei a decorar o que tinha e me abestava em discutir a ficha técnica, como se todos os músicos morassem, e de certa forma moravam, na minha casa.
Tantos verões se passaram e eu agora, de mão estendida e coração atrapalhado, olhava para sua careca branca, seu sorriso juvenil de Buda, sentado na cadeira de rodas não prostrado, mas sim flutuante, de alma elevada. Suas músicas, que tomam minha juventude emprestada para chegar com energia aos ouvidos de tantos outros, finalmente estão personificadas em um rosto, um sorriso, um timbre de voz e meia dúzia de perguntas cordiais e inesquecíveis que eram só para mim. Herbert Vianna apareceu assim, na esquina da empolgação com a minha satisfação pessoal de saber flutuar neste ambiente que vai além de croquetes e bebida de graça. João, seu tecladista me segurou com seus dedos de madeira nobre e me guiou feito escavadeira pelo caminho. Aqueles olhos escondidos no meio de sua barba nublada, preta, branca e cinza, tão pequenos feito leds, enxergam em mim algo que não sei o que é porém sou eternamente grato. Temos sintonia, nas viagens, no palco e no gosto pelo bar que escolhemos beber. Entramos no camarim ao lado onde eu, no intimo imaginava ganhar algum tipo de advertência, ou ser apresentado para algum técnico de som morador da região. Mas não. O compositor de tantas canções que arrebata os sentimentos estava ali, pronto para me conhecer. A diferença sutil deste encontro ou dos demais que o destino poderia me reservar por entre as ruas do Leblon ou em qualquer outra onde todo mundo se sente mais carioca, está nas vias que me guiaram até ali. Foi todo o esforço feito pela música pura, toda a batalha pela canção mais certa, pelo detalhe percebido, além de toda a honestidade oferecida a cada show. Foi tudo isso que me levou a conhecer Herbert Vianna. Contei a ele sobre o primeiro CD que comprei, da minha banda de final de semana, do meu gosto por ver um palco cheio de gente. Pude deseja-lo bom show, pude ouvi-lo dizer que deveria me divertir e como nos encontros mais apaixonados me fugiram todos os argumentos e questões interessantes.Não era uma oportunidade de trabalho. Era fã e ídolo. Aquele homem que a tragédia tentou partir ao meio, possui em torno de sua órbita anéis tão poderosos que desestabilizam até os mais insensíveis cidadãos, incluindo seguranças e empresários.
Nos minutos seguintes chegaram todos os outros do meu encarte. Mais velhinhos, alguns mais carecas, com sua prole e mil assessores, amigos e puxa sacos. Eu sentia uma intimidade solitária por cada um deles e tive que me conter para não puxar assunto sobre seus hobbies e manias. No bololô da empolgação alguns da minha banda furaram o bloqueio e se juntaram a mim. Percebi que não havia regredido quinze anos da minha vida sozinho. Os marmanjos que portam armas de fogo no ofício, arquearam suas sobrancelhas ao ver tantos ícones juntos. Puxaram máquinas, celulares, jogaram sorriso, encolheram os ombros e assistiram ao início de mais um show triunfal de trás pra frente, vendo a intimidade daqueles ídolos de sua época. Lá foram eles, entrando no palco um a um, cada qual com sua crença, com seu herói.
Fiquei ali no back stage, sem ninguém, agora sob a benção da Universidade Rural e seus prédios centenários. O contra-regra observava da rampa que dá acesso ao palco e certamente subjugou aquele cara despenteado e sanguessuga de famosos, que aproveitava seus últimos segundos de fama na área vip. Mal sabia ele que aquele era só um garoto, rebobinando sua felicidade, mais uma vez.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
terça-feira, 14 de setembro de 2010
METABOLIZANDO O AMOR
Atrás de suas lentes cor de mel existia uma verdade quando dizia me amar. Eu sempre acreditei que esta era sua intenção. Meu silêncio a fazia desviar o olhar, na momentânea falta de reciprocidade. Mal sabe ela que a amei, desde o primeiro sexo, desde o primeiro riso de bêbado. Nunca a disse porque minhas palavras em sua sopa de letrinhas se embaralhavam e acabavam por ganhar outro significado. Aliás, foram quatro meses onde nossas freqüências se atropelavam e as discussões ganhavam conotação de duas rádios piratas disputando o mesmo canal.
Assim como a morte de uma fada apaga uma estrela do céu, acredito que Deus castigue quem negue uma paixão. O meu calvário foi me interessar por situações impossíveis onde nem o estudo do genoma daria jeito. Comecei a ter gosto estranho pelo adverso, a admirar o paladar do pecado, me viciei nos venenos mais salgados e, numa das manhãs, me vi incapaz de viver com o coração em paz. Pelo sistema de câmeras da consciência dá pra notar o quanto crio meus próprios monstros e medos. A menina das lentes de mel surgiu assim.
Onde hoje é só terra arrasada plantei com as mãos algumas mudas de esperança. Trouxe para dentro da roda uma personagem de outra cor e outra forma, que causou inveja e espanto. A minha menina tinha um poder intocável e seu farol alto cegava toda as outras belezas. Nem nos momentos de fúria deixei de admirar sua natureza perfeita. Mas logo o tecido adiposo da vaidade se instalou em nossa relação, deixamos espaço para a voz alheia e tudo começou a terminar.
Lamento não ter amado com o coração e sim com o fígado. Explico: amar com o coração é jogar tudo numa enorme sala e deixar a panela de pressão gritar pelo seu peito, sentir a temperatura mudar e o sangue cozinhar. Amar com o fígado é metabolizar, filtrar e condensar os sedimentos numa tentativa de descobrir o que é vitamina e o que é excremento. Éramos tão diferentes, tão poderosos e tão amados pelos nossos que seria impossível equalizar os batimentos nessa entrega juvenil. Percebi que éramos amantes e amigos de verdade somente quando estávamos sozinhos, quando os instintos trocavam nossas palavras por afeto e o silêncio do quarto descia seus lençóis sobre nós. Sinto uma saudade chuvosa quando lembro dela tão à vontade, sem público, sem dizer nada, vestida para dormir ou comprar pão. Esta era a minha menina das lentes de mel.
Nosso projeto de amor perdeu seus nutrientes pela minha implicância, pela sua vaidade e pela vida que escolhemos levar. Talvez ela necessite de um jardineiro para, todos os dias, regar seus jardins. Talvez eu precise de alguém que pense somente em aproveitar a viagem do meu lado. A dois dias suas mãos fugiram das minhas deixando marcas de ciúmes e acusações levianas. Não tive mais forças para segurá-la perto de mim e agora me abano no vento como uma bandeira sem navio, sem mastro e sem propósito. Espero que a minha filha, com sua fragilidade cativante, me ensine a ser novamente subserviente aos caprichos femininos e um dia eu compreenda porque, todas as vezes que a menina das lentes de mel entrava no meu carro, me servindo do seu melhor sorriso, perguntava o porque da cara de bobo. Talvez o amor tenha que ser sempre acompanhado de elogios fartos ou talvez, por ver somente sua própria imagem refletida nas minhas retinas, ela nunca tenha lido aquilo que meus olhos queriam dizer.
Assim como a morte de uma fada apaga uma estrela do céu, acredito que Deus castigue quem negue uma paixão. O meu calvário foi me interessar por situações impossíveis onde nem o estudo do genoma daria jeito. Comecei a ter gosto estranho pelo adverso, a admirar o paladar do pecado, me viciei nos venenos mais salgados e, numa das manhãs, me vi incapaz de viver com o coração em paz. Pelo sistema de câmeras da consciência dá pra notar o quanto crio meus próprios monstros e medos. A menina das lentes de mel surgiu assim.
Onde hoje é só terra arrasada plantei com as mãos algumas mudas de esperança. Trouxe para dentro da roda uma personagem de outra cor e outra forma, que causou inveja e espanto. A minha menina tinha um poder intocável e seu farol alto cegava toda as outras belezas. Nem nos momentos de fúria deixei de admirar sua natureza perfeita. Mas logo o tecido adiposo da vaidade se instalou em nossa relação, deixamos espaço para a voz alheia e tudo começou a terminar.
Lamento não ter amado com o coração e sim com o fígado. Explico: amar com o coração é jogar tudo numa enorme sala e deixar a panela de pressão gritar pelo seu peito, sentir a temperatura mudar e o sangue cozinhar. Amar com o fígado é metabolizar, filtrar e condensar os sedimentos numa tentativa de descobrir o que é vitamina e o que é excremento. Éramos tão diferentes, tão poderosos e tão amados pelos nossos que seria impossível equalizar os batimentos nessa entrega juvenil. Percebi que éramos amantes e amigos de verdade somente quando estávamos sozinhos, quando os instintos trocavam nossas palavras por afeto e o silêncio do quarto descia seus lençóis sobre nós. Sinto uma saudade chuvosa quando lembro dela tão à vontade, sem público, sem dizer nada, vestida para dormir ou comprar pão. Esta era a minha menina das lentes de mel.
Nosso projeto de amor perdeu seus nutrientes pela minha implicância, pela sua vaidade e pela vida que escolhemos levar. Talvez ela necessite de um jardineiro para, todos os dias, regar seus jardins. Talvez eu precise de alguém que pense somente em aproveitar a viagem do meu lado. A dois dias suas mãos fugiram das minhas deixando marcas de ciúmes e acusações levianas. Não tive mais forças para segurá-la perto de mim e agora me abano no vento como uma bandeira sem navio, sem mastro e sem propósito. Espero que a minha filha, com sua fragilidade cativante, me ensine a ser novamente subserviente aos caprichos femininos e um dia eu compreenda porque, todas as vezes que a menina das lentes de mel entrava no meu carro, me servindo do seu melhor sorriso, perguntava o porque da cara de bobo. Talvez o amor tenha que ser sempre acompanhado de elogios fartos ou talvez, por ver somente sua própria imagem refletida nas minhas retinas, ela nunca tenha lido aquilo que meus olhos queriam dizer.
sexta-feira, 23 de julho de 2010
DIAS SAGRADOS EM TEMPOS MEDÍOCRES
Estou há dois dias em silêncio. Incomoda a mediocridade da minha vida e tento ver nela algo extraordinário que não tem. Me lembro dos hippies colombianos, com seus piolhos e cordões de miçangas e acho que são mais úteis nesse mundo que eu. Pelo menos não esperam um décimo terceiro salário ou suas férias para se sentirem livres. Eu sim. Voltei para meu berço esplendido, cheio de conforto e vencimentos mensais, tentando me restabelecer das máculas deixadas pela viagem. No corpo ficou tatuada a cicatriz de um sol asteca que não resistiu ao poder ultravioleta do próprio sol verdadeiro...como são fracos os deuses perante a verdade dos nosso dias. Na alma, uma vontade tardia de liberdade, ancorada pela paternidade, profissão e outras convenções sociais. Talvez quando o tempo exigir conforto para minhas artrites e artroses, me dê ao luxo de prestar atenção na marca do colchão, na janela em frente ao rio, no paladar sofisticado do porquinho da índia ao creme de milho ou preferirei travessias por cidades mágicas em vagões de luxo. Mas, por enquanto, tento esticar meus braços e abrir meus dedos até me misturar as muitas raízes e trilhas que confundem o mundo, tento ser mais uma artéria comum que recebe e devolve experiências simples e extraordinárias.
DIA 1 – OS EFEITOS E AS IMPRESSÕES
Nem o boletim reconfortante do comandante me tirou a idéia que algo acontecia de errado com o avião. Dentro do bucho das nuvens, aquela fagulha de aço, que resistia bravamente a pressão atmosférica, se mostrava vulnerável dentro da frente fria que estacionava em cima do Rio Grande do Sul. O fone, que eu quebrei de nervoso, cantava em um só ouvido músicas sem importância, enquanto o outro ouvia o barulho do vento nas asas e turbinas. “Como esse desgraçado por estar dormindo”, pensei quase em voz alta, ao ver meu primeiro companheiro de viagem dormir fazendo beicinho. O menino grande de alma simples havia soltado seus sonhos em gaivotas de papel que brincavam livres pelo vento enquanto eu me cagava de medo.
Depois de um estágio por Buenos Aires, onde pude revisitar sua elegância coberta de pó e cupim e trocar contatos em um bar que nunca mais vai existir com pessoas que nunca mais vão encontrar o guardanapo cheio de anotações que dei, chegamos em Cuzco de tarde, sem malas e com um livro em branco inteiro para contar.
Cuzco me lembrou Ouro Preto, me lembrou Santiago de Compostela, me lembrou Mangaratiba. Pequena e engolida pela curiosidade do mundo, adequou em seus prédios de arquitetura espanhola construída sob as ruínas da capital inca, os supermercados, lojas de camping, casas de câmbio e turismo, que municiam os muitos sonhos que iniciam ou se acabam ali. O povo, que ergueu com os músculos de seus antepassados a cidade chamada de “umbigo do mundo”, hoje está limitado a servir os forasteiros e morar no subúrbio cheio de barro e gordura. A nós, que não temos responsabilidade nenhuma sobre esta realidade, nos resta farejar as curiosidades para contar aos parentes ou confrontar as muitas histórias já contadas destas terras por outros viajantes. Vi logo de cara as riquezas do trabalho manual, seus mil badulaques irresistíveis, que contrapõem a natureza seca e sem ar da altitude andina. Queria comprar de tudo, mas, por ora, contentei com um chapéu. O menino de alma simples, não havia sido enfeitiçado pelo poder inebriante das cores e recebia tudo que via e sentia com total normalidade. Jantamos no terraço de um restaurante chique que nos apresentou a melhor comida entre as piores que iríamos experimentar. A essa hora, o efeito da altitude ainda era meu principal cicerone, com tonteiras repentinas e faltas de ar. Havíamos decidido não beber e vimos uma boate com gente muito doida, até para quem já está acostumado com noites e surpresas. Foi bom conhecer Marilu, tão simples e charmosa bebendo emoliente, foi bom conhecer seu subúrbio e o painel que conta a história dos deuses, mas aquele era o dia de irmos dormir abstêmios e deslocados.
DIA 2 – CITY TOUR E NIGHT ADENTRO
Difícil entender o que o guia estava falando. Não abria a boca e contava mecanicamente suas piadas repetidas sem tesão. Embarcar nos passeios prontos nunca foi meu forte. Me sinto um idiota pronto para ser enganado e explorado por turismólogos sem coração. Gente vendendo DVD, almoço buffet fora da rota, três feirinhas... as ruínas do vale sagrado?Existem, não nego, mas, sem as invencionices que se parecem com uma lhama, que se revelam mágicas sob a luz do sol e que as formações naturais rochosas são na verdade o rosto do inca observador, as ruínas milenares do vale sagrado se tornam apenas restos de uma história muito longe de ser contada com verdade.
Meu companheiro de viagem amolecia perante a vaidade e se deixava fotografar em poses desengonçadas. Em um destes cliques conhecemos a mineira americana que tinha medo de altura mas não tinha medo da vida. Foi fazer intercâmbio nos EUA e seu inglês livre de “Uai” e “trem bom” nos interpelava para fotos e comentários irônicos sobre o passeio. Não sabíamos que cinco dias depois estaríamos dividindo coxinha e planos de passeio de motoca na espera da ponte aérea em São Paulo.
Como já havíamos preparado tudo para o grande dia que começaria nossa caminhada e os efeitos da altitude pareciam ter abrandado suas patas sob o nosso organismo, fomos levados aos mistérios das ruelas de Cuzco, onde oferecem drogas e drinks grátis. Um, dois bares, e nos juntamos aos alucinados da noite anterior, tomando cerveja com gelo por não haver uma gelada em toda a cidade para vender. Quatro horas da manhã, um ônibus de bêbados carregava todos nós rumo a Mollepata.
DIA 3 – O PRIMEIRO PASSO
Gosto de começar as atividades um tanto quanto embriagado. Tenho facilidade de sentir as pessoas e o que me espera sem o peso do meu pessimismo habitual. Nos fundos de uma cantina o café da manhã foi servido e começamos a caminhada de cinco dias como se fôssemos visitar um amigo na outra rua, andando em grupinhos, todos de preto, praguejando as novidades que amanheciam conosco. Só me dei conta que era uma caminhada sem volta quando entramos na trilha mal cortada morro acima, nos livrando do asfalto e encarando a primeira subida. Lá em cima, onde uma vendinha parecida com aquelas que ofereciam água sanitária, chinelo havaiana e cachaça perto da minha casa, se podia ver esticando o pescoço, a montanha gelada de humantay. “É ali que vamos acampar” me disse um dos guias gordinhos esticado no chão descansando o cansaço que ainda viria sentir. Parecia tão longe e ao mesmo tempo tão possível. Neste meio tempo conheci Tati, uma americana cheia de dread e simpatia. Tinha couro de cabrito e gostava de se aventurar. Me contou do trekking com a mãe, falamos sobre Alex Supertramp e me senti dentro de uma manada cuja a raça era a mesma, e a busca por pastos verdes estava só começando.
Aos poucos as conversas se espaçaram, os grupos se transformaram em trios, depois duplas, mais adiante, voltavam a ser grupos. Não havia ninguém no comando, só a força que nos empurrava em direção a grande montanha de gelo. Pirambeiras, cachoeiras atrevidas que cruzavam o caminho, paredões de pedras afiadas, tudo que passava por nós era visto, fotografado e comentado. Preocupado em melhorar o diálogo com o meu próprio corpo, me isolei durante uma boa parte e pude ouvir ruídos quase surdos e cheiros tão estranhos para mim. Um deles era de uma plantinha esfregada nas mãos, que produzia frescor pulmão adentro. Me senti pleno, feliz com minha performance e gastava energia incentivando os mais cansados numa zombaria de profeta que falava com Deus, a natureza e suas forças. Pelo caminho que víamos de longe feito um cabelo enroscado no lençol, chegamos cansados e ruidosos ao acampamento onde um frio negativo nos esperava e as primeiras necessidades faziam os mais corajosos colocarem sua bunda em uma latrina suja e gelada. Nesta primeira ceia tínhamos a paz de sobremesa e tirando o ronco assustador do menino de alma simples que dividia comigo a barraca, poderia dizer que tudo terminou perfeito.
DIA 4 – ALUCINANTE E REVELADOR
O pior de todos. O assustador. O Dia D. assim todos encaravam o segundo dia. Quem não conseguisse poderia contratar desde já um cavalo. Dois não resistiram a tentação. Todo o bando caminhou rumo ao ziguezague que parecia proposital, para desnortear nossos sentidos, tornando o perto, longe. Nestas horas, as pessoas se mostram, se despem de casacos e convenções e passei a conhecer todo o grupo de uma vez só. Aqueles que dividiam uma folha de coca para mastigar e aliviar a pressão, outros que nos esperavam só para dar apoio, ou aqueles que subiram de carreira para ficar do alto bradando sua convicção solitária. Esta dupla carioca acostumada a beira da praia padeceu como nenhuma outra, sofrendo as angústias de um retardatário. Sentia pena do meu companheiro porque via nele o reflexo da própria penura. A trilha sonora que me acompanha em dias assim no ipod, se tornou um uivo dos ventos na janela quebrada, assustando meu pensamentos. Tive sensação de morte, tive delírios com notícias que vinham no vento. Tentava repetir a concentração do dia anterior mas uma imensa avalanche de fracasso me dominou. Era a falta de oxigênio no cérebro ou meu instinto competitivo pisoteado. Cinco passos, dez minutos de descanso. Ao terminar as idas e vindas mágicas ainda tínhamos uma outra reta interminável, onde víamos, lá em cima, as cabeças felizes comemorando a chegada. Gravei um vídeo pra mim mesmo, desisti, chamei o guia mas ele não me deu atenção. Esperava pacientemente metros acima com palavras de incentivo que ainda ouço antes de dormir.
De frente para nós, o Shalkantay se impunha com seus ombros largos, sem sequer nos olhar embaixo. Estávamos misturados as suas pedras e poeira e não éramos nada mais que isso, perante a sua grandiosidade maravilhosa. Apagaram da minha mente os últimos passos. Lembro do aperto de mão de alguém, do abraço quente da americana que já partia e o sorriso satisfeito do meu guia de coração tão grande. Eu e o menino de alma simples nos dividimos para agradecer o feito, empilhando pedras maiores e menores sobre barras de cereal que sobraram no bolso. Recuperei de súbito minha energia e o gigante de gelo agora me olhava da mesma altura, olho no olho, possivelmente satisfeito com a chegada da dupla.
Descemos apressados rumo ao vale, adentrando a vulva verde da mata. Na primeira parada dormi profundo observando o vôo parado do pássaro e as ovelhas que também seguiam como nós seu caminho pré marcado. Ainda tenho o nariz queimado pelo calor do sol que não esquenta. Sorte que o caminho fresco nos salvou de uma insolação. Eu e meu novo companheiro de aventura desfrutamos com tamanha vantagem sob os outros, as canções que tocava no meu aparelho e eu repetia em voz alta. Um pequeno gramado raspado na mata selvagem serviu de pouso firme para o grupo, muito mais íntimo e concentrado.
DIA 5 – CANSAÇO, MONOTONIA E UMA GELADA PRA ACOMPANHAR
Se as chagas da alma ficaram na montanha, outras apareceram no corpo. Um corte que pegava os três dedos do pé, acompanhado de bolhas nos dois calcanhares e uma fissura no dedão esquerdo, transformaram a caminhada mais simples em calvário. Por dentro daquela selva muda, silenciosa, onde nenhum animal se importa em marcar presença, arrastei meu tênis sujo, meu corpo sujo, meus pensamentos sujos até La Playa, nome do acampamento. O dia sem desafios e os poucos quilômetros deram brecha para exigências de homem da cidade, que depois de chegar cansado do trabalho, só queria banho quente e comida na mesa. Óbvio que não existia nada disso. Meu saco de dormir sumiu, a comida acabou antes da hora e a luz, para melhorar o dia, só veio da geladeira que guardava litros da cerveja mais gelada que tomei. Depois disso tudo andou depressa. Os jogos de truco, a lista de melhores filmes, o futebol contra os sulamericanos...a nossa caminhada voltou a ter sentido e mansidão.
DIA 6 – ÁGUAS E CAMAS CALIENTES
Hoje lamento não ter escolhido a caminhada completa mas tenho certeza que meus pés não agüentariam. A carona de van que nos encurtou alguns quilômetros trouxe alegria a cada raspão nos despenhadeiros na via. O dia começou burocrático e chuvoso. Molhou as roupas dentro da barraca e trouxe peso extra nas mochilas que, a partir de agora, éramos obrigados a carregar nas costas. Com novo objetivo a frente e uma enorme excitação em conhecer a cidade onde nos hospedaríamos com mais dignidade para esperar o dia final, trotei firme a frente do grupo arrastando o rapaz de alma simples comigo. Me doía não poder compartilhar com ele os devaneios que tenho sobre qualquer coisa. A prosa sem valor, as opiniões sem afirmação. Não conseguíamos um bom diálogo. Eu, livre das amarras sociais, praguejava turistas, achava e desachava, debochava e me irritava, ele sempre polido e conservador, mostrava a resposta certa que eu conhecia mas não queria ouvir. Pela primeira vez caminhamos para lados opostos mesmo estando indo para a mesma direção.
A chegada na cidade de Águas Calientes extrapolaram nossos sentidos. Agora tínhamos opção e não mais precisávamos andar pra frente. Ruas apertadinhas, danças típicas, churrasco ao ar livre, e parecia que tudo de bom no mundo caberia naqueles três ou quatro quarteirões. Depois do banho e conversas inconvenientes no vaso sanitário, vi o menino de alma simples agitado como nunca. Entendi que era seu coração. Depois de ligações para família e uma rápida visita a internet continuávamos opostos. Ele, recebeu amor gratuito vindo de longe. Eu, fiquei com a preocupação nas reticências deixadas pela mãe da minha filha, ao falar sobre um futuro próximo. Por isso acho que os mortos não fazem contato com os vivos. Eles não seriam tão burros em se preocupar com algo que não podem mudar. Eu deveria ter feito o mesmo e me isolado .Agora tinha meus problemas de caminhada e outros tantos de vida para levar a Machu Picchu. Precisava falar sobre o que ouvi ou esquecer. Infelizmente não tive com quem fazer e deixei que as distrações da noite me conduzissem. De posse a uma garrafa quente de cerveja, fui dançar com conhecidos, depois com estranhos, depois sozinho. Fui o último a chegar no hotel.
DIA 7 – CIDADE SAGRADA
As primeiras imagens que me vem a cabeça estão acompanhadas do sentimento de derrota. Um escadaria infinita cortava a estradinha onde, horas depois, turistas subiriam a cidade sagrada ruidosos e desatentos. A nós, caminhantes e interessados, era proposto o sufoco de chegar na frente a pé para garantir a entrada na montanha mais alta, considerada na entrelinha um privilégio. Por mais que subisse rápido sempre teriam adversários atrás e na frente. Meu companheiro, já íntimo das minhas limitações como ser humano, me sobrecarregava de culpa por ser tão competitivo. Porém sou grato a ele que me arrastou degrau a degrau, não me deixando para trás até mesmo nas horas que seu fôlego sobrava. Ali tive mais uma lição do corpo: não conseguiria chegar no ritmo dos outros. Passei a pular três degraus e descansar um, engarrafava o caminho, ouvia muxoxos mas fui leal aos meus limites. As muitas lanternas que iluminavam e procuram o reinicio da escadaria não sairão da minha cabeça nunca. A mochila caindo, o casaco desamarrando, as pilhas perdidas no mato, os adolescentes americanos que nos olhavam com estranhamento. Tudo ficou aqui na memória pra sempre e só ganhou proporções minúsculas quando depois de pegar o número 319 entrei na cidade sagrada dos incas.
Diferente do passeio pelo vale sagrado, Machu Picchu não precisa de guias para ser inesquecível. Basta olhar sua divisão, seu equilíbrio em um pitoco de montanha que ficou escondido dos espanhóis e de onde, muitos dos incas, se protegeram da matança geral. De baixo não se vê Machu Picchu, de cima se vê a vida passar. A cidade não pretendia ser paraíso, possuía escravos e hierarquia, mas era genuína em sua concepção. Andamos por entre as casas, o túmulo do rei, os templos ao Sol, a cobra, o puma e ao condor, que formam a cruz andina. Mas ao viajar, lá no fundo, também guardo um desejo simplório de estar no mesmo lugar onde aquele rapaz do livro tirou uma foto e me mostrou em sua enciclopédia quando eu ainda era criança. Cheguei ao topo e, mesmo achando que merecia chorar, deixei a emoção condensar e aquecer meu coração. Agora estava realizado, pleno, havia chegado no meu objetivo final. Acho que faltou um abraço geral, um grito de porra, caralho, ou qualquer coisa que se traduza em alegria. Mas também não me incomodo de tê-lo guardado aqui dentro, para qualquer emergência.
DIA 8 – SANGUE E LEMBRANÇAS
Nada de vazio. Presentes, tatuagem e despedida. Era assim o último dia mas não foi assim que aconteceu. Depois de sangrar na mão do inexperiente e empolgado tatuador, perdi minhas forças e iniciei um processo de infecção que ainda me persegue. Nem as investidas das gringas, nem os novos acessórios para os shows, tudo perdeu a graça quando o estado febril quebrou minhas pernas e não conseguia mais me divertir. Como o pequeno príncipe fui picado pela serpente no final da história, na tentativa de tornar eterno um momento que já ficaria pra sempre nas lembranças. Meu amigo de alma simples mostrou que sua ausência de palavras poderia ser compensada por atitudes de pai, irmão, que carrega as mochilas e minimiza a gravidade da ferida purulenta. Assim cruzamos os céus da América do Sul, chegamos em São Paulo e viemos parar aqui, enfiados em nossa rotina, enquanto uma nova viagem não nos salva.
DIA 1 – OS EFEITOS E AS IMPRESSÕES
Nem o boletim reconfortante do comandante me tirou a idéia que algo acontecia de errado com o avião. Dentro do bucho das nuvens, aquela fagulha de aço, que resistia bravamente a pressão atmosférica, se mostrava vulnerável dentro da frente fria que estacionava em cima do Rio Grande do Sul. O fone, que eu quebrei de nervoso, cantava em um só ouvido músicas sem importância, enquanto o outro ouvia o barulho do vento nas asas e turbinas. “Como esse desgraçado por estar dormindo”, pensei quase em voz alta, ao ver meu primeiro companheiro de viagem dormir fazendo beicinho. O menino grande de alma simples havia soltado seus sonhos em gaivotas de papel que brincavam livres pelo vento enquanto eu me cagava de medo.
Depois de um estágio por Buenos Aires, onde pude revisitar sua elegância coberta de pó e cupim e trocar contatos em um bar que nunca mais vai existir com pessoas que nunca mais vão encontrar o guardanapo cheio de anotações que dei, chegamos em Cuzco de tarde, sem malas e com um livro em branco inteiro para contar.
Cuzco me lembrou Ouro Preto, me lembrou Santiago de Compostela, me lembrou Mangaratiba. Pequena e engolida pela curiosidade do mundo, adequou em seus prédios de arquitetura espanhola construída sob as ruínas da capital inca, os supermercados, lojas de camping, casas de câmbio e turismo, que municiam os muitos sonhos que iniciam ou se acabam ali. O povo, que ergueu com os músculos de seus antepassados a cidade chamada de “umbigo do mundo”, hoje está limitado a servir os forasteiros e morar no subúrbio cheio de barro e gordura. A nós, que não temos responsabilidade nenhuma sobre esta realidade, nos resta farejar as curiosidades para contar aos parentes ou confrontar as muitas histórias já contadas destas terras por outros viajantes. Vi logo de cara as riquezas do trabalho manual, seus mil badulaques irresistíveis, que contrapõem a natureza seca e sem ar da altitude andina. Queria comprar de tudo, mas, por ora, contentei com um chapéu. O menino de alma simples, não havia sido enfeitiçado pelo poder inebriante das cores e recebia tudo que via e sentia com total normalidade. Jantamos no terraço de um restaurante chique que nos apresentou a melhor comida entre as piores que iríamos experimentar. A essa hora, o efeito da altitude ainda era meu principal cicerone, com tonteiras repentinas e faltas de ar. Havíamos decidido não beber e vimos uma boate com gente muito doida, até para quem já está acostumado com noites e surpresas. Foi bom conhecer Marilu, tão simples e charmosa bebendo emoliente, foi bom conhecer seu subúrbio e o painel que conta a história dos deuses, mas aquele era o dia de irmos dormir abstêmios e deslocados.
DIA 2 – CITY TOUR E NIGHT ADENTRO
Difícil entender o que o guia estava falando. Não abria a boca e contava mecanicamente suas piadas repetidas sem tesão. Embarcar nos passeios prontos nunca foi meu forte. Me sinto um idiota pronto para ser enganado e explorado por turismólogos sem coração. Gente vendendo DVD, almoço buffet fora da rota, três feirinhas... as ruínas do vale sagrado?Existem, não nego, mas, sem as invencionices que se parecem com uma lhama, que se revelam mágicas sob a luz do sol e que as formações naturais rochosas são na verdade o rosto do inca observador, as ruínas milenares do vale sagrado se tornam apenas restos de uma história muito longe de ser contada com verdade.
Meu companheiro de viagem amolecia perante a vaidade e se deixava fotografar em poses desengonçadas. Em um destes cliques conhecemos a mineira americana que tinha medo de altura mas não tinha medo da vida. Foi fazer intercâmbio nos EUA e seu inglês livre de “Uai” e “trem bom” nos interpelava para fotos e comentários irônicos sobre o passeio. Não sabíamos que cinco dias depois estaríamos dividindo coxinha e planos de passeio de motoca na espera da ponte aérea em São Paulo.
Como já havíamos preparado tudo para o grande dia que começaria nossa caminhada e os efeitos da altitude pareciam ter abrandado suas patas sob o nosso organismo, fomos levados aos mistérios das ruelas de Cuzco, onde oferecem drogas e drinks grátis. Um, dois bares, e nos juntamos aos alucinados da noite anterior, tomando cerveja com gelo por não haver uma gelada em toda a cidade para vender. Quatro horas da manhã, um ônibus de bêbados carregava todos nós rumo a Mollepata.
DIA 3 – O PRIMEIRO PASSO
Gosto de começar as atividades um tanto quanto embriagado. Tenho facilidade de sentir as pessoas e o que me espera sem o peso do meu pessimismo habitual. Nos fundos de uma cantina o café da manhã foi servido e começamos a caminhada de cinco dias como se fôssemos visitar um amigo na outra rua, andando em grupinhos, todos de preto, praguejando as novidades que amanheciam conosco. Só me dei conta que era uma caminhada sem volta quando entramos na trilha mal cortada morro acima, nos livrando do asfalto e encarando a primeira subida. Lá em cima, onde uma vendinha parecida com aquelas que ofereciam água sanitária, chinelo havaiana e cachaça perto da minha casa, se podia ver esticando o pescoço, a montanha gelada de humantay. “É ali que vamos acampar” me disse um dos guias gordinhos esticado no chão descansando o cansaço que ainda viria sentir. Parecia tão longe e ao mesmo tempo tão possível. Neste meio tempo conheci Tati, uma americana cheia de dread e simpatia. Tinha couro de cabrito e gostava de se aventurar. Me contou do trekking com a mãe, falamos sobre Alex Supertramp e me senti dentro de uma manada cuja a raça era a mesma, e a busca por pastos verdes estava só começando.
Aos poucos as conversas se espaçaram, os grupos se transformaram em trios, depois duplas, mais adiante, voltavam a ser grupos. Não havia ninguém no comando, só a força que nos empurrava em direção a grande montanha de gelo. Pirambeiras, cachoeiras atrevidas que cruzavam o caminho, paredões de pedras afiadas, tudo que passava por nós era visto, fotografado e comentado. Preocupado em melhorar o diálogo com o meu próprio corpo, me isolei durante uma boa parte e pude ouvir ruídos quase surdos e cheiros tão estranhos para mim. Um deles era de uma plantinha esfregada nas mãos, que produzia frescor pulmão adentro. Me senti pleno, feliz com minha performance e gastava energia incentivando os mais cansados numa zombaria de profeta que falava com Deus, a natureza e suas forças. Pelo caminho que víamos de longe feito um cabelo enroscado no lençol, chegamos cansados e ruidosos ao acampamento onde um frio negativo nos esperava e as primeiras necessidades faziam os mais corajosos colocarem sua bunda em uma latrina suja e gelada. Nesta primeira ceia tínhamos a paz de sobremesa e tirando o ronco assustador do menino de alma simples que dividia comigo a barraca, poderia dizer que tudo terminou perfeito.
DIA 4 – ALUCINANTE E REVELADOR
O pior de todos. O assustador. O Dia D. assim todos encaravam o segundo dia. Quem não conseguisse poderia contratar desde já um cavalo. Dois não resistiram a tentação. Todo o bando caminhou rumo ao ziguezague que parecia proposital, para desnortear nossos sentidos, tornando o perto, longe. Nestas horas, as pessoas se mostram, se despem de casacos e convenções e passei a conhecer todo o grupo de uma vez só. Aqueles que dividiam uma folha de coca para mastigar e aliviar a pressão, outros que nos esperavam só para dar apoio, ou aqueles que subiram de carreira para ficar do alto bradando sua convicção solitária. Esta dupla carioca acostumada a beira da praia padeceu como nenhuma outra, sofrendo as angústias de um retardatário. Sentia pena do meu companheiro porque via nele o reflexo da própria penura. A trilha sonora que me acompanha em dias assim no ipod, se tornou um uivo dos ventos na janela quebrada, assustando meu pensamentos. Tive sensação de morte, tive delírios com notícias que vinham no vento. Tentava repetir a concentração do dia anterior mas uma imensa avalanche de fracasso me dominou. Era a falta de oxigênio no cérebro ou meu instinto competitivo pisoteado. Cinco passos, dez minutos de descanso. Ao terminar as idas e vindas mágicas ainda tínhamos uma outra reta interminável, onde víamos, lá em cima, as cabeças felizes comemorando a chegada. Gravei um vídeo pra mim mesmo, desisti, chamei o guia mas ele não me deu atenção. Esperava pacientemente metros acima com palavras de incentivo que ainda ouço antes de dormir.
De frente para nós, o Shalkantay se impunha com seus ombros largos, sem sequer nos olhar embaixo. Estávamos misturados as suas pedras e poeira e não éramos nada mais que isso, perante a sua grandiosidade maravilhosa. Apagaram da minha mente os últimos passos. Lembro do aperto de mão de alguém, do abraço quente da americana que já partia e o sorriso satisfeito do meu guia de coração tão grande. Eu e o menino de alma simples nos dividimos para agradecer o feito, empilhando pedras maiores e menores sobre barras de cereal que sobraram no bolso. Recuperei de súbito minha energia e o gigante de gelo agora me olhava da mesma altura, olho no olho, possivelmente satisfeito com a chegada da dupla.
Descemos apressados rumo ao vale, adentrando a vulva verde da mata. Na primeira parada dormi profundo observando o vôo parado do pássaro e as ovelhas que também seguiam como nós seu caminho pré marcado. Ainda tenho o nariz queimado pelo calor do sol que não esquenta. Sorte que o caminho fresco nos salvou de uma insolação. Eu e meu novo companheiro de aventura desfrutamos com tamanha vantagem sob os outros, as canções que tocava no meu aparelho e eu repetia em voz alta. Um pequeno gramado raspado na mata selvagem serviu de pouso firme para o grupo, muito mais íntimo e concentrado.
DIA 5 – CANSAÇO, MONOTONIA E UMA GELADA PRA ACOMPANHAR
Se as chagas da alma ficaram na montanha, outras apareceram no corpo. Um corte que pegava os três dedos do pé, acompanhado de bolhas nos dois calcanhares e uma fissura no dedão esquerdo, transformaram a caminhada mais simples em calvário. Por dentro daquela selva muda, silenciosa, onde nenhum animal se importa em marcar presença, arrastei meu tênis sujo, meu corpo sujo, meus pensamentos sujos até La Playa, nome do acampamento. O dia sem desafios e os poucos quilômetros deram brecha para exigências de homem da cidade, que depois de chegar cansado do trabalho, só queria banho quente e comida na mesa. Óbvio que não existia nada disso. Meu saco de dormir sumiu, a comida acabou antes da hora e a luz, para melhorar o dia, só veio da geladeira que guardava litros da cerveja mais gelada que tomei. Depois disso tudo andou depressa. Os jogos de truco, a lista de melhores filmes, o futebol contra os sulamericanos...a nossa caminhada voltou a ter sentido e mansidão.
DIA 6 – ÁGUAS E CAMAS CALIENTES
Hoje lamento não ter escolhido a caminhada completa mas tenho certeza que meus pés não agüentariam. A carona de van que nos encurtou alguns quilômetros trouxe alegria a cada raspão nos despenhadeiros na via. O dia começou burocrático e chuvoso. Molhou as roupas dentro da barraca e trouxe peso extra nas mochilas que, a partir de agora, éramos obrigados a carregar nas costas. Com novo objetivo a frente e uma enorme excitação em conhecer a cidade onde nos hospedaríamos com mais dignidade para esperar o dia final, trotei firme a frente do grupo arrastando o rapaz de alma simples comigo. Me doía não poder compartilhar com ele os devaneios que tenho sobre qualquer coisa. A prosa sem valor, as opiniões sem afirmação. Não conseguíamos um bom diálogo. Eu, livre das amarras sociais, praguejava turistas, achava e desachava, debochava e me irritava, ele sempre polido e conservador, mostrava a resposta certa que eu conhecia mas não queria ouvir. Pela primeira vez caminhamos para lados opostos mesmo estando indo para a mesma direção.
A chegada na cidade de Águas Calientes extrapolaram nossos sentidos. Agora tínhamos opção e não mais precisávamos andar pra frente. Ruas apertadinhas, danças típicas, churrasco ao ar livre, e parecia que tudo de bom no mundo caberia naqueles três ou quatro quarteirões. Depois do banho e conversas inconvenientes no vaso sanitário, vi o menino de alma simples agitado como nunca. Entendi que era seu coração. Depois de ligações para família e uma rápida visita a internet continuávamos opostos. Ele, recebeu amor gratuito vindo de longe. Eu, fiquei com a preocupação nas reticências deixadas pela mãe da minha filha, ao falar sobre um futuro próximo. Por isso acho que os mortos não fazem contato com os vivos. Eles não seriam tão burros em se preocupar com algo que não podem mudar. Eu deveria ter feito o mesmo e me isolado .Agora tinha meus problemas de caminhada e outros tantos de vida para levar a Machu Picchu. Precisava falar sobre o que ouvi ou esquecer. Infelizmente não tive com quem fazer e deixei que as distrações da noite me conduzissem. De posse a uma garrafa quente de cerveja, fui dançar com conhecidos, depois com estranhos, depois sozinho. Fui o último a chegar no hotel.
DIA 7 – CIDADE SAGRADA
As primeiras imagens que me vem a cabeça estão acompanhadas do sentimento de derrota. Um escadaria infinita cortava a estradinha onde, horas depois, turistas subiriam a cidade sagrada ruidosos e desatentos. A nós, caminhantes e interessados, era proposto o sufoco de chegar na frente a pé para garantir a entrada na montanha mais alta, considerada na entrelinha um privilégio. Por mais que subisse rápido sempre teriam adversários atrás e na frente. Meu companheiro, já íntimo das minhas limitações como ser humano, me sobrecarregava de culpa por ser tão competitivo. Porém sou grato a ele que me arrastou degrau a degrau, não me deixando para trás até mesmo nas horas que seu fôlego sobrava. Ali tive mais uma lição do corpo: não conseguiria chegar no ritmo dos outros. Passei a pular três degraus e descansar um, engarrafava o caminho, ouvia muxoxos mas fui leal aos meus limites. As muitas lanternas que iluminavam e procuram o reinicio da escadaria não sairão da minha cabeça nunca. A mochila caindo, o casaco desamarrando, as pilhas perdidas no mato, os adolescentes americanos que nos olhavam com estranhamento. Tudo ficou aqui na memória pra sempre e só ganhou proporções minúsculas quando depois de pegar o número 319 entrei na cidade sagrada dos incas.
Diferente do passeio pelo vale sagrado, Machu Picchu não precisa de guias para ser inesquecível. Basta olhar sua divisão, seu equilíbrio em um pitoco de montanha que ficou escondido dos espanhóis e de onde, muitos dos incas, se protegeram da matança geral. De baixo não se vê Machu Picchu, de cima se vê a vida passar. A cidade não pretendia ser paraíso, possuía escravos e hierarquia, mas era genuína em sua concepção. Andamos por entre as casas, o túmulo do rei, os templos ao Sol, a cobra, o puma e ao condor, que formam a cruz andina. Mas ao viajar, lá no fundo, também guardo um desejo simplório de estar no mesmo lugar onde aquele rapaz do livro tirou uma foto e me mostrou em sua enciclopédia quando eu ainda era criança. Cheguei ao topo e, mesmo achando que merecia chorar, deixei a emoção condensar e aquecer meu coração. Agora estava realizado, pleno, havia chegado no meu objetivo final. Acho que faltou um abraço geral, um grito de porra, caralho, ou qualquer coisa que se traduza em alegria. Mas também não me incomodo de tê-lo guardado aqui dentro, para qualquer emergência.
DIA 8 – SANGUE E LEMBRANÇAS
Nada de vazio. Presentes, tatuagem e despedida. Era assim o último dia mas não foi assim que aconteceu. Depois de sangrar na mão do inexperiente e empolgado tatuador, perdi minhas forças e iniciei um processo de infecção que ainda me persegue. Nem as investidas das gringas, nem os novos acessórios para os shows, tudo perdeu a graça quando o estado febril quebrou minhas pernas e não conseguia mais me divertir. Como o pequeno príncipe fui picado pela serpente no final da história, na tentativa de tornar eterno um momento que já ficaria pra sempre nas lembranças. Meu amigo de alma simples mostrou que sua ausência de palavras poderia ser compensada por atitudes de pai, irmão, que carrega as mochilas e minimiza a gravidade da ferida purulenta. Assim cruzamos os céus da América do Sul, chegamos em São Paulo e viemos parar aqui, enfiados em nossa rotina, enquanto uma nova viagem não nos salva.
segunda-feira, 21 de junho de 2010
CANTAR, OS PORQUÊS
Para aquela canção sussurrada na hora certa ou gritada sem vergonha em plenos pulmões. Para multiplicar em vozes um pensamento ou despertar sentimentos ainda não convidados pelo coração. Canto para descalços, para rostos suados e almas entregues, canto para bêbados, para bregas que fazem flor de guardanapo, para hippies de brinco de pena e para loucos que dançam antes da música começar. Sem os casais que se encontram entre um verso e outro, sem os padrinhos que tomam meu microfone para cantar, sem os enxeridos que roubam os instrumentos de percussão e sem as moças de todas as idades, cujo os olhos me atravessam para enxergar seu amado em algum lugar no tempo, sem todos eles, não valeria. Sejam afortunados que dobram o cachê, presenteiam com whisk ou para durangos que filam cerveja e cigarro mas marcam presença. Canto para a diversidade e faço dela o meu próprio repertório. Tenho pouco a acrescentar a um hit de sucesso, que já repousa feito sudário na história da música popular brasileira, mas o tico que faço tem garantia, tem chancela, pois foi lavrado por noites esquecidas de ensaio, por finais de semana que se vão, por momentos que perdi e me contento em assistir no computador, por crises de vaidade, discussão, destempero, redenção e pelo eco das muitas casas sem ninguém pra me assistir. Talvez a sutil diferença entre ouvir uma letra original, tocada com a virtuosidade de seu próprio criador e ir assistir ao garoto suado, rebolativo, que busca o tom original mesmo lhe custando a voz no dia seguinte, esteja esta nossa mania de gostar de gente. Não tem jeito: não resisto a gente que gosta de gente.
E no meio da massa que ouve falar numa tal banda boa e, a cada dia, se multiplica pra nos assistir, ainda que longe da pregação no monte das oliveiras, tenho os meus discípulos, meus pulmões, meus ouvidos, meus músculos, meus amigos. São eles que me representam ali embaixo, são eles que não enjoam do mesmo baticum e defendem os desafinos e falhas técnicas do destino. Sem eles a dança fica sem par, o reverbe fica sem seu assovio e o silêncio sem aplauso. Essa trupe de boêmios realiza meu maior sonho ao cantar pois fazem a liga do intimo com o desconhecido, trazendo pra perto convidados que ainda não encontraram seu lugar na platéia. Nos dias de show lotado, fujo e tento me esconder para ter o prazer de vê-los cruzando coincidências e afinidades que vão além das comunidades do orkut. São nestes ombros fortes que jogo todo meu pessimismo e insegurança. Espero que estes poucos inesquecíveis que trocam sorriso por canção saibam da minha gratidão. Não devo a eles um pedacinho desta pseudofama que acabará numa primavera qualquer porque só eles sabem que gosto mesmo é de estar ali embaixo, cheio de abraços, fungadas e gracejos, escorado pelo carinho e alto astral a quem, muitas vezes, não pude dedicar mais tempo para repetir o quão são importantes.
Depois de três anos carregando caixas de som, lotando, amassando e empurrando carro, aprendendo sobre graves, médios e agudos, começo a responder para mim mesmo os porquês de cantar mil e noventa e cinco vezes algumas letras e melodias. Canto para unir o maior número de pessoas possíveis que já possuem a minha presença como ponto zero de uma nova amizade. É no rejunte destas histórias que quero estar para sempre. Quero morar na nostalgia alheia e ter tanta, tanta, tanta história pra contar que Deus arrumará um jeito de renovar meu contrato de vida aqui na Terra. Um dia o mar em calmaria vai me arrastar lentamente em direção a velhice e vou ter motivos para acreditar mais no passado que no futuro. Nestes valerão todas as bebedeiras homéricas, decepções sentimentais, ciúmes, testemunhais, mensagens de celular, transas sem trégua, cochilos no sofá seguidos de manhãs com caldo de cana na feira dos pastéis recheados de carne, queijo, frango e saudade.
Para Aline, Camila, Tânia, Nilvinha, Andrea, Eloá, Graça, Alberto, Carla, keiti, Marcia, e poucos outros que são para sempre.
E no meio da massa que ouve falar numa tal banda boa e, a cada dia, se multiplica pra nos assistir, ainda que longe da pregação no monte das oliveiras, tenho os meus discípulos, meus pulmões, meus ouvidos, meus músculos, meus amigos. São eles que me representam ali embaixo, são eles que não enjoam do mesmo baticum e defendem os desafinos e falhas técnicas do destino. Sem eles a dança fica sem par, o reverbe fica sem seu assovio e o silêncio sem aplauso. Essa trupe de boêmios realiza meu maior sonho ao cantar pois fazem a liga do intimo com o desconhecido, trazendo pra perto convidados que ainda não encontraram seu lugar na platéia. Nos dias de show lotado, fujo e tento me esconder para ter o prazer de vê-los cruzando coincidências e afinidades que vão além das comunidades do orkut. São nestes ombros fortes que jogo todo meu pessimismo e insegurança. Espero que estes poucos inesquecíveis que trocam sorriso por canção saibam da minha gratidão. Não devo a eles um pedacinho desta pseudofama que acabará numa primavera qualquer porque só eles sabem que gosto mesmo é de estar ali embaixo, cheio de abraços, fungadas e gracejos, escorado pelo carinho e alto astral a quem, muitas vezes, não pude dedicar mais tempo para repetir o quão são importantes.
Depois de três anos carregando caixas de som, lotando, amassando e empurrando carro, aprendendo sobre graves, médios e agudos, começo a responder para mim mesmo os porquês de cantar mil e noventa e cinco vezes algumas letras e melodias. Canto para unir o maior número de pessoas possíveis que já possuem a minha presença como ponto zero de uma nova amizade. É no rejunte destas histórias que quero estar para sempre. Quero morar na nostalgia alheia e ter tanta, tanta, tanta história pra contar que Deus arrumará um jeito de renovar meu contrato de vida aqui na Terra. Um dia o mar em calmaria vai me arrastar lentamente em direção a velhice e vou ter motivos para acreditar mais no passado que no futuro. Nestes valerão todas as bebedeiras homéricas, decepções sentimentais, ciúmes, testemunhais, mensagens de celular, transas sem trégua, cochilos no sofá seguidos de manhãs com caldo de cana na feira dos pastéis recheados de carne, queijo, frango e saudade.
Para Aline, Camila, Tânia, Nilvinha, Andrea, Eloá, Graça, Alberto, Carla, keiti, Marcia, e poucos outros que são para sempre.
segunda-feira, 17 de maio de 2010
UMA LEONINA CHAMADA MARYSOL
A moça que eu gostava não me quis. Foi embora como um balão que se afasta das mãos de uma criança e ganha o céu, impiedoso. Recorri a companhia da família para um passeio ameno numa quinta feira de calor. A cidade já vivia as cólicas do final do ano, com gente nas calçadas tomando cerveja e planejando o décimo terceiro salário. Ela também estava lá. Havíamos marcado a grosso modo, deixando espaço para o destino e seus caprichos. Já nos conhecíamos e havíamos ficado juntos, nada inesquecível, mas agradável o suficiente para um novo encontro. A observei à distância um punhado de tempo. Ainda procurava os olhos verdes que não me queriam e não teria paciência para os detalhes e melindres dos primeiros encontros. Mas ela me viu e manteve sua conversa com dois ou três conhecidos que ajeitavam suas penas e aprumavam-se na esperança de tê-la. Me surpreendeu tamanha a indiferença. Era uma pequena bonita de vestido branco, que tropeçava no português e nas opiniões simplistas sobre a vida, mas seu charme, seu cheiro de pitanga e o brilho de seus chapeados sempre brilharam mais aos meus olhos. A tomei para mim naquela noite. Talvez pelo medo de perdê-la ou pela competição irracional masculina. Minha tia e afilhada, boas companhias, nos deixaram livres tomando um táxi para casa. Eu e a pequena de vestido branco dançamos, suamos, nos excedemos em beijos públicos e carinhos indiscretos. A noite que parecia ter fim óbvio mudou seu rumo quando, deitados na cama, a inércia de seus movimentos me surpreendeu: ela dormiu.
A manhã seguinte não demorou a aparecer na janela lembrando que era dia de pegar no batente. Levantamos da cama como soldados que foram alistados para uma guerra que já havia chegado ao fim. Uma ducha morna para ativar os neurônios e pronto, a idade e a falta de compromisso tornaram tudo mais leve. E nesta fluidez de corpo molhado e cumplicidade transamos de olho no relógio com justiça e angústia no coração. Poderia ter sido muito melhor.
- Alô, aru, sou eu.
- Caramba! Como está, sumida?Tem mais de um mês que não falamos...
- Estou grávida.
A praça que escolhi para conversar nem de longe parecia divertida como na minha infância. Deserta, com brinquedos abandonados e bancos duros, onde cruzei as pernas como borboleta e enfrentei a situação disposto a resolvê-la ali mesmo. Não era precisamente uma novidade para mim. Só não contava com a força daquela pequena gigante, com navalha na língua, enfrentando minhas propostas e ameaças sem descanso. Defendia seu ninho como uma fêmea ferida, me mostrando os dentes rindo, ora por deboche, ora por nervoso. Me estendeu o exame de sangue e falamos sobre teste de DNA, advogado, golpe e qualquer outro argumento que eu conhecesse para escapar. Ela só queria a certeza que meu sobrenome estaria ali, depois do dela. Convenci ter um novo encontro para decidir o que já estava decidido.
A primeira vez que falei como pai foi em Santiago do Chile, na casa dos novos amigos que bebiam e se preparam para encarar uma noite sem fim. Foram solícitos e camaradas. Outra língua e outros amigos me fizeram acreditar que o problema estava longe demais para me preocupar. E foi assim que cruzei, estados, países, festas e os primeiros dias de 2010. Mas vê-la novamente bastou para que eu voltasse a enxergar a realidade. Me disse que não havia sentido diferença no seu peso e não se via grávida. Tinha algo diferente nela. Mais sensível, castigada, talvez. Acabou confessando que a ficha caiu. Falamos de vidas atrapalhadas, de medo. Não sabia mais o que queria. Tive pena de nós dois e segurei as lágrimas que apareciam em reprise. Os mesmos ponteiros que nos fizeram transar às pressas continuavam seu trabalho impiedoso mostrando que precisávamos decidir. Quarta-feira de cinzas varreremos nossos confetes ou começaremos nosso carnaval, ficou decidido um novo encontro assim. E as cores e sentimentos que trouxe de Olinda ainda estavam na mochila quando a vi cruzar a rua. Não era mais a menina de vestido branco, nem a fêmea assustada, era a mãe do meu filho.
Se existe dúvida de uma mulher em relação ao seu rebento, ela se transforma em amor quando é ouvido, pela primeira vez, seu coração. Ela ouviu e chorou. Nos limitamos a organizar as rotinas e responsabilidades e curtimos, ainda constrangidos, o momento. Não tínhamos intimidade para viver aquilo. Encostei a ponta dos dedos na sua barriga e tenho certeza que meu filhote sentiu a presença do pai pela primeira vez.
Hoje tenho um berço desmontado e algumas dezenas de bibelôs e roupinhas que ficam em cima do armário. Falta isso e aquilo, mas não falta mais coragem para enfrentar e consciência para me dedicar a este novo projeto de vida, que mexerá com os finais de semana, o orçamento mensal e a minha preocupação de dar o melhor de mim. O que ainda me fragiliza é a incapacidade de contar uma história diferente do meu nascimento. A roda da vida deu um giro e parou no mesmo lugar. Por isso, tento encarar de frente, com armas na mão, as ranhetices e muchochos de quem teve oportunidade de viver em uma estrutura familiar tradicional e por isso acredita que esta seja a única maneira de ser feliz. Não me casarei com a mãe do meu filho para silenciar minha imprudência nem trocarei meu estilo de vida e convicções para sentar na poltrona do papai. Posso estar tomando o caminho mais longo, não sei. Só não tenho dúvida que vou estar acompanhado das minhas mulheres solitárias, tão acostumadas com as surpresas da vida, além de uma dezena de amigos e parentes que deixaram um pouco do brilho de seus olhos para mim, quando souberam da notícia. Tenho muitas dúvidas ainda. Das mais idiotas, como o manejo da mamadeira e marca de carrinho, até as mais complexas, como percentual de pensão. Mas daqui a três meses, uma leonina chamada Marysol virá responder a tudo isso por mim.
A manhã seguinte não demorou a aparecer na janela lembrando que era dia de pegar no batente. Levantamos da cama como soldados que foram alistados para uma guerra que já havia chegado ao fim. Uma ducha morna para ativar os neurônios e pronto, a idade e a falta de compromisso tornaram tudo mais leve. E nesta fluidez de corpo molhado e cumplicidade transamos de olho no relógio com justiça e angústia no coração. Poderia ter sido muito melhor.
- Alô, aru, sou eu.
- Caramba! Como está, sumida?Tem mais de um mês que não falamos...
- Estou grávida.
A praça que escolhi para conversar nem de longe parecia divertida como na minha infância. Deserta, com brinquedos abandonados e bancos duros, onde cruzei as pernas como borboleta e enfrentei a situação disposto a resolvê-la ali mesmo. Não era precisamente uma novidade para mim. Só não contava com a força daquela pequena gigante, com navalha na língua, enfrentando minhas propostas e ameaças sem descanso. Defendia seu ninho como uma fêmea ferida, me mostrando os dentes rindo, ora por deboche, ora por nervoso. Me estendeu o exame de sangue e falamos sobre teste de DNA, advogado, golpe e qualquer outro argumento que eu conhecesse para escapar. Ela só queria a certeza que meu sobrenome estaria ali, depois do dela. Convenci ter um novo encontro para decidir o que já estava decidido.
A primeira vez que falei como pai foi em Santiago do Chile, na casa dos novos amigos que bebiam e se preparam para encarar uma noite sem fim. Foram solícitos e camaradas. Outra língua e outros amigos me fizeram acreditar que o problema estava longe demais para me preocupar. E foi assim que cruzei, estados, países, festas e os primeiros dias de 2010. Mas vê-la novamente bastou para que eu voltasse a enxergar a realidade. Me disse que não havia sentido diferença no seu peso e não se via grávida. Tinha algo diferente nela. Mais sensível, castigada, talvez. Acabou confessando que a ficha caiu. Falamos de vidas atrapalhadas, de medo. Não sabia mais o que queria. Tive pena de nós dois e segurei as lágrimas que apareciam em reprise. Os mesmos ponteiros que nos fizeram transar às pressas continuavam seu trabalho impiedoso mostrando que precisávamos decidir. Quarta-feira de cinzas varreremos nossos confetes ou começaremos nosso carnaval, ficou decidido um novo encontro assim. E as cores e sentimentos que trouxe de Olinda ainda estavam na mochila quando a vi cruzar a rua. Não era mais a menina de vestido branco, nem a fêmea assustada, era a mãe do meu filho.
Se existe dúvida de uma mulher em relação ao seu rebento, ela se transforma em amor quando é ouvido, pela primeira vez, seu coração. Ela ouviu e chorou. Nos limitamos a organizar as rotinas e responsabilidades e curtimos, ainda constrangidos, o momento. Não tínhamos intimidade para viver aquilo. Encostei a ponta dos dedos na sua barriga e tenho certeza que meu filhote sentiu a presença do pai pela primeira vez.
Hoje tenho um berço desmontado e algumas dezenas de bibelôs e roupinhas que ficam em cima do armário. Falta isso e aquilo, mas não falta mais coragem para enfrentar e consciência para me dedicar a este novo projeto de vida, que mexerá com os finais de semana, o orçamento mensal e a minha preocupação de dar o melhor de mim. O que ainda me fragiliza é a incapacidade de contar uma história diferente do meu nascimento. A roda da vida deu um giro e parou no mesmo lugar. Por isso, tento encarar de frente, com armas na mão, as ranhetices e muchochos de quem teve oportunidade de viver em uma estrutura familiar tradicional e por isso acredita que esta seja a única maneira de ser feliz. Não me casarei com a mãe do meu filho para silenciar minha imprudência nem trocarei meu estilo de vida e convicções para sentar na poltrona do papai. Posso estar tomando o caminho mais longo, não sei. Só não tenho dúvida que vou estar acompanhado das minhas mulheres solitárias, tão acostumadas com as surpresas da vida, além de uma dezena de amigos e parentes que deixaram um pouco do brilho de seus olhos para mim, quando souberam da notícia. Tenho muitas dúvidas ainda. Das mais idiotas, como o manejo da mamadeira e marca de carrinho, até as mais complexas, como percentual de pensão. Mas daqui a três meses, uma leonina chamada Marysol virá responder a tudo isso por mim.
terça-feira, 23 de março de 2010
PESSOA SÉRIA COMO MEU PEUGEOT
Meu pai chamou na garagem hoje de manhã. Queria mostrar o botão que regula a altura do farol. Me postei de frente ao carro enquanto ele, com seu sorriso tímido de sóbrio, mexia a engenhoca pra lá e pra cá. Por mais que tentasse ainda não conseguia imaginar que aquele carrão era meu. Nunca tive um destes com cheiro de novo, muito menos manual de instrução. O que aprendi foi sob o bigode e as mãos sujas de graxa do Broa, que sempre me respondia as dúvidas com ironia. O universo de porcas, chupeta e repimboca é muito vasto e não sabia o que, de fato, era verdade. Mesmo assim sei dar tranco, conferir as velas, dar pancada no arranque, jogar gasolina na borboleta do carburador, entre outras proezas.
Na noite anterior o levei para passear. Me senti incomodado, assustado, como se assumisse uma grande responsabilidade. Meu novo carro novo parecia são bernardo nas mãos de um adestrador sem talento, rosnando a cada vez que meu pé pesado errava o tempo da marcha. De repente tive a sensação de ter enguiçado, parado completamente no sinal que ia abrir. Não nego que, em algum lugar no meu íntimo, gostei de ver aquele bicho vencido mas foi só pisar no acelerador. O motor silencioso me enganou.
A moça que me pegou no colo já estava dormindo, a outra que fez brotar um pé de laranja lima no meu coração também. Os amigos de vida toda possivelmente estavam acordados, mas em outro lugar do mundo onde não poderiam encher meu carro de gritos e tapinhas nas costas. Me tranquei no silêncio do ar condicionado e olhei a cidade sem seus ruídos e verdades. Creio que por isso ainda não associe um esportivo de luxo a diversão. O dia que furei o bloco de carnaval passou pela minha cabeça. Como não havia ar condicionado nem vidro escuro, balançaram tudo e quase pularam lá dentro ao me conhecer. Terminei a noite abençoando seus pontos cardeais com óleo ungido da minha tia pastora, que sempre repete o gesto contra olho grande e afins. Sua oração, junto com um seguro dispendioso, me guardarão de todo mal, amém.
Queria ter me despedido do vermelhinho. Não era assim que o chamava, mas gostaria de ter colocado um apelido. Era valente de pulmão, subia morros e costurava nas estradas com desdém, mas sua idade avançada, 23 anos, impedia estripulias. Na verdade meu possante se tornou um trabalhador duro, aborrecido, sem os mimos do passado. Não havia desembassador, nem cinto regulável, nem vidro elétrico. Sua última baixa era o banco de motorista escorado com madeira. Eu procurava focar naquilo que estava inteiro e o elogiava quando podia. Limitei aonde ir e economizava no consumo de sua energia desligando o cd player. Mas não deu. Serei eternamente grato a sua cumplicidade. Com ele fui parado pela polícia três vezes por suposto atentado ao pudor. Com ele saiam 10 pessoas empilhadas e todo um sonho de fazer o melhor show da banda que começava. Já o empurrei no motel e já fiz novas amizades entre uma ajuda e outra. Já decepcionei muitos caroneiros mas também nunca me roguei a passar por caminhos escuros e incertos. Acabo de perceber que tenho medo de me tornar uma pessoa séria como meu Peugeot, cheia de mecanismos que substituam os sentimentos.
Pela rotina do trabalho não pude me despedir como gostaria. Mas se o vermelhinho tivesse aquele botão de regular os faróis, tenho certeza que hoje eles também estariam para baixo.
Na noite anterior o levei para passear. Me senti incomodado, assustado, como se assumisse uma grande responsabilidade. Meu novo carro novo parecia são bernardo nas mãos de um adestrador sem talento, rosnando a cada vez que meu pé pesado errava o tempo da marcha. De repente tive a sensação de ter enguiçado, parado completamente no sinal que ia abrir. Não nego que, em algum lugar no meu íntimo, gostei de ver aquele bicho vencido mas foi só pisar no acelerador. O motor silencioso me enganou.
A moça que me pegou no colo já estava dormindo, a outra que fez brotar um pé de laranja lima no meu coração também. Os amigos de vida toda possivelmente estavam acordados, mas em outro lugar do mundo onde não poderiam encher meu carro de gritos e tapinhas nas costas. Me tranquei no silêncio do ar condicionado e olhei a cidade sem seus ruídos e verdades. Creio que por isso ainda não associe um esportivo de luxo a diversão. O dia que furei o bloco de carnaval passou pela minha cabeça. Como não havia ar condicionado nem vidro escuro, balançaram tudo e quase pularam lá dentro ao me conhecer. Terminei a noite abençoando seus pontos cardeais com óleo ungido da minha tia pastora, que sempre repete o gesto contra olho grande e afins. Sua oração, junto com um seguro dispendioso, me guardarão de todo mal, amém.
Queria ter me despedido do vermelhinho. Não era assim que o chamava, mas gostaria de ter colocado um apelido. Era valente de pulmão, subia morros e costurava nas estradas com desdém, mas sua idade avançada, 23 anos, impedia estripulias. Na verdade meu possante se tornou um trabalhador duro, aborrecido, sem os mimos do passado. Não havia desembassador, nem cinto regulável, nem vidro elétrico. Sua última baixa era o banco de motorista escorado com madeira. Eu procurava focar naquilo que estava inteiro e o elogiava quando podia. Limitei aonde ir e economizava no consumo de sua energia desligando o cd player. Mas não deu. Serei eternamente grato a sua cumplicidade. Com ele fui parado pela polícia três vezes por suposto atentado ao pudor. Com ele saiam 10 pessoas empilhadas e todo um sonho de fazer o melhor show da banda que começava. Já o empurrei no motel e já fiz novas amizades entre uma ajuda e outra. Já decepcionei muitos caroneiros mas também nunca me roguei a passar por caminhos escuros e incertos. Acabo de perceber que tenho medo de me tornar uma pessoa séria como meu Peugeot, cheia de mecanismos que substituam os sentimentos.
Pela rotina do trabalho não pude me despedir como gostaria. Mas se o vermelhinho tivesse aquele botão de regular os faróis, tenho certeza que hoje eles também estariam para baixo.
quinta-feira, 4 de março de 2010
MAR E VENTO VÊ
pra sempre você vai lembrar
o dia que o mar resolveu parar
e nenhuma onda bateu
esperando um beijo ou um sorriso seu.
ficar aos seus pés
entre os dedos em forma de espuma
colar e anéis
meus tesouros pra que não suma mais.
acorda vem vê o que o mar trouxe pra você
acorda vem vê o que o vento levou...
pra sempre não vai esquecer
o dia que o vento quis te ver
e nenhum catavento moveu
esperando um abraço ou um aceno seu.
enrolar seus pêlos
abrir portas que estão no caminho
sentir seu cheiro
cada vez que se move o destino sim.
acorda vem vê o que o mar trouxe pra você
acorda vem vê o que o vento levou...
o dia que o mar resolveu parar
e nenhuma onda bateu
esperando um beijo ou um sorriso seu.
ficar aos seus pés
entre os dedos em forma de espuma
colar e anéis
meus tesouros pra que não suma mais.
acorda vem vê o que o mar trouxe pra você
acorda vem vê o que o vento levou...
pra sempre não vai esquecer
o dia que o vento quis te ver
e nenhum catavento moveu
esperando um abraço ou um aceno seu.
enrolar seus pêlos
abrir portas que estão no caminho
sentir seu cheiro
cada vez que se move o destino sim.
acorda vem vê o que o mar trouxe pra você
acorda vem vê o que o vento levou...
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